O medo

A usina de Fukushima explodiu de novo. Foi o assunto do dia. Até que o mundo terminasse em água ou houvesse a possibilidade de todos sermos engolidos pelo mar como foi parte de Sendai, o medo primal era apenas o terremoto.

Há um nihon no kotoaza (provérbio japones) que diz que temos que temer, pela ordem:



dishin 地震, kaminari 雷, kaji 火災, oyaji 父

Ou seja, terremoto, trovão, incêndio e o pai.

Mas o medo multiplicou-se a partir da terra tremendo. Olho para todos os lados e só vejo inimigos. O que era belo e natural, é um deus irado pronto para matar minha família, meus amigos, meus inimigos e a maioria de desconhecidos, tão indefesos quanto eu.

Estou em casa e olho para a frente a partir da porta de entrada. Lá longe, a 13 km, está o mar. Venho acreditando que ele nos odeia muito. Não sou surfista, mergulhador, pescador, marinheiro ou vendedor de protetor solar, sou apenas um sonhador e quero viver. O mar desconhece as minhas razões e de todos os outros que moram entre eu e ele.

Olho para a minha esquerda e está o Rio Tenryu que abre as portas para o mar invasor. O conluio das águas. Iara, Iemanjá, Namor e Netuno numa orgia que arrasta o mundo dos homens como um chimpanzé com uma metralhadora numa loja de cristais.

O mundo dos homens - o meu o seu o dele e nosso - não nos pertence mais. Pertence aos deuses e eles estão putos.

Na outra margem do Tenryu está Iwata e mais adiante, a 40 km, a usina nuclear de Hamaoka.
Muitos brasileiros compraram casas por lá. O preço é muito barato justamente por causa da usina. O barato sai caro, mermão.

Olho para a direita e vejo Hamamatsu, daqui até o centro e depois até o outro extremo, uma cidade inteira que pode deixar de existir se uma combinação hedionda de fatores acontecerem. São quase 800 mil pessoas que vivem a inédita expectativa de verem o mundo acabar. Todos querem um naco de algo como um extra power para sobreviver, como num game ultra realista e absolutamente desagradável.

Às minhas costas, no norte, estão as montanhas de Tenryu com seus milhões de ciprestes pendurados esperando desabar e como diz a Nanci, se já não bastasse tudo isso, ainda tem o kafunsho (febre do feno) que nesta primavera está 6x acima da média.

Finalmente olho para cima e quero rezar. Mas pode vir uma nuvem radioativa e me cobrir com seu manto de morte até que eu mesmo exploda por dentro.

Para baixo não olho mais. O termo "perdi o chão" é uma constante. E é insuportável.

Cruzo as pessoas nas ruas, nos carros, no trabalho e vejo a mesma angústia em todos. Todos sabem que a vida é um detalhe, um sofisticado sistema de hormônios, órgãos, emoções e tudo mais que não explicamos que pode virar passado. É triste viver assim. É hediondo. É como estar em clima de guerra sem um inimigo próximo. É como se um anjo anêmico carregasse uma bigorna amarrada com barbantes sobre a sua cabeça.

O inimigo é o próprio mundo.

O medo não tem escalas e nem palavras que sejam vãs e que possam ir além do seu significado simples e compacto em parcas quatro letras, mas que nessa altura dos acontecimentos, são inúmeras, incontáveis, detestáveis.

Não há nada pior do que a espera, qualquer uma. A distância entre um homem e a solidão pode ser uma porta fechada. Mas hoje em dia, pode ser o fim de tudo.

5 comentários:

Anônimo disse...

O medo é um monstro invisível, sem piedade e sem nome. Penso àqueles vilarejos, habitantes e pescadores que, com dignidade e compostura, ainda conseguem agradecer pela vida que lhes resta. Eu, sentada neste outro lado do continente, cômoda, bem agasalhada, sem o racionamento de energia e com comida na mesa, penso desde sexta-feira, dia que retornei - o quanto nossas pequenas dores não sejam nada perante a força da natureza. Seus textos me comovem sempre, Nei. Luci

Taty disse...

Realmente é muito triste. Aqui as pessoas perguntam toda hora, "vc tem parente lá?" E qdo a gente pensa nos parentes que estão por lá, nos sentimos impotentes...
É interessante ver aquele povo, que com tanta desgraça, e consegue ser tão organizado! Imagine uma coisa dessa por aqui? Além de sofrer com a própria situação, teríamos q sofrer com outras consequencias como furtos e vandalismo!!! Mas é isso querido, continue mandando notícias. Um gde beijo pra vc e pra Nanci

Rita disse...

A dor maior que nos chega é esse "tapa na cara" que nos acorda a refletir e ver a pequenez do ser humano... O medo fica ainda maior quando a maioria observa que, nem o mais preparado povo, com toda a força, organização e preparo, pode evitar tamanha tragédia.
O povo japonês tem dado ao mundo uma lição de serenidade e equilíbrio diante de tantas provações. Peço a Deus que o medo não o impeça de continuar na batalha e mantendo o foco.
Obrigada pelo lindo texto, Nei!
Bjs

Diva L. disse...

O que dizer?
:(

Sabrina Martinelli Anéas disse...

Oi Nei,
Sou irmã da Tata e cheguei ao seu blog pelo facebook.
Estou absolutamente aterrorizada pelas suas palavras e , talvez, minha sensação não chegue a 1/10 do que vc está sentindo. Mas daqui o sofrimento é a impotência e a impossibilidade de fazer qualquer coisa que minimize o sofrimento e o medo dos amigos, parentes e desconhecidos que estão aí.
Vc tem razão, os Deuses estão putos e talvez a vida seja mesmo só uma questão de tempo.
Bj
Sabrina