Esperança

Quando especificam sensações às cores sinto que querem vender algo muito maior que a simplicidade da sensação - por si só.

É tipo dizer verde-esperança.

A esperança tem a cor que for. Pode ser o creme-claro suave e brilhante da baunilha gelada e redonda sobre a casquinha crocante para ser finalmente mordida aos borbotões. A baunilha das tardes de cabulação de aula. Das folhas varridas no canto da praça e o vento soprando uma a uma como estrofes de uma tristeza que nunca houve.

Jardins a perder de vista, jardins barrocos a perder de vista. 

Meus olhos seguem os seus que seguem as folhas que seguem o vento que seguem o redondar do mundo. Redondo como a bola doce de baunilha. Um mundo doce é sinal de esperança.

Sinal dos tempos de festas possíveis para serem verdes e cheias de esperança, porque não?

A esperança pode ser uma gota. A última gota da madrugada, de floral, vinho ou saliva para um palato inconsequente.

A esperança não cabe numa noite, mas cabe no instante. Não se cultiva em vasos, mas dá-se em jardins barrocos.

(Flores na porta - a campainha - interjeções de surpresa de uma quarta-feira nublada. A esperança cabe atrás da nuvem junto com o sol.)

O sol é sempre igual, por isso é novo, é meu.

A esperança é a voz de Tori Amos cantando mares, borboletas, cafés e mais sensações.

Esta específica esperança ocupa a casa, cada possível recanto átomo-molecular atemporal. Ficará ali para sempre e um dia haverá tecnologia capaz de detectar essa força da natureza que é a música grudada nas paredes que tocou. Será ensurdecedor e ficará provado que o silêncio não é a única faceta mágica de deus.

Qualquer deus. Até os feinhos e verdes.

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