A bicicletaria do velhinho

Virando o farol do correio à esquerda e seguindo em frente até a outra esquina havia uma bicicletaria que pegou fogo ontem à noite. Era de um velhinho gordinho de calças largas que abria a loja arrastando os chinelos, abaixando o toldo, colocando algumas bicicletas na calçada - todo dia de manhã. Eu o via nos dias em que me atrasava e chegava naquele ponto do trânsito um pouco depois das sete e meia.
Agora há um grande vazio de quinquilharias pretas incendiadas. A casa dele era no andar de cima, não sei se era casado, se morava sozinho. Lembro dele arrastando os chinelos com o sol à esquerda nascendo tímido nas manhãs de inverno e explodindo no verão com ares de salsa e merengue.
A bicicleta é uma instituição do oriente, de Jacarta a Pequim, de Hanoi a Hamamatsu. Eu tenho uma bicicleta. Nunca uso, mas é uma instituição. Deve ser como cafeteira em casa brasileira.
Hoje em dia as pessoas compram bicicletas nos home centers. As pequenas bicicletarias vão sumindo da paisagem. Floriculturas também. Tudo no Japão começa a fazer parte de uma grande rede de franquias européias, americanas e japonesas. Nada mais é do bairro, do amigo da esquina, do vizinho. Até mercados brasileiros fazem parte de grandes redes. Agora o mundo está ali naquela marca e os sabores e o papo de balcão e o pendura pro fim do mês dão lugar à massificação inodora.
Eu ainda me atrasarei de vez em quando, mas ele não vai mais estar lá abrindo a loja. O mundo vai ficando menor e a gente só se dá conta quando já não há mais retorno.

3 comentários:

Bem disse...

Com sorte ele reabre.

Nei kS disse...

tomara.

TARCIO VIU ASSIM disse...

Fiquei com uma dó danada do velhinho. -
E de nós, do século passado e de costumes já ultrapassados, que também aos poucos vamos virando cinza, entulho e restos de incêndio.