Estudantes e vozes e vozes sem gritos de gol

I

Junto à Apollo Piano há uma escola para afinadores e restauradores de pianos. Não, nunca estudei lá, aprendi na raça com meus dicionários.

Até o ano passado, os velhos mestres passavam algumas horas com os estudantes, uma vez por mês, se muito. Por causa da idade (70) os velhos foram saindo e ficamos nós, os quase-velhos.

Segundo a nova grade do curriculo desse ano, os estudantes passam duas horas por dia conosco, de duas a três vezes por semana. Nessa semana ficaram comigo.

É engraçado ver suas caras de surpresa com uma coisa que geralmente é corriqueira para mim. Isso deve ser o ato de ensinar o que se sabe. Nunca fui bom com essas coisas.

Talvez porque eu seja autodidata, canastrão, teimoso e meio lerdo.

Como ainda não me acostumei com o fato de que os japoneses não são irônicos em sua natureza como nós somos em nossa naturalidade e sutileza, às vezes acho que eles estão tirando sarro. Mas não, a cara e a surpresa são reais.

Quando dizia uma coisa completamente absurda com a cara mais séria e cínica do mundo, os garotos acreditavam e ficavam pasmos, chocados. Depois da quinta vez, aprenderam a rir.

Agora gargalham.

Ensinando, aprendi a moldar um pequeno latino de vinte e poucos anos dentro de uma mente straight como é a japonesa.

II

Hoje o carro da Nanci foi para a revisão obrigatória bienal, o shaken. Se o proprietário não levar o carro e trocar o selo que fica grudado no vidro, nem sei.

Não sei porque todo mundo faz a revisão.

Mas o caso não é esse.

O lance é que o cara que nos atendeu era um gordinho com uma voz muito fina, irritante, uma mistura de Tetê Espíndola + buzina-corneta de pipoqueiro + campainha de apartamento dos anos 70.

O outro lance é que quando ele ligou aqui em casa para dizer que tudo estava pronto para levarmos o carro e ouvi a voz dele me explicando os detalhes, a hora mais propícia e tal,

o visualizei exatamente como ele apareceu na minha frente, gordinho, baixinho, macacão da Shell e sempre sorrindo, simpaticíssimo.

Deve ter esse bom e fácil temperamento para compensar a voz.

III

Viram a capa da Veja dessa semana?

O Brasil vai sediar a primeira copa do mundo de futebol de várzea.

É uma volta às nossas origens nos tempos de Charles Muller. Será uma homenagem?

Em tudo que queremos fazer bem há sempre alguns detalhes que são preponderantes para que caduquem na origem. Uma coisa absolutamente ricarteixeirada. Às vezes, até merendas escolares passam por isso.

Aquele senhor com essas atitudes ricarteixeiras está para o futebol assim como analfabeto está para o livro.

Mário de Andrade disse: "Ou o Brasil acaba com a saúva ou a saúva acaba com o Brasil".

Uma ricarteixeirada acaba com os dois.

Na nossa história já tivemos craques com a elegância de Falcão, Rivaldo, Sócrates e Ademir da Guia. Estatísticas como as de Ronaldo Fenômeno e Rogério Ceni. Dribles de Mané. Tudo isso em Pelé.

Nossos capitalistas-mor já construíram usinas hidrelétricas na China e em países da África. Estradas nas Arábias e Iraque.

Então porque não constroem estádios em casa, no Brasil, com o mesmo vigor, considerando o nosso patrimônio humano?

Porque o Ricardo Teixeira não tem time, não torce pra ninguém. É um analfabeto de futebol e há décadas quer acabar com o futebol brasileiro.

Porque o Ricardo Teixeira vai fazer todo brasileiro que sair para o exterior ser motivo de chacota porque todos vão dizer que o brasileiro sabe ser o palhaço do circo, mas nunca será o dono, o apresentador.

Ironicamente, o da cartola.

Um comentário:

rnt disse...

ai que saudade q eu tava do PAM :)))