O Vespa

Não sei que catso a gente tava fazendo perto do Centro Cultural Vergueiro. Era uma época de muitas caminhadas e situações inusitadas na companhia do Vespa.
O Vespa era um cara que se estivesse numa ponta de uma plataforma do metrô e te visse na outra ponta, chegaria até você passando por todas as pessoas dançando e cantando alto - gritando - canções folclóricas libanesas. Junte isso ao fato de que ele tinha quase dois metros de altura.
Nessa época ele fazia faculdade de não-sei-o-que na Brigadeiro. Certa vez ele e a turma cabularam para ver Koyaanisqatsi, o tédio-cult dos anos 80. Eu estava lá. Acho que o Bado também.
Mas não sei que catso a gente tava fazendo perto do Centro Cultural Vergueiro. Eu sei que resolvemos descer a Liberdade a pé. Fazia frio, ventava daqueles ventos que só tem ali por causa da 23 de maio no andar de baixo. Aquilo é uma maluquice urbana, duas avenidas seguindo paralelas com dezenas de metros de profundidade de diferença.
Um pouco antes da estação São Joaquim, passamos em frente a um templo evangélico. Era um pouco maior que uma garagem numa construção do começo do século passado, daquelas casas operárias sem estilo definido, mas definitivamente, carcomida. Entramos. O pastor usava um microfone apesar do pequeno espaço. Havia pouco mais de dez pessoas, não mais que quinze. A sensação que tive é que a maioria estava ali pra fugir do frio, não porque não tivessem fé ou não dessem importância ao sagrado, mas o calor do abrigo já era o bastante. Caminhamos pelo único corredor central. O pastor nos viu, um japonesinho e um golias lusitano de sobrancelhas largas, e não perdeu as rédeas da tribuna, continuou gesticulando e falando alto coisas de Manassés e saduceus e vale do Hebrom. Sentamo-nos no meio da pequena turba. Aos poucos foram notando nossa presença. Poucas vezes na vida me senti tão marciano. E nu. Acho que a idéia de entrar foi minha, na verdade disputávamos para ver quem era mais maluco e aquilo poderia me dar pontos. Ficamos ali uns dez minutos; como entramos, saímos, apenas a voz do pastor e nossos passos. Senti as cabeças se virando para observar nossa saída. Nunca considerei um ultraje ao divino, ao sagrado, nem nos meus maiores devaneios iconoclastas. Tudo era muito pagão e vulnerável, nossas imagens, o papo-pastor, as pessoas feias e fedidas sentadas ali. A lembrança está nítida, mas de todas as sensações que ainda ecoam, só sinto as cabeças se virando para verem nossas costas abandonando deus e homens. Nunca saberei.

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