Uma semana

Há uma semana atrás eu era uma outra pessoa. O fato de ver o apocalipse tão próximo e ainda fresco e dinâmico te faz mudar muito por dentro. Não virei santo, benevolente e bendito de ilibado caráter. Nada disso. Meu cinismo e ranzinzisse sobrevivem a quaisquer catástrofes. Outros defeitos maiores e menores também. Não é uma questão de caráter. Não sei o que é.

Sei que o medo virou uma sombra, um eco. Faz de tudo para preencher o silêncio, o barulho, o olhar. O medo está vinculado aos cinco sentidos, ao que rodeia. As preocupações passam pelo filtro de não ter um possível amanhã.

Em contrapartida, durmo normalmente como dormia antes dessa semana. Deito onze, onze e meia, acordo às quatro da matina, leio um livro por uma hora e durmo das cinco às seis, como faço há anos. Isso também não mudou.

Terminei de ler "Jimmy - o menino mais esperto do mundo", de MR. F. C. Ware. É uma história em quadrinhos maravilhosa. Plasticamente maravilhosa. O roteiro é meio complicado, mas melhor assim, nunca vou cansar de reler para ir descomplicando a cada vez.
Recomendo, é da Quadrinhos na Cia.

Quando saio de casa, acelero e encaro o sol no peito, na lente escura dos óculos, penso em todos os 120 milhões de japoneses que estão fazendo algo parecido nessa manhã e que todos estão com os pensamentos voltados para o mesmo lugar do mundo. E todos estão num stand by das emoções e trancados em seus mundos, em suas cabeças. Mas parece que todo mundo pensa igual numa espécie de estado de choque generalizado.

Essa semana passou como se fosse um único longo dia. O aperto no peito foi igual em todos os dias, os otimistas e pessimistas, tudo igual.
É perene, flutua sobre nossas almas sem tocá-las até que se inspire profundamente a tristeza, hoje fiel irmã e parceira.

Um comentário:

Paola disse...

Nei,
Admiro a coragem de todos vocês que estão ai, encarando o "olho" .. ia dizer furacão, acho que seria melhor o "estômago da Terra"... sei lá, o mundo nunca mais será o mesmo!