Escola da vida

Thiago Santos está na USP. Ele tem um pouco mais de vinte e muito menos de trinta. Está no seu auge. Ele é filho de um grande amigo, o Gil.
Thiago estudou praticamente a vida toda aqui no Japão, tanto em escola japonesa, como brasileira. O mérito de estar na USP cabe apenas a ele e seu esforço diante da dificuldade de reaprender a gramática da língua portuguesa sem perder o japonês, no qual ele é fluente, além da cultura e do mudus vivendi brasileiro, completamente diferentes em sua vida e adolescência no Japão.
Há alguns anos, ele voltou para cá para visitar os pais e rever amigos. Passou um verão aqui. Nessa época eu estava desempregado, estudando japonês e nos vimos algumas vezes. Assim como o pai, muito bom pra sentar e jogar conversa fora - o que há de melhor a fazer com amigos. Em uma dessas vezes, fomos à escola japonesa onde ele formou-se no ensino fundamental para pegar a cópia de um certificado relativo ao idioma japonês, o qual ele incluiria em seu currículo para poder dar aulas no Brasil.
Ao chegarmos no guichê da secretaria, pediram documentos e ele apresentou o passaporte. A mim, o funcionário perguntou porque eu também estava ali e disse que apenas o acompanhava. Depois fomos colocados numa sala de reuniões. Ficamos ali sentados por 15 minutos vendo as fotos nas paredes com o Thiago contando dos humores dos professores estampados. Pouco depois, nos trouxeram a cópia do documento que ele pedira. Fomos levados até a porta do prédio. Ao sairmos, Thiago ainda ficou me mostrando a escola pelo lado de fora, o campo de futebol, o pátio, os armários de materiais esportivos, lembrando das brincadeiras que aconteceram ali. Nesse momento, percebi que um funcionário, de longe, nos observava. Assim ficou até que saímos para a rua.
É simples. As coisas podem ser muito simples. Não mais que isso, apenas nos observou - mesmo sabendo quem éramos e com a cópia do passaporte do ex-aluno na mesa - um pequeno gesto de cuidado e zelo com a instituição de ensino e principalmente, com as crianças que estavam em aula.
Talvez, por seu histórico contemporâneo violento, o Brasil precise colocar alarmes, câmeras, detectores de metais e seguranças nas portas das escolas. Mas fica claro que um gesto, um ato, um olhar, fazem muita diferença. E não apenas entre os funcionários e ocasionais visitantes, mas de aluno para aluno, professor para aluno, professor para professor. Gente para gente. Aprender e ensinar na escola da vida.
Só isso.

4 comentários:

Paola disse...

Lindo, Nei.
Bj
PAOla

há palavra disse...

É isso aí! Educação se faz na relação - e a relação inclui, mas também FAZ o ambiente!
Abraços, bons caminhos deste novo seguidor [no bom sentido...]...

Gilson Santos disse...

O que devor fazer depois de ler isto.... sentar, me calar, pensar e constatar que o primeiro mundo tambem tras seus malificios.

Camilo disse...

Sensacional!