O grande lance de 2011

Foto surrupiada do Facebook da Cris.


Muitas coisas bacanas em 2011.
Algumas, em contrapartida, bem chatas.
Outras - a maioria - cotidianas e usuais como uma torneira pingando.
Ainda bem.

Mas de tudo que vimos e fizemos em 2011, confraternizar com a Cris e o Daniel o nascimento do Gabriel foi um show de expectativa realizada e muitas, mas muitas feições de felicidades, como essa foto.

E também sou meio que testemunha. Quando estive no Brasil em 2010, o Daniel me confidenciara que era a hora de ser papai e que também era a vontade da Cris. Não de ser papai, mas mamãe, claro.

Tenho boas lembranças daqueles dias. Eles foram muito bacanas, gentis e excelentes anfitrões quando estive em São Paulo.

Enfim, o Gabriel nasceu e é o pioneiro da 4a. geração da nossa família desde o dia em que nossos bisavós sairam de Sunayama, extremo norte do Japão, para aventurarem-se no Brasil.

Espero conhecê-lo e vê-los em breve.

Feliz 2012 a todos nós.

Beleza?

Dane-se o tempo

Tinha um cara.

Esse cara estava atrasado.

Ele tinha uma poesia na cabeça.
Dane-se o tempo.

Esse poema falava e ecoava e ricocheteava.
Quase gritava.

Dane-se o tempo.

Sobre o frio

Nos ossos.

Na cara congela,
no vidro gruda.

Sem meias, morro.

Nos olhos o branco
no sono pesado.

Cuia de missoshiro
cuida de esquentar.

Nos ossos, na pele da
cara o tapa estilingue.

Água
quente quente quente
de chegar a sentir amor.

Frio no zero, no um,
lá pelos 5 ainda é frio.

Matinas cantante tiritando
por um café quente com as
mãos espalmadas
abraçando a caneca
cafeína irmã.

Cuia de sopa qualquer uma.

Sem meias, sou um ultraje.

Lá fora
estão
ventando
todos os
pontos de
Borges
num uivo só.

- Frio da porra, porra.

Mondocani e essa época

2011 foi um ano. Menos um.

Cada ano que passa Mondocani sabe que é menos um de vida. Menos um do distante marco zero em que nasceu. Mondocani pensa assim sobre os minutos. Sobre as esquinas também. Sobre as pessoas que poderia ter dito "ei, você tem mal hálito" ou "por favor, fale menos o pronome eu" ou "seja mais legal, menos babaca".

Mondocani pensa nos instantes que ele mesmo viveu e que foram disperdiçados com coisas irrelevantes como o tempo gasto nas prateleiras de tênis e calçados, escolhendo molhos de tomate ou assistindo programas ruins de tevê aos domingos.

Mondocani pensa que isso pode ser uma atitude bastante pessimista, mas sabe e crê que certos otimismos são uma forma muito séria de racionalizar para o nada.

Mondocani não acredita no invisível. Nem em forças universais. Não acredita que todas as pessoas estão fadadas à felicidade e alegria.

Mondocani sabe que muita gente, a imensa maioria está aqui apenas porque foi parida e nem sabe porque está aqui depois que foi apenas parida.

Vida de merda, pensa Mondocani.

Olha aquele ali com a pastinha, o terno, a gravata e deve estar cheirando a alguma lavanda vencida que passou na cara de manhã.

Olha aquela outra com os óculos comprados num desses outlets de barganhas chinesas.

Olha as paredes, os muros, os blindados, as grades, os porteiros, seguranças, walkie-talkies, krav magá, coldres, senhas, olhares e medos.

2012 virá com tudo, espera Mondocani.

Muita gente vai morrer em 2012. Muita gente famosa. Muita gente anônima vai nascer em 2012 e será muito famosa mais pra frente. E depois morrerá.

2012 será inteiro esperando acabar logo para que os maias estejam tão errados quanto estava Nostradamus, o visionário cafona.

Mondocani acha que o calendário maia acaba em 2012 porque as pedras onde eles esculpiam os calendários acabaram durante a execução do trabalho e que no meio dos Andes, carregar qualquer pedrinha é mover um Pão de Açúcar.

Por isso 2012. Poderia ser 60765. Ou 1.

Mondocani quer apenas assar uma carne, dar pulinhos nas ondas do mar, tomar um espumante e sonhar no um segundo que separa o ontem do amanhã.

Esperar o amanhã é melhor que vivê-lo, pensa Mondocani.

Brindar e brincar de ser feliz.

Mais que isso é otimismo irracional.

Talvez em 2012 comece um livro, conclui Mondocani.

Norte

As pessoas choram compulsivamente a morte do líder norte coreano.

O ocidente ainda está em dúvida sobre a veracidade das lágrimas do povo, das imagens transmitidas pela tv estatal de lá, se são ensaiadas ou não.

Bicho, ou chora, ou morre.

Pois bem, a última emitida pelo governo deles foi que até a natureza chora a morte do tampinha.

Aliás, festa free no céu desde então.

Você achou que era no inferno?

Nem no inferno querem aquele trapo.

Barça

To lendo por aí que o Santos representou o futebol brasileiro em Yokohama e por conta disso o futebol brasileiro foi humilhado nos 4 x 0.
Papo furado.
Destronado de seu pedestal de ar foi o time praieiro e só.
Além do Muricy que se acha o Einstein do vestiário.
O time praieiro não representa o futebol brasileiro, representa a si mesmo e sua torcida.

Eu já sabia que ia ser um show do Barça.
Se eles deram show com meio time reserva na semifinal, que dirá na final.
Quatro gols sem atacantes fixos, 70% de posse de bola, em média. É show.

Uma coisa é certa, não seria diferente com outro time brasileiro, nem como Timão.

Também tão dizendo que a torcida Corinthiana, por não torcer pro Santos, é anti-patriota.
Eu digo por mim, nunca fui patriota, torço pro Timão e pra Seleção.
Então, vão todos lamber o Vasco que também é vice.
Não torci pro Barça. Torci pra ter um jogo de 5 x 5, 10 x 10.

Mas foi um peso pesado e um sparring miúdo.
Que pena.

Paulistanos que se cuidem, os preços praianos serão abusivos por conta do mal humor.

O Barça é a Holanda que vence.

Mondocani está cansado neste Natal

Mondocani leu na internet que morreu o Sérgio Britto. O ator, não o músico dos Titãs.
Mondocani também não sabe se o ator tocava algum instrumento ou se o músico já atuara em alguma peça, filme ou propaganda de tv. Isso poderia confundir as partes, o morto e o vivo.
Mondocani se pergunta se o fato de alguém saber tocar algum instrumento musical, seja gaitinha ou flautinha soprano de loja 1,99 o faz merecer o título de músico.
Ou também se alguém que aparece numa propaganda de tv segurando uma lata de chocolate em pó o faz ator.
Mondocani sabe que o ator morto fez uma adaptação de uma peça que virou uma outra adaptação chamada "Águas Claras".
E as águas desse palco contribuiram para o alterego de Mondocani ser quem é.

Isso merece um solene respeito ao homem e artista Sérgio Britto.

Mondocani também leu que morreu um carnavalesco.
Mondocani já tinha lido em outro lugar - e em outra ocasião - que quando morre um carnavalesco, ele vira purpurina.
Também leu que a presidente Dilma disse que o carnaval ficará mais triste com a morte de Joãosinho Trinta.
Mondocani gostaria de perguntar a ela: mas Presidente, carnaval não é triste?

Morreu aquela cantora Évora.
Dizem que o som era bom. Mondocani nunca ouviu nada assim assim.
Mondocani percebe por aí que as pessoas louvam os mortos por suas obras enquanto vivos. Parece óbvio e é.
Mas não dá pra louvar o trabalho de alguém que não lhe apetece o coração ou que lhe fez mudar tanto enquanto tocava no rádio do carro que o faz virar uma esquina errada ouvindo tal canção.
Essa moça Évora merece mesmo descansar.

Mondocani também está cansado, mas vivo.

Tem também o cachorrinho que foi espancado. Mondocani assistiu o vídeo numa manhã, tomando um café preto e forte.
A cafeína e a cena nauseabunda reagiram de tal forma na cabeça de Mondocani que ainda não passou.
Provavelmente a cafeína já tenha virado xixi, mas a vaca arrombada daquela biscate de Goiânia espancando o cachorrinho ainda não.
Enquanto via as cenas, Mondocani pensava numa canção do Roberto.

"Quero ver você de perto, quero ver você de perto".

Se Mondocani visse aquela mulher de perto, sabe que não ia ser nada bom para ela.

Nem para ele. Provavelmente iria puxar uma cana depois de vê-la.

Em várias partes do mundo, a arte ficou menor por conta dessas três mortes.
E o coração das pessoas muito menor por causa da dor do cachorrinho.

É, Feliz Natal.



Ardil

Sobre o silêncio que não existe.
Existe um infindável barulho de eletrônicos imitando silêncios.
Existem luzes apagadas e escuridão dentro da escuridão.
Coisas. Livro fechado no colo, chuvas e guarda-chuvas, perfil de gente triste.


Vivas, as mãos estão vivas e tocam as paredes pensando em envelhecimento.
Não te vejo faz tempo. Nem você, você e você.
Lixo humano no planeta Marte. Multibilionário detrito teórico.
Praia vazia não enerva ninguém.


Mas eu grito.
E nada acontece.
Independente.
Solo de trombone ultrapassando o limite do ponderável.

Caminhões com suas sombras imensas escondem o sol.
Sol sozinho. Sempre pensativo.
Fui até o mercado e comprei berinjelas.
As berinjelas me acompanharam quietas até em casa.

Ardil.
Um dia caiu uma ameixa num manjar e de lá nunca mais saiu.
Ardiloso.
Há quem vá e volte. Há quem venha e fique. Há amor.

De invernada

I
Estou há dois dias com isso na cabeça:
"É como se a cada dez minutos passasse um índio velho gritando:
- Ôu! Ôu!
Gritei de volta. O puto era surdo."


II
Hoje comemos salmão grelhado. Tudo é muito bom, a cor, cheiro, paladar, textura. Jogo orégano por cima, azeite e está pronto.
Fiquei com vontade de comer salmão por causa de um documentário que assisti sobre o Alaska, seus ursos e a piracema dos salmões na primavera.
Mesmo com aquela cara de bobo, o urso pardo tinha uma expressão feliz de saciado.
Acho que a cara larga junto com os olhos juntos fazem do urso um bobão-souvenir meio parrudão e mal humorado, solitário e guloso.
Todo mundo teve um urso de pelúcia. Todo mundo que é urbano. É como joelho ralado.


III
Joelho Ralado seria o nome que eu daria a uma banda.
Ia encher os culhões de pedais de distorção, plugar a guitarra e imitar as performances do Sonic Youth.
De todas as coisas feitas pra se chatear, acho que tocar em bandas de rock é a melhor. Depois vem livro ruim de autor bom. A gente lê até o final pra depois inflar o peito pra dizer que nesse ele derrapou. Nessas horas é importante ter mais de um na manga porque alguém vai citar um trecho bom e te derrubar. Você dá um gole - ou uma garfada, são pausas com timing perfeito - e cita outro livro de outro autor. Pode ser uma mentira. Não pode ser uma coisa pedante tipo Goethe. Tem que ser no nível e padrão do autor controverso amado/odiado. Se o cara citar outro trecho novamente, aponta o dedo mal educado das duas mãos e fura os olhos dele. Pelo menos acaba a amizade. E ele nunca mais vai te ver. Ou ler.


IV
Depois do salmão é importante ter um pedaço de chocolate por perto. O aftertaste é insuportável. Peixes em geral levam essa maldição.
É pior que lamber joelho ralado, juro.


V
Como é que uma pessoa racional pode acreditar que energiza um copo d'água com a mão? Se mãos fossem essas antenas de superpoderes mágicos, imaginem o poder de cura daqueles canos do teto de ônibus. Uau.


VI
Ontem assisti um filme brasileiro onde o diretor tentou usar a cidade de São Paulo como personagem.
Acho isso uma das coisas mais difíceis de se fazer. São poucas as cidades que se deixam filmar com essa clarividência de intenções. Algumas cidades são muito iguais a outras ou são muito feias em suas diferenças.
Em algumas cenas, principalmente nas iniciais, acaba-se confundindo de cidade ou só quem passou por ali sabe que ali é ali.
Filmar alguns prédios famosos num rasante de helicóptero é uma patetice clichê.
São Paulo vira uma anedota de cidade grande porque mesmo sendo tudo isso que sabemos que ela é, seu provincianismo ainda insiste em ser doce, cinza e nublado.
O filme era ruim, na verdade.


VII
Domingo à noite pode ser paulatinamente desgraçado. Pode ser.
Para conformados e inconformados é o pouco a pouco sob efeito de sedativos que não fazem efeito algum.
Pior que domingo à noite é olhar por relógio e ver que já são dez minutos da segunda.


VIII
- Porque eu? Porque eu? - Pergunta o índio surdo.

PPP - Pés punks (not) podres

A maioria das pessoas não sabe, mas eu tenho um par de sapatos. Não estão aqui nos meus pés, estão ali no armário, na caixa original por onde vieram. Esse par usei apenas uma vez, com eles fui a um casamento em Tokyo. Ña verdade, fui como sempre fui, de tênis, All Star, preto, cano longo.
Lá em Tokyo calcei o par de couro, solenemente, tão importante e sóbrio como uma madre superiora.
Não tenho nada contra sapatos sóbrios e importantes. Até gosto do conjunto terno, gravata, camisa branca e um belo par nos pés. Acho tudo muito próximo de uma guerra num filme de ficção científica, uma coisa meio Matrix, o Senhor Smith ou os Homens de Preto. Massa. Posso acabar com o Neo ou com esponjinhas tagarelas que moram no Bronx, em New York.
Pode ser um show do Nick Cave também.
Mas prefiro tênis. Gosto muito do solado de borracha macia me mantendo em pé. Não que eu seja um esportista, longe disso.
O fato é que o tênis é a quintessência do foda-se.
Como depois dos quarenta o foda-se destina-se aos milionários ou ídolos de rock (lê-se claramente Keith Richards ou Iggy Pop e outros raros), resta-nos os tênis nos pés como bandeira.
Calçar o All Star preto cano longo é fazer o ritual e reza para a capa do disco dos Ramones. Isso basta e engrandece, faz o dia. Se for um sábado, vira dois.
Calçá-los é gritar por dentro o gabba gabba hey e manter o coração com quinze anos. Um foda-se utópico e pequeninho, mas constante.
Yeah.

PS. Mas se eu fosse milionário, teria o enorme prazer de usar meias novas todos os dias. Todo dia um par novo. É antiecológico, fibras, poliéster, cachemira, etc. Mas foda-se.

PENTA CAMPEÃO BRASILEIRO! (De verdade)


Sócrates Brasileiro Sampaio de Sousa Vieira de Oliveira

Foi o jogador mais inteligente que já vi jogando, articulando, passes precisos, gols magistrais, dribles desconcertantes.

Passes tão perfeitos de frente e de costas que foi o melhor toque de calcanhar de todos os tempos.

Capitão da melhor seleção brasileira que já assisti.
Valdir Peres, Leandro, Oscar, Falcão, Luizinho e Júnior.
Nocaute Jack (massagista), Sócrates, Cerezo, Chulapa, Zico e Éder.  

Pelé? Não.
O nome dele é Sócrates, o Doutor.

Líder e mentor da Democracia Corintiana.
Elisa (torcedora símbolo), Solito, Sócrates, Ataliba, Casão, Zenon e Biro Biro.
Mauro, Daniel González, Alfinete, Paulinho e Wladimir.

Pra sempre, pra sempre.

Yabadaba Buda 6

- Você nunca viu uma árvore crescer? Ouve, ela grita por espaço.

- ...

- É por causa do barulho do pensamento, atrapalha mesmo.

Six por seis

I
Lembra do norueguês que explodiu o centro de Oslo e depois meteu bala em mais de 70 pessoas num acampamento?

Isso mesmo, lembrou.

Psiquiatras ligados ao caso estão dizendo que ele é louco, que sofre de esquizofrenia paranóica e que na ocasião dos atentados não estava são.

Precisaram de meses de entrevista com o cara para chegar a essa conclusão?

Eu acredito que a ciência deva ser empírica, claro, mas esse tipo de resultado chega à beira da idiotice.

Será que havia alguém por ali que acreditava que ele estava são e consciente naquelas horas?

E se estivesse, não seria pior?

O foda é os caras dizerem que por conta desse laudo psiquiátrico, o assassino esquizofrênico paranóico pode ser considerado penalmente irresponsável (!) por seu ato, não ir a julgamento e ser trancafiado numa instituição para tratamento.

Que, pelo menos, será perpétuo.

Também acho que instituições psiquiátricas e penitenciárias têm o mesmo singelo teor ideológico e mecânico-funcional quanto aos muros, segurança, isolamento, drogas (legais ou não) e banhos de sol. Ou seja, seis por six.

II
Ao andar nos bairros residenciais por aqui, sente-se e vê-se a diferença na altura dos muros entre o Brasil e o Japão.

A claustrofobia brasileira gera bairros inteiros de muros e telhados, mal dá pra ver a casa.

Além dos sobrados com cobertura na garagem para proteção da casa e do carro. A sala que é bom, bau-bau de sol.

Mas em países seguros e avançados como a Noruega, o cara vai lá e pimba, ou seja, essas coisas dão um nó sociológico mesmo.

III
Um grande amigo meu me perguntou porque eu não volto logo para o Brasil e deixo esse país que tem espasmos epiléticos geográficos. Eu disse que era por causa da segurança, trabalho e que a violência do Brasil me afasta sempre, cada vez mais.

Ele disse que prefere bala perdida a terremoto.

Na verdade, a roleta russa é uma só. O sorteio funesto não tem vencedores, só perdedores. Tanto um terremoto como uma bala chegam sem avisar. Six por seis.

IV
O que importa é sentir-se bem, Brasil, Oslo ou na Meseta. Em qualquer situação o tic-tac é inevitável.

- Mas catso, não dêem corda nessa porra de relógio!



Yabadaba Buda Five

Yabadaba Buda lê as manchetes:

"Manifestações juvenis por todo o mundo"

Wall Street, Viaduto do Chá, USP, Paris, Londres.

- É bom ver o inconformismo vivo e sempre atento - pensa.

- Mas o ruim é não ter uma boa trilha sonora. Um menestrelzinho dos dias de hoje - dá a dica.

Domingo

Adoro a preguiça de domingo porque ela é desprovida de culpa.
O sol entra lento e silencioso pelo vão da cortina.
O sol é tão manso que come na palma da mão.

Adoro a preguiça da manhã de domingo,
do cheiro de café por todos os poros da vida
dos vizinhos assoviando, dos cães alheios a tudo.

A preguiça de domingo tem a trilha sonora da gargalhada,
das histórias de domingo, dos passeios de domingo.
Até a roupa dança mais feliz no varal num domingo.

Adoro a preguiça de domingo sob as cobertas de inverno,
botar música para te ver domingo, guitarras elétricas de domingo,
cuidar do nosso pezinho de manjericão com a água de domingo.

Esperança

Quando especificam sensações às cores sinto que querem vender algo muito maior que a simplicidade da sensação - por si só.

É tipo dizer verde-esperança.

A esperança tem a cor que for. Pode ser o creme-claro suave e brilhante da baunilha gelada e redonda sobre a casquinha crocante para ser finalmente mordida aos borbotões. A baunilha das tardes de cabulação de aula. Das folhas varridas no canto da praça e o vento soprando uma a uma como estrofes de uma tristeza que nunca houve.

Jardins a perder de vista, jardins barrocos a perder de vista. 

Meus olhos seguem os seus que seguem as folhas que seguem o vento que seguem o redondar do mundo. Redondo como a bola doce de baunilha. Um mundo doce é sinal de esperança.

Sinal dos tempos de festas possíveis para serem verdes e cheias de esperança, porque não?

A esperança pode ser uma gota. A última gota da madrugada, de floral, vinho ou saliva para um palato inconsequente.

A esperança não cabe numa noite, mas cabe no instante. Não se cultiva em vasos, mas dá-se em jardins barrocos.

(Flores na porta - a campainha - interjeções de surpresa de uma quarta-feira nublada. A esperança cabe atrás da nuvem junto com o sol.)

O sol é sempre igual, por isso é novo, é meu.

A esperança é a voz de Tori Amos cantando mares, borboletas, cafés e mais sensações.

Esta específica esperança ocupa a casa, cada possível recanto átomo-molecular atemporal. Ficará ali para sempre e um dia haverá tecnologia capaz de detectar essa força da natureza que é a música grudada nas paredes que tocou. Será ensurdecedor e ficará provado que o silêncio não é a única faceta mágica de deus.

Qualquer deus. Até os feinhos e verdes.

Natalismos

O mundo fica comovido com o Natal porque comemora-se o nascimento de um deus. Um deus filho de mãe virgem e pai cara de paus. Um deus que depois de adulto andava com um bando de homens e uma adúltera - ou puta - nada se confirma.
Acho que o Bolsonaro não ia gostar muito desse cara.
Um deus que morreu pendurado em local público no meio de ladrões.
É, o Bolsonaro ia mandar crucificar esse cara.

Há muitos anos atrás trabalhei numa gráfica que fazia embalagem para alimentos. Qualquer coisa, desde rótulo para garrafa pet a biscoitinhos de natal. Foi nesse lugar que arrebentei minhas costas de tanto trocar aqueles enormes cilindros de impressão.
Num desses natais, ou próximo da data, um rapazinho estava olhando uma dessas embalagens que fazíamos. Era um boneco de neve sorrindo numa noite de lua cheia com o trenó e as renas do papai noel cruzando a lua feito a bicicleta do garoto do E.T. e o nome do produto. Quando cheguei perto dele, me perguntou a origem do christmas party. Expliquei que era o nascimento de Jesus. Que Jesus? Iesu, eu disse em japonês. Mas o que Iesu tem a ver com Santa Claus? Longa história, mas não disse qual a longa história. E ele que não acreditava mais em papai noel ou trenós voadores, depois dessa não ia acreditar em Jesus, amor, caridade e blablablá.

O último natal que passei com a minha mãe foi aqui no Japão, há muitos anos. Como não é um país cristão, não é feriado e por isso tudo foi muito simples e corrido: um jantar, a pequena e torpe tristeza dessa noite, saudade de muita gente no Brasil e os olhos no relógio pois tínhamos que trabalhar no dia seguinte. Sem grandes brindes, sem nada maior que minha mãe, eu e a Nanci. Nada maior que um natal inesquecível.

Sempre achei que as grandes comemorações de fim de ano revelam a tristeza que tudo isso carrega. Por isso são pantagruélicas, fartas, etílicas, populosas, barulhentas. Disfarçam a pequeneza de nossas mais tenras e egoístas emoções. É natural. É natural que comemoremos a boa nova, a nova vida e o recomeço da vida no ano novo. Mas não somos tão sórdidos, mesquinhos ou meramente egocêntricos. Somos apenas solitários e insistimos em comemorar nossa solidão com todo mundo. Não é que as coisas sejam falsas e nós os enganadores. Nada disso. É só solidão, um agrupamento de solitários com seus segredos e virtudes e defeitos tomando cidra como se fosse magia.

E é.

Dia do Músico

Três acordes, um grito, um refrão e mais nada.


22 de novembro, Dia do Músico.


Todo dia também é.


Minha Fender fazendo pose de vedete.

Por falar em prato

I
Queria ser um poeta mais prolixo, desses monumentais, desencucados e que vão escrevendo torto e a direito sem pensar se vão entender.
Mas se não me entenderem, quem eu entenderei?

II
Se eu pudesse melhoraria meu vocábulário. Falaria jantar ao invés de janta.
Mas comeria do mesmo jeito, sem muitos talheres, apenas um garfo e empurrando com o polegar.

Não sei se o acúmulo de vocábulos nos trazem à tona para requintes e velas e flores e algumas taças a mais.
Pode ser.
Pode ser que não.
Pode vir que sim.
Pode ir que no.

III
Gosto de amendoim no yakisoba.
Pode ser amêndoa ou castanha de caju,
mas amendoim é mais cheiroso.

para o meu novo sobrinho

Quase caí na asneira de ler uma matéria intitulada "Como parar de fumar em 5 dias". Que bobagem. Pra parar de fumar basta um instante e depois não fumar mais. Fiz isso há alguns anos e never more. Acordei num sábado de novembro e pensei de hoje em diante não fumo mais. Pronto.

Outra é essa neo-intolerância desses cristãos babacas com quem não acredita em deus. São tão estúpidos que acham que agnóstico é uma nova denominação pentecostal.

Preferia quando o Brasil era apenas católico e macumbeiro. Pelo menos todo mundo era politicamente incorreto.

Tenho trabalhado muito. Mas é assim mesmo.

O filho do Paulão se chama Alexandre, nasceu hoje, é paulistano e tem tudo para ser feliz e legal como o pai. Se tudo der certo, está fadado aos devaneios e às rimas, às longas noites e aos amigos meio birutas.

Quero um carro novo que pode ser usado, mas novo. Quero uma mesa digital de 8 canais, mais que isso é pra sobrar muito. Quero assistir uma peça do Plínio Marcos, qualquer uma. Quero um final de semana completo.

Final de semana completo não é uma questão temporal. Nesse sentido, ele será naturalmente completo, de sexta à noite até o último suspiro acordado do domingo.

Final de semana completo é um final de semana completo. Você consegue?

Quero trabalhar menos e ganhar o mesmo tanto. É assim mesmo.

Quero raios de sol sem câncer.

O inverno está chegando lento e quente. Dias quentes suportáveis com uma camiseta de manga comprida. Noites frias tiritantes.

Entre um e outro, o pôr do sol entre novembro e março sempre é uma satisfação à parte.

Nunca vi a aurora boreal e nem um urso panda. Nem andei de Ferrari ou montei um elefante. Coisas assim fazem a gente pensar que a felicidade pode ser um mero acidente de ser e estar no lugar certo, diante de um urso boboca, montado num bicho fedido ou numa máquina caríssima. Tudo isso junto com o céu dançando.

Espero que o Alexandre faça e veja essas coisas e muito mais.

Tomara que ele vá à lua. Melhor ainda, tomara que ele volte de lá.

Felicidades, irmão Paulo, cunhada Lau, avós Domingos, Marlene, tia Beth e todos nós dessa irmandade de poucos - mas que são muito.



Foco, quero foco

São Paulo é uma das cidades mais importantes do mundo. Para mim é importante porque nasci lá. E muita gente bacana que eu conheço ainda mora lá. Mas tem dois aeroportos que não valem nada. Quando lembro de Cumbica e da última vez que empurrei um carrinho de bagagens de lá, penso em Indiana Jones e qualquer um daqueles aeroportos que o aviãozinho do mapa do início dos filmes pousou.
A rodinha do carrinho soltou-se quando puxei a mala para ver o peso antes de entrar na outra filona para os portões de embarque. Ela já vinha cloc cloc desde o porta malas do carro do Maumau.
E em Congonhas eu vi o apocalipse quando o Gol ia aterrissar e antes que todas as rodas tocassem o solo ele já estava puxando o freio de mão para não cairmos na Avenida Bandeirantes. Nunca senti tanto medo num pouso ou numa relação vôo-máquina-Nei-asfalto-400 km/h.
Os aeroportos de São Paulo são como rodoviárias onde pousam aviões. São postos de gasolina onde vendem Dior e Godiva. Nada contra rodoviárias e postos de gasolina.
São Paulo precisa crescer na sua porta de entrada e saída senão o subdesenvolvimento fica inesquecível para quem vai ou volta para casa.
Se Cumbica for o que temos de mais moderno e aparelhado em termos de espaço físico, conforto e tecnologia, então fudeu.
Prefiro um aeroporto compatível com essa cidade de quase 20 milhões de pessoas do que trem-bala ou Itaquerão.
Foco, acerta o foco, cabeção.

A USP e o caray a 4

Enquanto isso no macrocosmo alguns estudantes invadiram a reitoria da USP. Poderiam ser milhares, centenas, dezenas, meia dúzia. Poderia ser honesto invadir. Poderia ser um motivo absolutamente educacional, acadêmico, curricular, linguístico, semântico. Não.
Foi por causa do ranço da polícia militar e do ranço que se mantém deles com estudantes e dos estudantes com eles. Coisa velha, anos 60, bossa nova, festivais, ditadura.
Tudo por causa de alguns baseados. Uma coisa ilógica. Discute-se que a polícia deveria prender bandidos e não ficar perseguindo estudantes de classe média por causa de míseros gramas de maconha.
Mas vai prender bandido pra fazer o que?
A idéia de prisão é uma distopia no Brasil. É como se o inferno tivesse um umbigo e dentro desse umbigo houvesse um inferno com um umbigo chamado inferno dos infernos.
Um fusca com 120 pessoas dentro, alguns com direito de sair, mas seus papéis estão perdidos em algum lugar muito longe do umbigo, no cu do cu, por exemplo. E sem esses papéis, um abraço, vai ficando.
No tempo desses dois parágrafos, o fusca ficou mais lotado, já são 122 pessoas dentro.
Para equilibrar esse sistema, matam-se uns aos outros. São como baratas, canibais e sem consciência. O fusca os deixou assim, fez dos homens, baratas. É um universo onde 121 pessoas agridem 1 e todos agridem todos até que morram 100 para o fusca ficar confortável com 22 pessoas dentro.
Dizer que uma prisão é uma utopia é uma bobagem sem fim. Ninguém tem uma prisão como utopia. Se eu falo merda, todos podem falar. É a vida.
Mas a polícia. A polícia prendeu estudantes que fumavam maconha em local público. A maconha ainda é proibida em local público. A USP é pública. Ou é uma independente república umbigo dentro de outra?
Não discuto se as leis da sociedade estão certas ou erradas. Nem se a polícia é correta ou não. O fato é que estão fazendo um escarcéu por nada.
Prende-se bandido para manter o equilíbrio e a felicidade das pessoas honestas fora do umbigo. E a felicidade pode estar em fumar um baseado na USP. Mas também pode ser prender alguns estudantes.
Não dá pra discutir se é viável liberar geral ou manter a lei como está. É maior que esse blogueiro e sua cabecinha de blogueiro.
O caray a 4 são esses estádios por aí para uma festa que virá e pelos preços, não será nada brasileira. Se eu disser que poderiam construir prisões, dirão que sou fascista. Mas poderiam - dizer que sou fascista e construir melhores prisões. Pelo menos o fusca não ficaria confortável com vinte pessoas dentro. E então seria justificável dizer que a polícia deveria prender bandidos ao invés de bom moços com um baseadinho na mão.
Mas quem sou eu pra zuar na festa do futebol no país do futebol? Ia ser o meu caray a 4.
O caray a 4 são os salários dos policiais. O que motiva um trabalhador qualquer é o salário. O que motiva um policial?
O caray a 4 é essa discussão inócua.
Moleque, vai estudar porque é de graça, bocoió.

Aqui acolá e volta

É assim. O cara vem fazer uma tour pelo arquipélago. Então é Tokyo, Kyoto, Nara, Monte Fuji, Osaka. E dá-lhe templo. É templo xintoísta, xintoísta de demônios, de soldados das guerras, de anjos que esqueceram as roupas na praia (Miho-no-Matsubara), de crianças, de animais do bosque, etc.

Depois templos budistas, budista zen, Amida Butsu, Gautama, Daishonin, budista isso, aquilo. Vários budismos, muitos mesmo.
Depois é castelo. Castelo de rei, de shogun, de general, de capitão de governador, de cartas. Não, é uma metáfora.

Aí o cara se enche. Ele passa uma semana entre os séculos 8 e 19. Tem aquela tal síndrome de Firenze lhe invadindo as entranhas século 21.

E em todos lugares, incenso, chazinho verde, mochi com ankô, sen-bê e onigiri. Tudo local, feito a mão, realmente uma delícia. Mas,

mas quando o cara volta para Tokyo para voltar para casa e tem um ou dois dias free sem o bus, a guia e os horários rígidos, ele vai pra Akihabara e detona os travellers ou os dólares nas novidades a pilha, bateria ou que se ligam na tomada.
Game celular som, game que tem liquidificador, tablete com desenhinho da Hello Kit na moldura, som que tem batedeira, liquidificador que tem timer, game que tem no Brasil, batedeira com teclado Yamaha, carrinho a controle remoto com cara do Ultraman, smartphone que é só telefone (mesmo!), robô-aspirador de pó com sorriso de leds coloridos com controle remoto que pode ser acionado por celular de Nova York ou Fortaleza, geladeira de vinho com sommelier acoplado que fala várias línguas e cita se o bordeaux está na temperatura certa, arma laser para matar godzilla que é laser mesmo, pokemon, picachu, Zodiacs, Dragon Ball e saci-pererê. Tem também liberdade de fibra de carbono com opção para fuga constante. E psico-vôo 3D com pilha a lítio. Tem lanterna comum e lâmpada osram.

Lá vai ele, todo bambambã, cheio de manuais de funcionamento e instruções em japonês.

A conta de luz vai aumentar. O tédio também.

Storyboard













Faz um tempinho que escrevi isso, uns 5 anos. Perdi o original num desses cd roms sem nome.
O Glads veio com uma idéia de filmar alguma coisa e como tudo é muito simples, rebotei no papel.
E fazia um par de meses que eu devia a ele esse rebote.
Já filmamos o Dalai Lama (bem de longe, mas registrado está!), então estamos abençoados.
O esqueleto é esse. Falta dar um corpo. Então é assim.

Vértebras

Vou no ortopedista, dor nas costas, cara de cu, recepção, velhinhas para a fisioterapia, velhinhos para os aparelhos, velhinha chupando mixirica, velhinho lendo o jornal, eu calado, quieto, mudo, eu vendo o mundo, eu compro o mundo, me dou ao mundo, minha dor ao mundo, dores do mundo - Schopenhauer, podia ter trazido esse, enfermeiras com as caras iluminadas pelo monitor, tv ligada não passando nada, dor, dor nas costas, a idade que nunca chega, a idade que já está, a idade em que sempre estive, outra mixirica, a velhinha está faminta, as revistas estão velhinhas, os velhinhos falam de beisebol, a tv não tem prejuízo, ela é uma serial killer de vitamina c, dor intermintente entre vértebras que são números, chamam meu miyoji, apellido, sobrenome, um homônimo, olho a cara do invisível, isso nunca será meu parente, casquinhas de mixirica num saquinho de mercado, meu parente tem cara de cu, na tv um gráfico explica absolutamente nada, os velhinhos falam de adubos e coisas de quintal, revistas falam da queda do ministro anterior, já não é mais primeiro ministro, nem segundo, de segunda a sexta a dor, itami, pain, geralmente sábado estou bem porque todo sábado sempre é assim, em todos, qualquer um, chamam o velhinho do quintal dos ancinhos e bromélias, sai a velhinha da maquilagem carregada, minha idade, meia idade, que porcaria, a velhinha derrubou as cascas, minhas vértebras não são números, são gritos, são velhas, são humanas, são o meu cálcio desabando num precipício de poucas ilusões, a enfermeira com cara de homem e armada com um sorriso de satisfação toma delicadamente o saquinho da velhinha sob a égide de um poder jamais visto neste recinto, meu nome nunca será lembrado, minhas vértebras são números, serei uma dor nas estatísticas, estou farto de radiação, estou farto de raios x, de filme de mutantes, ando meio desligado, não ela não vai tirar outra mixirica, a bolsa se abre, tirou.

Vou jogar minhas vértebras podres nessa assassina.

A ética da estética

Quando eu era office boy (uma espécie de motoboy sem moto) e ia nas casas das madamas super ricaças dos Jardins (cunhada do governador, prima do senador, sobrinha daquele, sobrenome desse) pegar um cheque ou entregar uma encomenda, os porteiros me deixavam entrar pelo elevador social.
Mas eu era serviçal, eu pensava.
Tinha uma dona ali na Alameda Casablanca que mexia com objetos importados de arquitetura de interiores e eu ia muito lá, quase duas vezes por semana. O porteiro virou chapa.
Um dia eu e uma moradora mais simples estávamos na porta e ela foi caminhando pela lateral do prédio, para os fundos, para o elevador de serviços. Eu segui pelo tapetão, pelos mármores, grandes vasos e botões dourados.
Esperando o elevador, perguntei pra ele porque ele deixava eu entrar pelo elevador social sabendo que eu era apenas um leva-e-traz.
- Porque você é japa.
Aquilo foi uma aula de sociologia.

Lulinha Paz e Amor e o resgate de uma certa ética

Eu não acho que o Luis Ignácio deva se tratar no SUS. E nem que os filhos de políticos devam estudar numa escola pública. Equivale a dizer que todo alemão deve ter a pele marcada com um número só porque são alemães.
Eu acho que muita gente da classe política é bem sacana mesmo e que se elegeu pra ter as benesses financeiras e jurídicas e dar carteirada a três por quatro. Muita gente. Assim como devem ter médicos que não lavam as mãos para uma cirurgia ou engenheiros que não sabem construir nada e esses médicos fazem cirurgias bem porcas e as casas e prédios desabam por erros burraldos.
Tem filho da puta em todo lugar.
Mas o Luis Ignácio não é. Pode ter sido conivente com muitos corruptos, vendado os olhos, dado uma de migué, abraçado esse, tapinha nas costas daquele, elogiado uns e outros, falado bobagem, construído demagogia, viajado à toa, mas ele não merece esse ódio coletivo. Não assim. Se a maioria da classe média tem o direito de ter dois ou três convênios privados, ele também tem.
Eu gostaria de ver todo o Brasil sendo tratado de uma rinite pelos padrões do Albert Einstein. E também que toda criança deveria estudar em escola privada. Como isso não é possível, que as escolas públicas possam ter um padrão pedagógico, físico e profissional como as das escolas católicas, por exemplo. E todos os hospitais com cara de Grey's Anatomy ou House MD. E que todas as crianças do Brasil possam saber de verdade discernir entre o que é bacana e o que não é e então fazer sua opção.
O fato é que a maioria das pessoas não tem tido muita opção. Parece-me que há uma raiva latente porque a cidade está suja, a classe política está suja, as praças, os jardins, o bife a parmegiana veio com um fio de cabelo.
E a raiva cresce.
Os humoristas estão raivosos soltando espuma pela boca. São todos muito bobocas, na verdade. Não sei porque, mas nunca achei humorista engraçado. Não discuto o politicamente correto ou não-correto, isso é bobagem. O lance é a raiva.
O país está com a democracia solidificada, com índices de crescimento bastante razoáveis, as classes médias consumindo como nunca, muito crédito habitacional, multinacionais brasileiras disputando pau a pau com empresas gringas pelos mercados afora. A miséria está sendo erradicada. Tudo muito lentamente, tudo muito latinamente. Já é historicamente irreversível. Mas ainda há a raiva, rancor.
Parece que felicidade incomoda. E a saúde do ex-presidente também.

Yabadaba Buda dois

Yabadaba Buda caminhava com um amigo.
- Plantei couve, feijão e milho, mas estou com vontade de comer alface - disse ao amigo.
- Completamente Buda, meu mestre, mas sempre humano.
Ao ouvir isso, Yabadaba Buda ficou duas horas levitando e sorrindo.

Tá besta?

Anteontem um diretor da empresa quase fechou um contrato para um novo modelo de piano.
Quase. Mas já tá na mão.
O protótipo chegou ontem da filial de Shanghai.
Mas o cliente queria ver a estrutura do piano, sem teclas, sem action, sem nada.
Oco.
Pra que? Pra porra nenhuma.
E anteontem o mesmo diretor disse tá, pode vir.
Esse pode vir ficou marcado para sexta-feira, 28.
Ontem paramos tudo para montar duas carcaças de piano sem bagaço.
Eu fiquei até as 9 da noite.
Tem gente que deve ter ficado tipo overnight.
Hoje abri o blog do meu chefe e ele escreveu ahô ka? que quer dizer tá besta?

Foi

Foi dar uma volta no quarteirão para fazer digestão de rabada, arroz branco e salada maionese e levou chave, celular, lanterna, carteira com documentos e dinheiro, duas balas de hortelã e o mp3 pra desanuviar.
Foi.
Foi pescar na beira do lago para relaxar, levou molinete com gps, isca artificial com medidor de profundidade e velocidade do peixe ou da correnteza, boné com aba comprida que usa virado para trás, cadeira com encaixe para copo, garrafa e vara de pesca, cinco sanduiches de rosbife e cheddar, um box cooler com cerveja, água mineral e água isotônica, óculos de sol, câmera fotográfica, celular, lanterna, carteira com documentos e dinheiro, duas balas de hortelã e o mp3 pra desbaratinar.
Foi lavar o carro depois de quatro dias ininterruptos de chuva e vento, levou dois baldes, panos, três esponjas, xampú para lataria, limpa-pneu, limpa-vidros, limpa-painel, limpa-bancos, silicone líquido para pneu, mais panos, óculos de sol, celular, carteira com documentos e dinheiro, duas balas de hortelã e um cd no talo do Jesus and Mary Chain para acordar.
Foi casar depois de cinco anos de noivado, levou os pais, o irmão mais novo, a namorada dele, a irmã mais velha, a namorada dela, os sogros, dois cunhados, uma concunhada, dois sobrinhos, um de colo, vários amigos e amigas da agência, alguns amigos da faculdade, quatro brothers do colégio, um amigo de infância, o fotógrafo, o tio paraplégico, a tia desquitada, o primo distante descabelado, a empregada que trabalhou com a avó e há anos trabalha com a mãe porque a avó mora com a mãe, o cameraman, outro primo, a prima gostosa, o namorado dela e o carrão dele, um padre, dois violinistas, um violoncelista, uma flautista, três damas de honra, celular, carteira com documentos e dinheiro, duas balas de hortelã e estava assoviando a marcha fúnebre no altar quando a prima gostosa chegou no ouvido dele e disse fudeu.

Yabadaba Buda

Tudo isso aí é importante mesmo?

Mestre Yabadaba Buda

Pára tudo

Para quem acha que a vida não termina no domingo à noite, para quem concorda em não usar capacete num carrinho de rolimã descendo uma ladeira absurda e para quem acende todas as luzes da casa para apagar a solidão.
Para quem corre para sentir-se vivo e para quem vive sem correr e para quem escreve sobre as pessoas, para quem lê o horóscopo de manhã, paga o dízimo à tarde e se embola no santo depois da meia noite, para quem sonhou que voava e reclama que a pizza está sem orégano.
Para quem é um bundão.
Para quem sobe e desce escadas tão lépido quanto um gato medroso e abandona os amores no andar de baixo, para quem, do telhado, perde a conta no céu todas as vezes que passa uma nuvem e apaga as estrelas, para quem acredita que a melhor canção para uma despedida é um bolero do Agnaldo Rayol, para quem joga fliperama, pacman, War e mau-mau, mas não consegue ligar para pedir perdão.
Para quem pisa na grama e sabe que é sagrado tirar as sandalias em campo santo, para quem sente o coração acelerar quando ve a praia depois de um longo inverno com as bermudas pútridas de naftalina. Para quem também diz talvez.

Um Conto Chinês (Argentina -2011)

I

O filme começa com uma vaca desabando do céu sobre um pequeno barco chinês.

E isso é real, mas no Japão.

Na verdade, em águas territorias russas.

Um pesqueiro japones havia invadido as tais águas para pesca ilegal quando uma vaca vinda do céu afundou o barco.

Isso aconteceu em 1997.

Os japoneses foram presos na Rússia pela invasão e por supostamente estarem mentido para as autoridades russas, mas era verdade.

Após averiguações, descobriram que alguns soldados russos estavam roubando vacas e as transportando em aviões militares até que num desses vôos as vacas ficaram agitadas e para que não houvesse um acidente maior com a aeronave, resolveram jogar as duas vacas no vazio, uma delas acertou o pesqueiro japones.

A história chegou a ser publicada no diário Komsomolskaja Prawda.



II

A partir do vôo da vaca faz-se um filme maravilhoso com o sempre talentoso, eficiente e carismático ator Ricardo Darín.


Uma pequena obra prima nos seus detalhes e conclusões.

Uma bela história de amor e amizade. Massa.

E definitivamente, o cinema argentino é melhor que o cinema brasileiro.

KS Nei

Porque KS Nei?
Porque tem PJ Harvey, k.d. lang, T.S. Eliot, e.e. cummings e claro, INRI Cristo.
Bobagem.

Prêmio Jabuti





Muita honra.
Quem me dera ter um desse na estante.
Mas o logo de 2011 é infeliz.
Parece que a tartaruga tá fazendo xixi.

Sebo é bão



Todo ano leio, releio, folheio um livro de Gabriel Garcia Márquez.
Faz vinte anos que eu faço isso, ano por ano.
É um ritual, uma necessidade cerebral.
Muito mais da alma, se é que conta.
Em 2010 estive no Brasil e fui ao Sebo da Visconde, na cidade de São José dos Pinhais-PR, onde eu "moro" agora.
Nesse sebo achei um Gore Vidal por 5 reais. Esse García foi 2.
Tomara que o sebo esteja lá.
Coisa fácil de fechar é sebo, cinema, teatro.
É triste e conceitual.

Poemeu de zóio nas news de hoy

O Rei do Maranhão free feito um pardalzinho,
rato encontrado na Elma Chips,
explosão num buteco no Rio,
meia entrada or not
e toda semana, fuso horário legítimo e pontual,
chego na sexta-feira um pouco antes.
Se as coisas se relacionam, ora vá, que seja assim.
Se não, ótimo, aliás...

Mal mau humor

Escreveram pra mim:
- Fala sobre o Rafinha Bastos.
Falar o que?
Tudo já foi dito, até o que não deveria sê-lo.
Mas eu não assisto tv brasileira porque estou no Japão.
Quando estava no Brasil não assistia programa de humor porque nunca teve graça.
O melhor do humor está em não estar.
Pra mim, é só uma questão de público, tem gente que gosta do Vesgo, outros do Bussunda e outros do Costinha.
Aqui no Japão pouco assisto programa de humor porque não entendo as piadas japonesas. Algumas, quando entendo, não acho graça.
É isso.
Meu humor vive insuportável, deve ser por isso que ironizo tudo, de deus a bicha.
E acho que politicamente correto é enterro de papa. O resto é pagão.
Que bom.

Livrai-nos do mal, amém

Tudo bem, é ignorante.

Tudo bem, é supersticioso.

Ok, ok, é ignorante e supersticioso.

Mas ignorante e supersticioso na porta da minha casa, nem fudendo.
Eu calço a ferradura pendurada atrás da porta e te chuto até o inferno, mequetrefe.

São Várias Horas na Capital




Na janela havia um pequeno ponto branco.

Além do ponto, pombos pousaram no fio do poste e isso dava um sentido uníssono de ponto + pombo = transparência prejudicada num quadro 3D pintado tão aleatóriamente com são os caminhos da chuva.

A sombra de um avião voando baixo acariciou a parede do prédio do outro lado da rua - tão rápido, tão doce, tão sombra.

A cerveja esquenta na garrafa, o suor escorre pelo vidro marrom formando uma poça na mesa com o formato do Brasil.

Os pombos voam espalhafatosos/ruidosos com o estampido de um escapamento.

Impossível.

Em tempos de injeção eletrônica, motores não explodem como as kombis dos anos 70.

Ou os fuscas que diziam que botavam naftalina no tanque para elevar a octanagem do combustível e e fazer o besouro voar.

Se é impossível, o estampido é de tiro de alguma arma de porte médio, desses fáceis de comprar e mais fáceis de roubar e mais fáceis ainda de carregar.

Cinco balas, basta uma.

Sol de fim de tarde e os esquecidos levam as mão à cabeça porque o banco só abre amanhã.

Em tempos de internet o país vive uma fila única, do nascer ao viver, do viver ao guichê, do guichê à lágrima, do gol à expulsão.

As mãos na cabeça. O tiro foi ao alvo. Morte na via pública e nada além.

Ninguém é de ninguém.

Os pombos voltam e tudo parece em paz. Mas há um homem deitado na solidão.

A sua alma acaricia a parede do prédio em frente.

Sol de fim de tarde e celulares apontam e tiram fotos e não ligam para aqueles números úteis sempre com emergências de minutos de atraso. Nem ambulância, nem polícia, nem nada.

O homem não é mais homem.

Homens variam, desvariam, comem. cantam, vivem.

Este, de vida, só tem as roupas.

Basta um gole de cerveja quente, basta o mapa do Brasil.

Alguém pergunta que horas são, mas não para mim.

Não estou aqui, tudo é mera especulação.

Não vou entrar numas de metalinguagem.

Basta o mapa.




(Porque no dia 7 de outubro de 1990 pousei no Japão, faz 21 anos).

Mondocani e a mais valia

Quando Mondocani pensa em capitalismo e lucro e pensa que é causa e efeito da natureza humana e sob o microscópio dos primórdios protocavernosos, Mondocani leu em algum lugar que armazenavam para manterem-se aquecidos no inverno sem necessitar de mandar tudo pro inferno, Mondocani pensa orra, ou é isso ou vou pra Coréia do Norte.
Mas quando Mondocani vê uns trogloditas neanderthais escondidos atrás de crachás escrito patrão e sabe que eles estão fazendo Mondocani de bobo porque eles acham que grana é tudo, orra, que vá tudo pro inferno.
E eles para a casa do caralho que os pariu.

360 graus ao redor do Monte Fuji





O mapa da façanha.








Na área de descanso e serviços de Fujikawa, fomos recepcionados por palhaços que estavam na campanha para fazer do Monte Fuji um patrimônio da UNESCO.

.






Nanci e eu a 2400 metros. Ao nível do mar, a temperatura ao redor dos 22 graus, lá em cima, entre 8 e 10 graus, além do vento cortante.









Última vista do vulcão pelo retrovisor do carro antes de retornar à Rota 139 para pegar a highway para casa.

A primeira Canon a gente nunca esquece

Passei na loja e vi a Canon PowerShot SX150 is, que é o modelo mais recente dessa linha, cheia de recursos, porém simples de manusear, patati patatá.
Cara para os meus padrões, era muito cara.
Mas tinha essa, uma excelente câmera para amadores como eu.
Como aqui no Japão quando os novos modelos já despontam nas prateleiras, os antigos abaixam os preços em quase 50%, peguei essa, a Canon PowerShot SX 130 is.
Na verdade, para o que eu gosto de fazer - apenas apertar o botão - ela está muito acima das minhas aptidões.
Felizmente, achei um manual em português num desses fóruns e posso começar a treinar os recursos e ver se realmente aprendo a fotografar como gente grande e então me sentir no direito de comprar uma daquelas que valem um carro.
Por enquanto, clico as coisas que acho que dariam uma boa capa de disco.
O que não me impede de fazê-lo depois, com mais nhém nhém nhém.

Trip trip hurra!



Imagine um vulcão.
Imagine que esse vulcão é o Monte Fuji.
Imagine que você só conhece o lado de cá desse vulcão, tipo de quem olha da praia.
Pois amanhã vou para Kawakuchi Lake em Yamanashi ken, na região dos cinco lagos, do lado de lá desse vulcão.
Boa viagem pra gente, gente.

Coalhada Leiite

A Coalhada Leiite comparou os metaleiros a Hitler, aquele.
Eu tenho dias que estou e sou metaleiro, ouvindo Motorhead no talo. Ou Black Sabbath. Ou Led.
Ou posso ouvir Bill Evans com a camiseta preta do Metallica.
Ou ouvir Coltrane como se fosse Slipknot e botar uma máscara do Jason tomando um tinto. Ia derramar na camisa, mas tem canudinho pra esses eventos.
O rock'n'roll faz parte do meu cotidiano.
Um festival a mais ou a menos não altera a minha vida.
Pra ela, a Coalhada Leiite, deve ser importante, afinal, é cachê, grana, business.
Eu não gosto do som dela e nem da cara dela.
Se alguém já ouviu algum disco do Carlinhos Brown, sabe o que são ritmos baianos e o que é um compositor dos guetos dos tais ritmos baianos.
Beleza. Feiúra. Bobagens.
Coalhada Leiite, o teu erro, além de nos chamar de nazistas, foi ter tocado num festival de rock.
Só isso. E isso é tudo, boboca.

Mau, sapão, mau

Porque foi axé vomit song que abriu o festival com a C Leitte azedo e porque porra, o


SEPULTURA


estava num palco secundário.


Vai pra casa do caralho todo mundo de terno e crachá nessa merda.

Porque eu amo os livros

Lá está Londres e lá está o Savoy Hotel, perto da Ponte Waterloo sobre o Rio Tâmisa.
Em 1898, Wolf Joel, um milionário inglês, reservou uma mesa para 14 convidados. O Savoy é famoso por sua requintada culinária, já o era nos anos vitorianos.
Infelizmente, um dos convivas não pode comparecer ao jantar.
Ignorando a superstição, Wolf pediu para servir o jantar para 13 pessoas.
Três semanas depois, foi brutalmente assassinado na Africa do Sul, baleado.
Após o episódio, o Savoy não permitiu que se fizesse reservas para 13 pessoas.
Em algumas situações, incluiu um funcionário entre os convidados para que somassem 14 pessoas à mesa.
Nos anos 20, o hotel adquiriu Kaspar, este gato art decó de 90 cm que substitui o talismã humano nas mesas com 13 pessoas.
Ele é aparelhado com os mesmos talheres, louças e pratos servidos às pessoas.
Durante a II Guerra foi roubado e dizem que o primeiro ministro Winston Churchill em pessoa pediu que a Scotland Yard investigasse e o devolvesse ao hotel, no que foi prontamente atendido.
Está no livro Esquisitologia - A estranha psicologia da vida cotidiana, de Richard Wiseman.

Por isso amo os livros.

Não

Só grana pra associar Cláudia Leitte com rock. Ou falta de opção. Ou imaginação.
Como disse o Clemente, esse Rock in Rio tá mais pro Criança Esperança.
Quem é o Clemente? Ah, vai ver Criança Esperança, mermão.