The day after - 12 3 11



Goto san, Khanh e eu no botafora.
I
Às vezes a nossa latinidade reclama do sangue frio do japonês. Mas bicho, o cara é samurai, zazen, xintoísta, a gente é driblador, capoeirista, Cartola, Garrincha e Villa Lobos. A gente sofre o que nunca aconteceu, a gente ama o inatingível.
Um bom japonês não olha para os lados. Não que ele não perceba que algo está acontecendo, mas ele sabe e só quer olhar para frente porque na sua vida, no seu aprendizado e adequação a essa vida - crescimento? - a paisagem pode atrapalhar o objetivo e geralmente ele está lá na frente, o objetivo e o japonês.
Millôr Fernandes diz que para certas pessoas seria necessário a invenção do ponto de ironia, assim como o de exclamação e interrogação. O mestre não erra.
A nossa ironia começa com o nosso próprio idioma que dá margem a segundas e terceiras interpretações e intenções. O japonês, por uso do kanji e da fórmula de manuseio dos ideogramas dentro do dia-a-dia, não faz nem da idéia da ironia como padrão de comunicação, pura e simples.
Não existe uma palavra em japonês que traduza tal condição de linguagem ou humor.

II
Por isso, eu sei, ao ver-se estampado na cidade que foi desgraçada pelo mesmo mar que remonta a sushi e é o símbolo de autenticação e identidade do país, o japonês vai arregaçar as mangas, reconstruir a cidade, a sala, o quarto, a cozinha, o país, as ruas, os parquinhos e pracinhas e fazer um memorial por esse dia em que tudo mudou e continuar comendo sushi sem ironia, mas com shoyu.
Assim fica muito claro a mim essa objetividade e discernimento ao ligar a tv e ver os resgates acontecendo por helicópteros, ambulâncias, voluntários, tratores, sopões, onigiris e missoshiros.

III
Hoje vi a cena do cachorro que estava ilhado no telhado de uma daquelas casas que foram arrastadas. E vi o velhinho voluntário civil com uma escavadeira recolhendo o animal e o entregando à dona cuja casa misturou-se às outras sem pudor nem identidade naquela lambança de tudo ao mesmo tempo agora nessa sopa de mar, terra, tudo e nada, o caos; mas cuja esperança renovou-se quando o animal pulou no seu colo e a lambia na cara exasperadamente. E se alguém diz que cachorro não sorri, é mentira.
Se eu tivesse rabo e o abanasse naquela força e velocidade, eu voaria. Cachorros não voam porque não tem muita imaginação.

IV
Os planos de reconstrução, parece, já estavam prontos. Havia a idéia da desgraça parcial, desgraça quase parcial, desgraça quase total, desgraça total e desgraça plantando bananeira dentro de um barril de merda. Em alguns lugares, passou-se dessa condição e homens com cara muito séria aparecem nos balcões dos âncoras dos noticiários das tvs dando opiniões e palpites para começar a fazer qualquer coisa, nem que seja salvar um cachorro.
Eles, os homens sérios, esperaram a poeira baixar, as lágrimas secarem e já arregaçaram as mangas.

V
Tem a usina nuclear de Fukushima que está vazando muito material radioativo. À tarde vi um especialista de Tokyo dando um pitaco. No começo da noite era um professor de física de Osaka. Agora, onze quase meia-noite, os dois juntos mostrando o que aconteceu e o que pode ser feito para virar o barril.

Mil informações sobre os riscos, a aproximação. Nada passa batido.


VI
Hoje foi o botafora do Khanh. Ele vai voltar para o Vietnã e nunca mais nos veremos. Levei todo mundo no Choupana, um rodízio de carnes. Vibraram.
O Suzuki san foi quem me avisou que estava acontecendo um terremoto. E foi ele que disse essa frase na porta do restaurante, que deu nessa crônica:

- Primeiro a gente come, depois se prepara pro próximo terremoto. Então vamos comer bem.

Um comentário:

meeefius disse...

Admiro essa objetividade e disciplina, também admiro a frieza e força desse povo.
Não reclamo, porém, da maneira latina de ser, pois acredito que muitos daí queriam ser como os daqui -em partes-.
Mas torço para que reconstruam tudo e que nada pior aconteça, e que essa garra sirva de exemplo pro resto do mundo, especialmente para o Brasil.
Um abraço.