Roubem tudo, menos minha música



Minha Fender, sagrada, fazendo pose na escada.
Quando sei que roubaram um instrumento musical de alguém, fico tomado por um nojo muito grande por esse ladrão.
Não discuto a ética do lubridiar, denegrir, invadir e tomar o que não te pertence e evidentemente não concordo com nada disso, mas cara, leva o carro, a guitarra não!
Roubem tudo, menos a minha música.
Nesse instrumento, eu faço 12 notas virarem toda gama de emoções que jamais caberiam no coração e mente de alguém que rouba a minha música.
Se estou só, se só me resta a madrugada, a tarde chuvosa ou um insuportável e tedioso dia ensolarado, não assisto uma comédia e nem um filme romântico de vampiros bobocas, nem vou à praia ou ao shopping mall, eu plugo a minha guitarra e toco um blues.
Ou clico on num tecladinho eletrônico simples e alongo notas como se fossem feitas para a introdução de um gospel num velho órgão dominical barato de igreja.
Eu faço uma canção e a esqueço.
Eu quero sempre ter o poder de fazer uma canção e esquecê-la.
Para isso, minha guitarra está lá no pedestal.
Não invejo o glamour dos grande artistas de pantagruélicas turnês ou excursões milionárias. Invejo aquela Fender Mustang creme ou uma Jaguar vermelha sangue com as bordas gastas de suor na desconhecida banda punk do interior do Arkansas. Ou aquele triângulo na mão hábil do repentista feliz e cego.
Um instrumento musical me faz ser a pessoa mais feliz do de toda a história da humanidade, de todas as guerras e todas épocas de paz.
Com um instrumento musical eu faço a vida ser muito melhor todos os dias.
Por isso, se você roubou de mim, pode devolver, deixa aí no quintal, eu serei eternamente grato. Pode ficar com as pérolas, os eletrônicos e o carro.
Mas devolve a minha música.
(Não, não roubaram nada de mim, daqui de casa. Estamos intactos. Essa é pro Luiz Bueno, amigo do amigo do amigo - coisas de Facebook - que foi surrupiado em casa).

2 comentários:

Sabrina Martinelli Anéas disse...

Leve tudo, menos a minha alma...

osmar disse...

Concordo com Sabrina, "levem tudo, menos a minha alma..."!!! Penso que o instrumento musical é a extensão da alma de uma pessoa - muito diferente de qualquer outro objeto pessoal que seja! Já perdi coisas de valor, quebrei ou arranhei outras, mas, sinceramente, se algo acontecesse com meu violão ou meu contrabaixo, tenho certeza que a perda seria realmente irreparável, algo suprapessoal que iria para além da minha compreensão racional e extrapolaria a dor de meu coração, aquela dor que, às vezes, é bem pior que a física, pois, além de não ter remédio, acaba deixando até mesmo o corpo em frangalhos... é foda, gente!!!

the Osmar.