Bataterra

Tão dizendo que essa batata psicodélica aí do lado é fruto (?) de intensas pesquisas baseadas em fotos de satélites, gravidade batati-batatá. A batata é a Terra. Como se já não bastassem todos nossos milênios de guerras e auto-destruição, destruição da natureza, asfalto em cima de minhoca, essa falta de amor próprio que a gente carrega pelo fato de sermos humanos very gente, veja você. Tá na cara que a minha coriza é minha culpa, que o pó que acumula nos móveis da minha casa é minha culpa, que a água que desperdiço lavando meu carro eu pago a conta, mas podia encher o caneco de um cara com muita sede sentado numa poça de lama num daqueles países perdidos entre uma propaganda da cola light e uma mina subterrânea esquecida de vinte anos atrás, é minha culpa. Culpa culpa culpa a gente cria monumentos e religiões para nos livrarmos dela. Tem a culpa das pessoas que falam na humanidade na terceira pessoa do plural - essa mania do século XX que começou com Nietzsche, esse idiota feio e bigodudo idolatrado por quem nunca leu filosofia, mas acha o nome do cara um enigma inicial e por ele e pelo bigode ou em citações em palavras cruzadas, já leu tudo do alemão babão. Essa coisa da terceira pessoa do plural onde ficam dizendo eles eles eles, humanos eles, inimigos eles, destruidores eles, carrascos eles, racistas eles, pobres eles, pretos eles, brancos eles, amarelos eles, fumantes eles, gordos eles. Tudo muito nós, muito eu e seis bilhões de bípedes - até que pisem na mina esquecida. Muito eu e você, nós. Pois bem, como se não bastasse essa culpa com esse deus pregado e morto, esse outro clamando nos desertos, aquele outro em jejum e contemplação ou aqueles milhões que são tudo e não são nada, como se não bastasse nossas dores mais pequeninas e secretas, ainda usam todo nosso conhecimento tecnológico - sim sim sim, virtudes! - para dizer que nosso planetinha-lar é uma batata? Justamente num momento entre Hiroshima e Fukushima onde quase fizemos dessa batata um purê? Amor próprio é planeta azul, o mais azul dos quadros de Fernando Cea Nuñez ou a janelinha de Gagarin. Aos tristes, as batatas.

4 comentários:

Luciana Vannucchi de Farias disse...

Desculpa... mas estou rindo até agora da "batata psicodélica" e acabei perdendo o fio da meada do que ia comentar...

Mas prefiro o planetinha azul.

beijocas

Rodrigo Tomé disse...

Quincas Borba acertou, então? Ao FDP, as batatas?
Nossa batata tá assando...

Excelente crônica, pena quue é tudo verdade.

Um abraço.

Rodrigo Tomé disse...

Professor de escola islâmica espancou até a morte aluno de 7 anos: http://www.paulopes.com.br/2011/04/professor-de-escola-islamica-espancou.html

Abel de Carvalho Filho disse...

Caro Nei, não defendendo intenções científicas, longe disso, mas creio estar havendo uma baita confusão a respeito desta batata. A imagem não é uma concepção física da Terra. É um gráfico 3D da variação da força de gravidade não sei a que distância do centro. Deve ser para facilitar cálculos em tráfego aéreo.