Ao deus dos ateus

I
Parece piada.

Piada de paradoxos, paralelos absurdos, física quântica como se fosse uma paulada no meio da cachola.
Grupos unidos e organizados de ateus.
Sites, blogs, comunidades em redes sociais, tuiters, associações, séde própria, sala alugada, reuniões semanais, palestras, pautas, panfletos, libretos, autores, compositores, jornalistas, informações sigilosas, provas irrefutáveis, diplomas, discursos inflamados.
O que eles não perceberam é que viraram uma religião, a religião dos ateus.
O religare do homem ao nada. Que delícia!
Agora precisam dos heróis, dos mártires da causa, de nomes gravados no mármore em algum panteão.
E tudo acaba tendo o mesmo significado do religare do homem ao todo.
O que era ausência de deus, acaba virando mais uma grande ortodoxia fundamentalista de não-superstições explicáveis por sábios antigos, homens de valores morais inatacáveis cujos saberes atravessam os séculos pela obscura ciência do ceticismo.
Dito claro: ceticismo pelo ceticismo.
Logo virá algo como o dízimo, o valor de cada indivíduo para a causa maior.
Um grande não-templo para não-orações num lugar não-místico?
Será o carro zero do sacerdote do não-céu?
A casa na praia para fugir do não-inferno?
A faculdade das crianças?
A temporada de cinema em Barcelona?
Uma emissora de tv?
Briga para transmitir futebol?
Chutar a santa?
II
Meu ceticismo não anda de turma não.
Será que algum deles leu a Revolução dos Bichos de George Orwell?
Ou Max Weber?
A Bíblia, Alcorão, Torá para pelo menos dizer não com certa malícia e empenho?
Essa coisa de andar de turma.
Nem em banda de rock dá liga.

2 comentários:

Kenia Mello disse...

Rá, muito bom. E é isso aí, mesmo. ;)
Beijos.

Anônimo disse...

Pergunta: Um conjunto vazio ainda é um conjunto?