É o carvalho!

Mas porque cargas d'água tem gente tão mau humorada assim?

Se tão por fim com os humores (as umidades) transbordando em negras ondas de fétido hálito e cara de lerda e triste sapiência, adiciono ainda a condição de infeliz senhora de poucos adornos naturais.
O tal feminino colorido dos dias ensolarados.

Ozzy phode

Clique Ozzy

Um brasileiro no Brasil

Cheguei sábado no Brasil e me senti brasileiro, mas em uma condição especial como se estivesse flutuando entre pessoas ou num universo paralelo, separado por um vidro transparente.
Um brasileiro no Brasil e não mais um brasileiro do Brasil.
É claro que o carinho das pessoas que me rodeiam, as mais próximas e atentas à minha condição e sensibilidade extrema, são grandes fortalezas de proteção e presença.
Mas de tudo que me é atento e me faz grande, sinto muita falta da Nanci e de sua singular presença na minha vida, seus encantos, nosso dia-a-dia.
Pela primeira vez volto ao Brasil e minha mãe não está aqui. Isso faz uma grande diferença. Mas jamais poderia acreditar que me faria flutuar ou me deixar invisível. Não, tais condições emocionais não fazem uma pessoa virar um super-herói voador ou invisível. E também não é segredo que os melhores são incógnitos na multidão.

Não poderia ser pior

No começo é uma névoa de coisas tristes.
Nem a eira e a beira de coisas assim são explicáveis,
Nem os olhos vêem, nem o coração não sente.
A fragilidade é muito aparente desde então,
A estética muda porque não sabemos mais honrá-la.

Assim estamos porque nos basta assim.

A novidade é que não poderia ser pior,
Então só pode melhorar.

Está chovendo.
A chuva deve trazer alguma novidade do céu:
- Eu fecho os olhos e te vejo correndo com pressa.

Um Dia Antes

Esta foi a ultima carta que escrevi para ela.

Mãe:

Penso em você todos os dias, toda hora.
Depois que volto do serviço, dou algumas voltas de bicicleta para emagrecer e espairecer. E esse texto esta sendo datilografado na minha memória enquanto pedalo. Na verdade, agora que digito, são quase cinco e meia da manhã.
Sempre penso que aquela brisa que bate na minha cara poderia ser sua também.
Tem o sol.

O sol primaveril do Japão, você sabe, tem o constante sabor da vitória, do renascer. Depois de longo inverno, todos nos que aqui estivemos sob tal manto de frio e silencio, acreditamos que toda a vida se renova, a esperança, os louvores, o amor de Francisco de Assis para o enigma do árduo e silencioso trabalho das irmãs formiguinhas. Em toda primavera elas saem das tocas e voltam aos afazeres.
Logo chegam as cigarras para nos ensurdecer com seu rock’n’roll. E assim também renovamos a velha fabula.
Por isso, por mais outonal que seja este seu momento, acredite, há uma primavera em algum lugar.
Penso em você toda hora porque é uma maneira muito peculiar de orar. Talvez exista de fato uma energia invisível e positiva e talvez ela seja transmitida por pensamento. E é através dessa via que posso lhe dizer coisas.
A minha voz, meu cheiro, meu olhar, meus cinco sentidos ainda não estão ai ao seu lado. Mas você sabe que estou. Porque você está aqui.
Pense em coisas boas. As melhores coisas boas possíveis. Uma árvore pode ser uma coisa boa. A sombra dela. O crescimento silencioso que ela faz para alcançar o lugar mais alto entre a terra e o céu para dançar junto com a ventania e a chuva.
Pense na chuva. Nas águas de marco, no dia 25 de marco. Pense que essa musica de Jobim é pra você. Eu acho que isso é uma coisa muito boa pra se pensar.
Pense no carinho das pessoas que estão ao seu redor.
Pense que cada lagrima que passa pelos meus olhos é uma gota de um esperançoso remédio espiritual possível junto a todos que as boas e profissionais enfermeiras lhe trazem.
Acho que passei anos tentando aprimorar minha literatura só para tentar transmitir todo meu amor por essa carta.
Pode ser que tenha a frieza das letras digitais, da tinta artificialmente impressa, do ruído da impressora. Mas acredite, essas letrinhas viajaram num misterioso e tecnológico caminho na velocidade da luz, quase a velocidade dos anjos.
Pense na minha voz e no meu pensamento ditando cada letra, cada palavra e virgula para meus dedos teclarem no ritmo do meu coração.
Logo estarei ai. Logo serei mais um nesse circulo de amor e carinho em que você se encontra.
Já são 6 horas da manhã.
Agora moro muito próximo de um templo xintoísta. Daqui da janela de cima, é possível vê-lo ao norte, seu jardim, suas árvores.
Ao sul da minha casa, um pouco mais distante, há um templo budista com um daqueles grandes sinos japoneses. E nesse momento, o sacerdote está batendo as seis badaladas matinais. O mantra do alvorecer. O aviso de que mais um dia chegou para protagonizarmos nossas existências.
Escreverei mais e mais. Até a minha chegada, leia-me. É uma forma de presenciar-me.
E também é uma forma de presentear-te.

Besos!
Seu filho,
Nei

Pra Minha Mae

Além do horizonte deve ter
Algum lugar bonito
Pra viver em paz
Onde eu possa encontrar a natureza
A alegria e felicidade com certeza
Lá nesse lugar o amanhecer é lindo
Com flores festejando mais um dia
Que vem vindo
Onde a gente pode se deitar no campo
Se amar na relva escutando o canto dos pássaros
Aproveitar a tarde sem pensar na vida
Andar despreocupado sem saber a hora de voltar
Bronzear o corpo todo sem censura
Gozar a liberdade de uma vida sem frescura
Se você não vem comigo
Tudo isso vai ficar
No horizonte esperando por nós dois
Se você não vem comigo
Nada disso tem valor
De que vale o paraíso sem amor
Além do horizonte existe um lugar
Bonito e tranquilo pra gente se amar

A Dona Adelia faleceu hoje as 7:55 da noite, em Curitiba PR.
Ela era a minha mae.
Num blog, somos todos silenciosos e ciosos com os nossos mais profundos sentimentos.
No entanto, tentamos, a cada post publicado, deixar uma marca.
A da minha mae, entre muitas, foi ser fa do Rei Roberto. Nao que essa fosse a mais mais para ela, mas sempre que eu a escuto, lembro da corajosa e forte Dona Adelia.
Lembrem-se dela, da cancao e da minha mae. E do nosso amor.
Cinquenta leitores diarios e nenhuma coisa interessante pra dizer.

Passada a onda, fico a ver navios,
13 caravelas chamadas Titanic.

Mas afunda junto essa ansiedade blogueira.
Enfim, sos - ou SOS.

Jovens renovam a cena do jazz em SP

RONALDO EVANGELISTA
Colaboração para a Folha

Quem caminhava pela Nova York dos anos 1940 ou 1950 podia entrar em um clube (como o Minton's ou o Five Spot) e dar de cara com músicos como Thelonious Monk, John Coltrane ou Dizzy Gillespie fazendo revoluções no jazz.
No Rio de Janeiro, no começo dos anos 1960, quem passasse pelo Beco das Garrafas encontraria jovens injetando novas possibilidades na bossa nova, criando o samba-jazz.
E quem estiver na São Paulo atual, visitando casas noturnas do Centro ou de Pinheiros, encontrará uma nova e empolgante cena de jazz.
Jovens músicos na faixa dos 20 anos se juntam em diversas formações, tocam em casas que se abrem ao gênero para um público cada vez mais interessado e trazem novas ideias ao jazz feito na cidade.
Em lugares como Bar B ou Tapas, Jazz nos Fundos ou New Jazz Bar, as noites são quentes nas intenções, nos resultados e nas possibilidades.
Uma das bandas mais interessantes desse cenário é o Otis Trio, originalmente de Santo André e, desde 2007, coletando ouvintes por festas, clubes, bares e casas de show (atualmente, fazem temporada aos sábados no Bar B).
O contrabaixista João Ciriaco diz que o projeto nasceu quando ele convidou amigos para tocar temas famosos."Mas, logo nos primeiros ensaios, o que iríamos tocar ficou para trás. Era mais legal tocar coisa nossa", lembra.
"Hoje temos cem anos de história como matriz a ser degustada, assimilada e repassada ao nosso modo, dentro do contexto em que vivemos", diz o guitarrista Luiz Galvão.
Se a linguagem é clássica, os pilares são reestruturados. O som dessa nova cena musical pode parecer o de sempre: baixo acústico, solos de sax tenor e trompete, bateria incansável, improvisos de piano e guitarra. Mas ninguém ali quer dizer o que já foi dito. O novo é o velho revisto.
O quarteto À Deriva, que está lançando seu terceiro disco, "Suíte do Náufrago" (selo independente), é outro nome que pode abalar um ouvinte mais desavisado com a sofisticação do som, tão poético quanto o nome da banda.
"Uma característica que sempre esteve presente no nosso trabalho é a improvisação livre. Buscamos tocar sem amarras de estilo, de forma, de hierarquia entre os instrumentos", afirma o contrabaixista Rui Barossi.
Marcos Paiva, que lidera um trabalho de novos arranjos e novas composições sobre as harmonias e os ritmos do samba-jazz, acaba de gravar com o MP6 o disco "Meu Samba no Prato", em homenagem ao baterista Edison Machado.
"Tenho a impressão de que a nossa música instrumental sempre sofre uma ruptura. Ela não se recicla, parece que não conseguimos desenvolver essa tradição", diz Paiva. "Esse trabalho nasceu da vontade de fazer uma ligação com as pessoas da geração anterior."
Boca a boca nas redes
Também inspirada no samba-jazz e com disco para sair, a big band Projeto Coisa Fina é dedicada à obra do músico Moacir Santos (1926-2006), também em novas composições e arranjos.
Parte do Movimento Elefantes --composto por dez grupos paulistas de sopro--, o Coisa Fina tem feito shows cada vez mais cheios. "Tocar no Studio SP é uma vitrine para o público da balada. O mais importante é o boca a boca. Esse lance de redes sociais está pegando fogo, e nós estamos aprendendo a aproveitar", diz o contrabaixista Vinicius Pereira.
E o público que acompanha a cena? Barossi, do À Deriva, define: "São pessoas que estão dispostas a entrar no barco e a participar da viagem. A graça está em se deixar soltar dos preconceitos e fruir a música que fazemos na hora. Se estiverem de fora da brincadeira, vão achar só uma maluquice".

Mondocani e os Jeovás

Testemunhas de Jeová aparecem de tempos em tempos na casa de Mondocani.
Ele se recorda quando morava sozinho e dois caras apareceram num domingo de manhã e ele atendeu com uma cara marcada de dobra de fronha e gim tonica. Eram dois jovens americanos muito brancos, vestido com ternos pretos iguais e com um cabelinho meio réco, meio carecas do ABC de Massachusetts. Naquele apartamento, Mondocani tinha um pôster do The Dark Side of the Moon, do Pink Floyd, bem na entrada. Puxaram uma revista e falaram falaram e ele disse eu não entendo inglês. Brazilian? Ok! E tirou da mochila um exemplar em português.
Um deles falava e falava e não tirava os olhos do pôster da banda. Jeová deve ser bem sacana, Mondocani pensou. Esses dois podiam estar num show do Offspring pulando e se jogando um no outro e não, tão aqui enchendo o saco de um roqueiro velho num domingo de manhã.
Mondocani disse wait e fez gesto para eles segurarem a porta. Entrou, foi ao banheiro e urinou. Voltou com a velha cara de fronha e gim, mas com uma satisfação matinal garantida.
Eles devem ter percebido todo o movimento por causa do tenro barulho de descarga ecoando naquele apartamento sem muitos móveis.
Fala fala fala e um deles não tirava os olhos do pôster. Mondocani então perguntou do you like Pink Floyd? Quando ele ia dizendo yes, I do o outro lhe deu um cutucão com o cotovelo.
Mondocani achou que Pink Floyd era meio blasfemo ou pagão pros carinhas. Ou podia ser que depois de certa idade era melhor vestir-se daquela maneira e fuder com o sono alheio. Ou se fosse uma foto de uma playmate eles seriam mais breves e picariam a mula. Ou se não tivesse nada na parede.
Foram breves. A máscara caíra. Um deles passara a vida toda ouvindo Gilmour e companhia. Ou os dois. Desceram as escadarias e ganharam a calçada. Mondocani os acompanhou pela janela e viu que discutiam. Talvez seu disco preferido fosse Echoes ou Ummagumma.
Mas no Brasil, Mondocani conheceu um Jeová que curtia Marillion.
Grande merda.

Eu canto os olhos de minha mulher

No banco da praça escreverei teu nome e não darei aos pombos.

No banco da praça não escreverei teu nome
Porque já está escrito bem dentro de mim.

Por lá sentei para lembrar dos teus olhos,
Daquela mareação triste que enxergo com a alma
E vejo.

As arvores que vejo são as que tocamos e vejo
Também muito além as que não sabemos como plantar.

Mas vejo teus grandes olhos e sei
Que pairam sobre mim como um canto,
Um manto de sobrenatural satisfação.

Gente boa

Reencontrei muita gente de dois anos pra cá. Gente brasileira virtual, gente brasileira que voltou ao Japão, gente japonesa que nunca foi.
Gente é bom, nunca em demasia, mas gente, gente que Caetano cantou.
Todos que reencontrei estão bem e na sua forma e solução, no passo a passo que nem percebem, percebemos, mas ai estão – e sempre.
A ressalva, a exceção à regra, o porém do ensolarado piquenique existe.
Tem a euforia do tapa no bamba e depois vem a lombra, aquele pequeno intermezzo com bocejos e um cochilo acenando.
Um desses reencontros deu-se assim.
Uma pena, a pessoa numa lombra densa e sonífera.
Mas ele esta lá, firme, convicto, para sempre assim. Há mais de vinte anos assim.
Sim, ele pode, todos podem.