Ode ao velho lar





A melhor definição que já ouvi sobre um lugar foi

"Lá de onde eu vim, todas as casas tinham pelo menos uma janela com um vidro quebrado".

(Edu Coiso, metaleiro paulistano)

Na dúvida, o melhor lugar para morar ainda são os poucos centímetros cúbicos macios do teu próprio e exclusivo travesseiro.

Já morei num décimo-sétimo andar no centro mais perverso de São Paulo, entre a 25 de Março e o Mercado da Cantareira. As mesmas centenas de metros que eu caminhava para comprar um peixe exótico de aquário de um rio da Nova Guiné, também eram, em direção oposta, para lojas onde eu poderia adquirir um papai noel em tamanho natural com a camisa do Esporte Clube Bahia - em plena Páscoa.

Qual é o tamanho natural do Papai Noel?


Quando vejo filmes novaiorquinos onde os caras falam mal de lugares como Queens ou Hell's Kitchen, creio que cada poeta, diretor, roteirista ou blogueiro sabe onde o calo aperta quando tranca a porta de casa atrás de si.

Eu sei da Cracolândia ou do eterno cheiro de cebola podre de ruas inteiras do bairro do Brás.

Ou dos cachorros mortos boiando na latrina viva que é o Rio Tamaduateí.

Sei de Dom Pedrinho, Imperador do Centro, mendigo esquizofrênico daquelas ruas, Imperador que cuspia no chão e lambia de novo quando estava com fome.

Ou de Maria, A Louca, outra mendiga, nossa rainha.


Tinha o boteco que apelidamos de 7 Portas porque ele era numa esquina triangular e tinha realmente todas as sete portas.

Claro, o querido e point pé-sujo do Seu Zé, que cobrava uma merreca a mais só porque queriamos maionese no misto quente.

Naqueles dias em que dava para encontrar um papai noel equivocado em datas em meia dúzia de lojas na 25 ou travessas, a Cracolândia era apenas um lugar de putas baratas onde caberia o glamour da trilha sonora de Tom Waits. Hoje em dia deve constar até nos arquivos do efe bê i.


Ainda é possível encontrar papais noéis em vários tons e temas, Mas todo o glamour escorreu pela escuridão dos canos das bocas-de-lobo.

Lembro quando o Bado mudou para o centro, me ligou do orelhão, tinha descolado meu telefone com o Otávio. Ele disse estou aqui na esquina da Senador Queiróz com a Barão de Duprat. Fui até a janela, assoviei, ele olhou pra cima, fez positivo, desci e a vida tratou de nos sofisticar em elocubrações ainda inalcançáveis.

Amigos assim, se não são eternos, são para sempre.

A mãe do Otávio-que-descolou-meu-telefone tinha uma loja na outra quadra.

Fernando Cea, outra pessoa rara e absolutamente presente na minha/nossas vidas, tinha morado, anos antes, ali no Parque Dom Pedro II, dez minutos a pé.

Todos nós tinhamos como vínculo o Largo de São Bento, um colégio, um palco, várias gargalhadas.

Tudo no Centro de São Paulo e ainda no centro de nossos corações.

Por isso eu sei que a saudade nunca está sozinha.

Um comentário:

Palavras Vagabundas disse...

Nei, vi o centrão de SP em seu texto! E me emocionei muito com seu post sobre sua família!
bjs e bom fim de semana
Jussara