Ao passar do tempo

Hoje fui na Tower Records e não era para estar lá. Eu só queria ver o tempo passar. Nanci e eu saímos para não mofarmos depois de dormirmos até bem depois do meio dia.

Fiquei cinco minutos encostado numa coluna no meio do corredor do shopping, mãos nas costas, pés cruzados no chão - vendo gente como eu que estava ali para ver as vitrines passarem enquanto o relógio sobrava no fim de semana prolongado. O tempo, as vitrine, pessoas e eu passando no mundo horizontal de um corredor de um shopping.

De lá subi para a Tower para ver discos e gente interessada em música. A estante de jazz continua diminuindo e cada vez mais em conta. A de blues tem menos de 50 títulos. Algo muito triste acontece no mundo das gravadoras e nós, como sempre, ficamos à margem e sem opção a não ser esperar que downloads nos salvem.

Comprei esse Miles ao vivo. É praticamente o mesmo time do álbum Kind of Blue, menos o pianista Winton Kelly. Dizem que Miles estava no auge. Não sei, Miles sempre esteve para mim. Enquanto ele soprou a corneta, a música toda esteve no auge. Deve ser mais ou menos como ter sido contemporâneo de Mozart ou Bach.

Também peguei esse do Son House.

Ainda na idéia do contemporâneo, todas as canções foram gravadas em 1965, ano que nasci. Isso me chamou atenção. Enquanto minha mãe se empanturrava de batata com maionese (totalmente caseira, ainda não havia Hellmann's), esse negão genial saía do delta do Mississippi para gravar em Nova York essas canções. A questão da batata com maionese é legendária. Ela dizia que foi basicamente isso a sua dieta na minha gestação, seu desejo por batata com maionese era diário. Isso pode explicar muitas coisas, principalmente meu acintoso vício em maionese.

Como esse disco e o do Miles estavam por menos de oito dólares, abracei a causa. Praticamente toda a coleção de Bill Evans está por esse preço. A ver, a ouvir.

Acabei de rolar a bolacha do Miles. É um momento anterior ao Kind of Blue e muito diferente na concepção e escolha de repertório, apesar do time ser o mesmo. Na primeira faixa (Ah-Leu-Cha) todo o naipe de metais ataca para aquecer os beiços. Ninguém faz isso na fase modal que viria. Mas está cool e é maravilhoso.

Agora Son House está lamentando a vida apenas com sua voz e o violão. Todo o universo passa por um solo de blues. Eu apenas fecho os olhos e queria estar lá. Fecho os olhos e queria tocar como ele. Fecho os olhos e abro a alma. É de falar putaquiupariu bem baixinho.

Ver o tempo passar, escutar blues, jazz, elogiar músicos que já morreram, escrever para quase ninguém ler. A felicidade pode ser um instante sem graça mesmo. Com muita batata e maionese caseira.

Feliz 2011 a todos.

3 comentários:

Leituras disse...

"A última instância de uma coisa leva a categoria consigo. Apaga a luz e vai embora". Essa é do Cormac McCarthy, aquele que fala dos fins dos mundos. Todos os romances do McCarthy se passam na fronteira entre USA e México, aquele "fim de mundo". Todos os seus romances estão localizados num fim de era. O mais recente, A Estrada, é literalmente, sobre o fim do mundo e o fim dos tempos. Apocalipse. Curiosamente, os personagens rumam "para o sul". Crônicas sobre Cronos.

Leituras disse...

E sobre o cu do mundo.

Lamps disse...

E é por esse e por outros textos, por alguns comentários, fotos e impressões que a gente pode dizer que vc é um PUTA CARA!!!
Feliz 2011, Punk. Que o coelho traga mais calmaria para momentos preciosos como esse.
Bjos