Roteiro

Já sentei no sofá pra assistir filme alemão só pra dormir. Eu gosto de muitas coisas do cinema alemão, muitas, de verdade. O problema é que em alguns filmes menos cotados, chega uma hora em que eles se sentam naquelas salas desconfortáveis e nada aconchegantes que eles insistem em usar de cenário ultra-realista e começam a falar de sexo.
Eu vejo um sofá com estampa xadrez e braço de madeira escura e poltronas pretas de couro barato. Almofadas de retalhos retangulares.
Todos meio embriagados. Os donos da casa são profissionais liberais de esquerda, provavelmente verdes. Podem ser eles e três amigos, três amigas, vinte bigodudos, quatro casais, seis adolescentes. O que importa para o roteiro é que eles vão falar de sexo.
Sem trilha sonora.
Não vão fazer sexo ou agir sexo, só sexo-pensar, como diria Orwell. Ou tudo será apenas sexo verbal. E vão falar de situações vexatórias, claro, escuro, brochadas, falta de vontade, umidades, securas, cheiros, sujeiras, cores, fetiches anatômicos, moças e rapazes nus correndo numa praça em Berlim numa madrugada de verão. Shakespeares tedescos, lânguidos Fassbinders, vinho branco adocicado alemão de segunda nas taças, nos beiços, na mesa de centro de madeira tropical com detalhes marinos. Vão falar de sexo até que um par de ele e ela ou de eles ou de elas se retiram para a cozinha para pegar mais quitutes ou uma garrafa ou um pano para limpar o vinho da calça, camisa, vestido de alguém. A idéia é que pode rolar, pagar um peitinho, um decote, uma curva, músculos suados, bronzeado tropical.
Agora começa a trilha sonora. Uma daquelas faixas malucas do Miles na fase eletrônica com o trompete totalmente lisérgico. Eles vão para a cozinha - que ainda está na penumbra. Luz da rua entrando pela janela da cozinha, pode ser térreo, pode ser vigésimo andar. Agora o filme já não tem mais cara de filme alemão. Ou tem, eu é que acho que não.
Mas eles só se falam em alemão. Estão em Stuttgart, alguns são moderninhos de Berlim, outros são americanos, balineses e ou hondurenhos.
Podem ser havaianos.
Japoneses jamais, são muito caricatos numa situação assim.
Brasileiros também não. Iam logo partir pro vamovê.
Nem esquimós com aquele escroto beijinho de nariz.
Puro preconceito. Dane-se.
A cozinha. Abrem a geladeira. Corre um arrepio pela audiência, todo mundo pensa em Kim Basinger e Mickey Rourke naquela cena manjada da larica pós foda, cozinha apagada, verão em NYC, geladeira acesa, transa & diversão/transa & digestão. O arrepio e a tensão aumentam porque a câmera está dentro da geladeira com uma das pessoas olhando para cima, para baixo, para os lado, vai fechar e a outra pessoa o impede. Ambos estão com a cara praticamente dentro da geladeira. Eles não são feios, são jovens, tenros, puro hormônio. O som claustrofóbico de Miles atravessa nossas cabeças porque eles pensam o som claustrofóbico de Miles, ou nos passam essa magnânima sensação. Pegam um envelope irreconhecível, pode ser salmão defumado, pode ser queijo, pode ser jamón, pode ser mortadela.
Quando a geladeira bate e tudo escurece, o som acaba.
Voltam para a sala. Todos foram embora. As garrafas estão praticamente vazias, alguns copos cheios, outros pela metade. A câmera passa ao redor da mesa de centro para nos dar a idéia de que a idéia de ir embora foi involuntária e inexplicável. Volta o som de Miles. Começam a subir os créditos finais. Nessa hora percebo que a trilha poderia ter sido escrita por Arrigo Barnabé. Nesse caso e estética, a questão sensorial seria quase idêntica. Ou não, ou sei lá.
Acredite, esse assisti até o final.

3 comentários:

Paola disse...

às vezes eu gosto de um filme alemão, às vezes...

Bem disse...

Parece com a descrição de "O Declínio do Império Americano"...

TARCIO VIU ASSIM disse...

Eu nunca vi um filme alemão. Eu nunca vi um alemão. Eu não entendo sexo falado. Eu nunca vou entender quem senta pra ver alemão fazendo filme falando de sexo sem fazer.
-
É,Eu não sou intelectual, Nei.