Por extenso

Gente por aí bastante entusiasmada com dois mil e onze, tudo tão fresco como se a vida desse start agora com a vantagem de nascermos como acabamos dois mil e dez, tipo eu to aqui novíssimo nas minhas dores matinais in natura no black e oficial, quarenta e cinco anos nesse mesmo pique devagar quase parando.
Quem nega uma bobagem dessas?
Tem uma coisa pouco redonda nessa coisa de cansarmos do ciclo de trezentos e sessenta e cinco. Nos cansamos do ciclo dos cinco dias úteis da semana, queremos todos os sábado, imploramos por sol nos domingos. Chega meio dia e queremos oito da noite, meia garrafa do branco bem descida, embriaguez de sofá classe média sorridente, todo dia é quinta, é hoje, é agora.


É agora. A gente pensa na frase ou dá ou desce porque a vida é assim, sem drama, sem jantar, sem beijinho nem vaselina. E não tem como pôr na conta, sair prum refresco, uma sombra, um canto quieto.
Eu medito. Na maioria das vezes acabo cochilando e não sinto culpa, sinto alívio pra equilibrar a minha insônia de trem lotado. Não tenho insônia de não ir dormir no começo. Eu não vou dormir no final. Ao invés de não ir dormir, vou com anjos, carneirinhos, entregue sem resgate no colo de Morfeu e

a sacanagem é que dali a três, quatro horas, acordo cínico e serelepe pra pensar na desgraçada da vida de quem nem percebe que estou por aí.

Eu chamo de sono ejaculação precoce. Nem começou, já acabou.

Mas dois mil e onze ainda será de Gaga e bê bê bê, Ronaldinho Gaúcho e Hebe. O mundo dá uma volta ao redor de uma bola de fogo num grande vazio - o maior oco do mundo - que chamam de universo e ainda ouço blablabla Hebe. Velhas sobreviventes sempre nos surpreendem com seu poder de fogo. Já fomos netos de Dercy, de Aracy e Marlene Matos.
Chamam o grande oco de universo e quando querem dizer que a coisa é total dizem que é universal.
Vai entender.

7 comentários:

Rita Almeida Pinto disse...

Sensacional, Nei!

Anônimo disse...

Hoje voce acordou sem dar concessões... Mas o ano novo é como a cenoura que vc coloca na frente da mula, pra ela caminhar pra frente... né, não? Kinha

Diva L. disse...

Meu querido, o texto é simplesmente fantástico e totalmente com noção. Adorei!

Mas, lembrando do Raul: "Eu prefiro ser essa metamorphose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Então, contrariando a lógica, reinventei esse meu comecinho de ano. Enquanto a maioria deseja que todo dia seja sábado ou domingo ensolarado, tô amando as minhas segundas-feiras, terças-feiras, quartas-feiras, quintas-feiras, sextas-feiras e todas as feiras. Depois de um longo período sem algemas, sem horários, sendo a minha própria carrasca (autônomo trabalha, se cobra e se estressa muito mais), iniciei 2011 com um chefe no mais amplo sentido da palavra e, acredite, tô me divertindo c a rabujice, pense num cabra chato...rs

Enfim, depois desse meu blá-blá-blá, o que quero dizer é que, independente do imenso oco ou totalidade que é o universo, sempre dá pra ser feliz, planejar, sonhar. Falando como humana, tenho a necessidade de recomeçar todos os dias. Ronaldinhos, Gagas, Hebes e BBB´s sempre existirão. Caso não existissem, de quem tiraríamos onda? Oops! Não conclua que estou resignada ou conformada, apenas sou sobrevivente da imensa mediocridade que assola grande parte dos terráqueos, por isso, prefiro olhar o mundo com olhos mais complacentes e continuar curtindo a vida, independente do movimento que acelera os batimentos da mulher melancia enquanto ela dança o creu.


Beijo grande e abraço na alma.

Diva (boba) L.

TARCIO VIU ASSIM disse...

Eu sou ritualista (quase otário?) e gosto de acreditar que existe ano novo, recomeço, planos e projetos realizáveis, enfim... claro que não vou concordando contigo na leitura desse post, mas MAS MAS MAS Nei KS, velhinho, você escreve como gente grande! Tem umas frases nesse texto teu que já estão na minha lista de frases imortais e geniais.
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Sem ser sacana: Feliz 2011!

Abel disse...

Ia dizer "não sei como é no resto do mundo, mas no Brasil o ano novo é propriedade da desgraçada da Globo há muitos anos passados". Mas o Anônimo tirou as palavras do meu teclado, são cenouras penduradas à frente das mulas que acham tuuudo fantástico, divertido, enquanto puxam a carroça da casa dos artistas.
Aproveitando, o cinema yanke tornou-se escravo da superação, o europeu é a maior paradeza e o brasileiro é bico de ator da desgraçada da Globo. Ou seja, pra mim, ninguém sabe fazer filme mais.

Léo disse...

Fiquei imaginando agora em qual época do ano a gente ultrapassa alegremente a cenoura, pois lá pra dezembro, ou bem antes, estamos todos almejando alguma distância entre ela e nosso rabo.... (ops)

Abel disse...

Bem lembrado pelo Léo, se é que entendi, tem a cenoura entrando no reveiom, a mangueira no carnaval, as bolas no brasileirão. Acho que a resposta para isso está na pergunta do Nei. De quem é a realidade? Eu pensava que fosse dos romanos. Mas eles também são mulas. Às vezes lembro naquele cowboy brega de Mulholand Drive. Mas há o corpo mergulhado no gel entubado de dados do Matrix, a máquina de sonhos de Dark City, a droga do Inception, nada que os neo-romanos, óps, os norte-americanos ainda não tenham inventado para garantir os nunca bastantes cachês dos heróis de Hollywood. Mas eles também são mulas. Então, quem pendura a cenoura?