Domingão de sol morno 20 3 11

Como venho cantando e me encantado há alguns dias, parece que os ares da normalidade vieram pra ficar aqui em Hamamatsu. Dá pra sentir que as pessoas estão mais leves, menos tensas, até porque os técnicos estão resolvendo as questões radioativas em Fukushima.

Por isso eu digo: molecada, além de lerem muito, decorem a tabela periódica, um dia será útil. Mais que uma equação do 2o. grau, garanto.

Um paradoxo. E o mundo os tem aos montes. Enquanto celebra-se a paz nas filas de qualquer coisa, água, combustível, comida ou dar um telefonema dos desabrigados na tragédia japonesa e louva-se a civilização e a humanidade por tal comportamento, os Aliados atacam Kadafi, mais especificamente, a Líbia.

E com o jargão que eles adoram: danos colaterais, ou seja, morte de civis inocentes que não fizeram nada, apenas nasceram ali. Ou plantaram um quartel do lado da aldeia do infeliz.

Outro paradoxo. Hoje teclei com a Ritita, estudamos na mesma época no São Bento de São Paulo. Fofocamos sobre tudo e todos. Aí falamos do Lula, não do ex-presidente, mas de um amigo em comum. Eu o apelidei - sem ele jamais saber - de O Paradoxo de Santana, que era o bairro que ele morava.

Ele se chama Lula Maluf, por isso o paradoxo.

E numa reunião recente dos remanescentes, ele perguntou por mim.

- Estou bem, mano Lula, e você?

Além de citar o paradoxo macrocosmo muito macro da geopolitica da margem sul do Mediterrâneo, tem o macro micro aqui do bairro mesmo.

Ontem fui num lava-rápido botar a cor original do carro de volta. Depois, tem umas vagas para estacionar, o posto fornece as toalhas, o lavador de tapetes, o aspirador de pó e o próprio cliente cuida do seu coche. Quando cheguei, dois brasileiros ocupavam a vaga central enxugando um carro e as duas laterais com seus tapetes, as portas escancaradas e uma música muito ruim do centro-oeste brasileiro tocando alto. Como eu tenho a cara japa, me disfarcei de japa, nessas horas escondo a vergonha pelos patrícios de Pindorama.

Estacionei duas vagas à esquerda e na hora que saí para tirar a água, escutei é bom ficar longe mesmo. Bueno, pelo menos meu disfarce funcionou bem.

Enquanto eu enterrava meu bom mocismo entre as pernas, chegou uma van enorme com um japa com cara de buldogue, ele só apontou a frente do carro na vaga com os tapetes dos caubóis e ficou olhando. Parei pra ver. Um deles olhou torto, viu a cara gorda do japa e foi tirando os tapetinhos. Quieto, baixou o som, também com o rabo entre as pernas. Eu abanei o meu, yeah.

O japa botou a carangona preta ali. Cara ruim, feio de doer, mas salvou meu dia. Depois a criançada desceu pela porta de trás.
Enquanto louvam o exemplo de civilização dos japoneses pelo mundo afora, aqui, dois palermas mostram nossa cultura tupinambá-novo-rico-neandertal.

Millôr diz na Bíblia do Caos que brasileiro tem vergonha de brasileiro no estrangeiro. Eu tenho.
Há anos, um cara me mandou tománocu no trânsito. Eu respondi vaiocê. Lá na frente, ele parou no meu lado e disse desculpe, pensei que era japa.
É fodis, mermão.

Tem um velhinho japa que costuma dizer que eu sou diferente de outros brasileiros e acha que estou tomando suas palavras como elogio. Que nada. Dá vontade de não ser tão diferente assim ouvindo isso de um estrangeiro e lhe causar certos danos colaterais.

É diferente lidar com auto-crítica e a mesma crítica vindo de outrem. Eu posso achar minha mulher lindíssima, mas ninguém precisa ficar falando isso pra mim.
Velho mané racista. Um dia eu falo pra ele o que eu acho de japones fazendo barulho chupando sopa.

As coisas voltaram ao normal mesmo. Ando reclamando de coisicas titicas de nada.
Olha as cenas no mercado Big Fuji. Balcões lotado de frutas e verduras (lá em cima), normalíssimo. Mas nada de papel higiênico (ao lado).
Qual o significado disso?




10 comentários:

Léo disse...

Tá parecendo eu em Floripa! Lembro das duas ou três vezes que fui, ter ficado só olhando a patriciada, sem fazer contato, e é bem curioso. A argentinidade em território estrangeiro também dá o que falar.

Du or Die disse...

Cara, é bem isso... eu tenho uma puta vergonha de brazuca no estrangeiro, já vi cada merda por onde andei, o bom é que curitibano não é muito brasileiro nesse ponto, é mais fechado, mais na dele e preocupado com sua "bolha", assim acaba não invadindo o espaço alheio. Era engraçado, as pessoas sempre estranhavam quando descobriam que eramos brasileiros, pensavam que eramos italianos, franceses, qualquer coisa, menos tupiniquins...

Luciana Vannucchi de Farias disse...

HAHAHA, adorei o "Paradoxo de Santana"...

Rapaz, só fui uma vez pro exterior, mas foi o suficiente pra morrer de vergonha dos brasileiros que lá estavam.

Se bem que, atualmente, ando com vergonha dos brasileiros aqui dentro do brasil também, principalmente aqui em São Paulo, onde parece que a falta de educação nem pediu licença pra entrar e se instalou rapidinho.

Beijocas!!!

Luciana Vannucchi de Farias disse...

EEEEEEEE!!!! O bom de voltar a esse mundo blogueiro é poder encontrar lugares como este seu, aqui. :-)))

Beijão!

Rita disse...

Que delícia ser citada no seu blog!
Amei!
Obrigada pelo carinho e pelo "Ritita"!
Beijos

Camilo disse...

Acabo de ler em outro blog que tem brasileiro vendendo água por aí com preço 6 vezes acima do encontrado no mercado japonês.

Como nunca fui ao exterior, isso de sentir vergonha alheia via internet é novidade. Pobre de mim.

Dizem que perguntar não ofende...
Comida japonesa dá caganeira?

rnt disse...

Hihihi "Um dia eu falo pra ele o que eu acho de japones fazendo barulho chupando sopa".

____________


Briga com a sogra, duvida
De tua vida, de Deus, de tudo,
Das próprias coisas que melhores julgas,
Porque, na verdade,
Não há nada mais chato na vida
Do que um cachorro sem pulgas...


[Mario Quintana; Velório sem defunto, 1990]

_____________


;D

Nei kS disse...

Qualquer comida dá caganeira, Camilo. Acho que depende da saude do dono do alvo do papel higienico.

Camilo disse...

A falta de papel higiêncio então... Bom, sou novo por aqui. Não sei se o blogueiro vai ficar bravo se eu brincar que ele tá botando a culpa no cu dos outros - rsrsrsrs.

Kenia Mello disse...

O humor e a acidez de volta, Nei, que bom! Sim, também corro da maioria dos brasileiros que encontro aqui. ;)
Beijos.