Rituais e um almoço na ONU

I
Todo final de ano, os japoneses confraternizam ao redor de pratos e copos com seus colegas de empresa num jantar chamado bonenkai. Uma confraternização geral mesmo, chefes, chefes dos chefes, todo mundo num porre dionisíaco. Inventaram o karaoke pra esses micos.

Depois, virando o ano, fazem o shinenkai - mais comedido - que é para o início do ano. Tudo é muito mais ritualístico do que uma churrascada no quintal do chefe ou no pátio da fábrica ou aquela saída pro pé-sujo pra tomar uma Brahma e beliscar galetinho.

Para entender esses rituais todos, basta dizer que um amigo brasileiro foi convidado a participar de uma festa de uma gangue de motoqueiros barulhentos e arruaceiros, os bosozokos - tal qual no filme Black Rain, onde o policial Andy Garcia é assassinado em Osaka.

Pois bem, reuniram-se num estacionamento abandonado com as motos em círculo e uma garrafa de sake passou de mão em mão, gole em gole, até que o líder da gangue foi ao centro da roda e fez um discurso dizendo o motivo daquela reunião, o prazer de estar entre amigos, a fidelidade da gangue, união, etc, até o clímax do grito de guerra.

Depois, aleatóriamente, cada um disse seus motivos de lá estarem, sempre em torno do tema amizade, lealdade, amizade, lealdade. Até que todos montam em suas motos (umas 20), os garupas - o meu amigo era garupa de um deles - e fazem novamente o grito de guerra e vão para as ruas passar em sinais vermelhos e fazer barulho madrugada adentro.

Pois é, até para os Hells Angels japoneses, tem discurso, hierarquia, patati patatá. E olha que é uma molecada de 18 anos, se muito.

II
No sábado fui almoçar com o Suzuki san e o Khahn, ambos da Apollo Piano. Fomos a um restaurante indiano. Para o Suzuki san aqui era o nosso shinenkai, para mim era um almoço entre amigos.

O Suzuki san é japonês, o Khahn é vietnamita e eu sou brasileiro. Todo o staff do restaurante é indiano. Ao redor, clientes japoneses. De repente, o celular do Khahn tocou. Já reparou que todo mundo quando atende o celular fala mais alto do que se atendesse em casa? Pois bem, vietnamitas também são assim. Mas o Khahn já fala alto por natureza, ao falar no celular, o aparelho vira megafone de feira.

Por causa do idioma completamente diferente de japonês, indiano e português, todo o restaurante se virou para ver o comunistinha gritar com um amigo. Todo.

Depois disso, o garçom de Nova Delhi ficou nos encarando, principalmente ao Khahn pra saber de onde veio esse cara. Aos poucos foi se aproximando da mesa, disfarçando, como se estivesse arrumando as mesas ao redor. Na hora que ele percebe que eu falava japonês com sotaque, pirou. Foi para a cozinha e de repente vários caras vestidos de cozinheiro, com aqueles chapéus típicos saíram pra ver as nossas caras.

Apesar de ter milhares de estrangeiros morando em Hamamatsu, a cidade continua interiorana e provinciana. Isso se aplica por osmose aos povos que aqui convivem e pouco se misturam. Ao ver uma mesa completamente heterogênea, a curiosidade toma conta - e estamos falando de indianos, com milhares de deuses, centenas de idiomas e etnias.

A curiosidade é nata. é importante tê-la e conservá-la para melhor compreender o diferente, a outra cultura, o novo gesto. Vai ficar mais fácil para todos quando perceberem que o mundo não ficou menor só no computador, mas ao redor físico também. A diferença entre uma pessoa e outra é só um pensamento ou como esse pensamento se expressa, com circunflexo, sem acento, num ideograma, hieróglifo ou crase numa consoante.

O que importa mesmo é rir. O resto acontece.

2 comentários:

rnt disse...

vários rituais hen. ô nei, fui num museu aqui de santandré e tinha uma parte dedicada a imigração japa. e tinha um chaveirinho com areia dentro... EM FORMA DE ESTRELA. acho que de okinawa. diz q eh a unica no mundo.
O_o
comofas pra ter umas areinhas dessas? hahaha :)
bjoooo

Bem disse...

O clipe de "Dope Nose" do Weezer também tem a figuração dessas gangs...