São Várias Horas na Capital




Na janela havia um pequeno ponto branco.

Além do ponto, pombos pousaram no fio do poste e isso dava um sentido uníssono de ponto + pombo = transparência prejudicada num quadro 3D pintado tão aleatóriamente com são os caminhos da chuva.

A sombra de um avião voando baixo acariciou a parede do prédio do outro lado da rua - tão rápido, tão doce, tão sombra.

A cerveja esquenta na garrafa, o suor escorre pelo vidro marrom formando uma poça na mesa com o formato do Brasil.

Os pombos voam espalhafatosos/ruidosos com o estampido de um escapamento.

Impossível.

Em tempos de injeção eletrônica, motores não explodem como as kombis dos anos 70.

Ou os fuscas que diziam que botavam naftalina no tanque para elevar a octanagem do combustível e e fazer o besouro voar.

Se é impossível, o estampido é de tiro de alguma arma de porte médio, desses fáceis de comprar e mais fáceis de roubar e mais fáceis ainda de carregar.

Cinco balas, basta uma.

Sol de fim de tarde e os esquecidos levam as mão à cabeça porque o banco só abre amanhã.

Em tempos de internet o país vive uma fila única, do nascer ao viver, do viver ao guichê, do guichê à lágrima, do gol à expulsão.

As mãos na cabeça. O tiro foi ao alvo. Morte na via pública e nada além.

Ninguém é de ninguém.

Os pombos voltam e tudo parece em paz. Mas há um homem deitado na solidão.

A sua alma acaricia a parede do prédio em frente.

Sol de fim de tarde e celulares apontam e tiram fotos e não ligam para aqueles números úteis sempre com emergências de minutos de atraso. Nem ambulância, nem polícia, nem nada.

O homem não é mais homem.

Homens variam, desvariam, comem. cantam, vivem.

Este, de vida, só tem as roupas.

Basta um gole de cerveja quente, basta o mapa do Brasil.

Alguém pergunta que horas são, mas não para mim.

Não estou aqui, tudo é mera especulação.

Não vou entrar numas de metalinguagem.

Basta o mapa.




(Porque no dia 7 de outubro de 1990 pousei no Japão, faz 21 anos).

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