Natalismos

O mundo fica comovido com o Natal porque comemora-se o nascimento de um deus. Um deus filho de mãe virgem e pai cara de paus. Um deus que depois de adulto andava com um bando de homens e uma adúltera - ou puta - nada se confirma.
Acho que o Bolsonaro não ia gostar muito desse cara.
Um deus que morreu pendurado em local público no meio de ladrões.
É, o Bolsonaro ia mandar crucificar esse cara.

Há muitos anos atrás trabalhei numa gráfica que fazia embalagem para alimentos. Qualquer coisa, desde rótulo para garrafa pet a biscoitinhos de natal. Foi nesse lugar que arrebentei minhas costas de tanto trocar aqueles enormes cilindros de impressão.
Num desses natais, ou próximo da data, um rapazinho estava olhando uma dessas embalagens que fazíamos. Era um boneco de neve sorrindo numa noite de lua cheia com o trenó e as renas do papai noel cruzando a lua feito a bicicleta do garoto do E.T. e o nome do produto. Quando cheguei perto dele, me perguntou a origem do christmas party. Expliquei que era o nascimento de Jesus. Que Jesus? Iesu, eu disse em japonês. Mas o que Iesu tem a ver com Santa Claus? Longa história, mas não disse qual a longa história. E ele que não acreditava mais em papai noel ou trenós voadores, depois dessa não ia acreditar em Jesus, amor, caridade e blablablá.

O último natal que passei com a minha mãe foi aqui no Japão, há muitos anos. Como não é um país cristão, não é feriado e por isso tudo foi muito simples e corrido: um jantar, a pequena e torpe tristeza dessa noite, saudade de muita gente no Brasil e os olhos no relógio pois tínhamos que trabalhar no dia seguinte. Sem grandes brindes, sem nada maior que minha mãe, eu e a Nanci. Nada maior que um natal inesquecível.

Sempre achei que as grandes comemorações de fim de ano revelam a tristeza que tudo isso carrega. Por isso são pantagruélicas, fartas, etílicas, populosas, barulhentas. Disfarçam a pequeneza de nossas mais tenras e egoístas emoções. É natural. É natural que comemoremos a boa nova, a nova vida e o recomeço da vida no ano novo. Mas não somos tão sórdidos, mesquinhos ou meramente egocêntricos. Somos apenas solitários e insistimos em comemorar nossa solidão com todo mundo. Não é que as coisas sejam falsas e nós os enganadores. Nada disso. É só solidão, um agrupamento de solitários com seus segredos e virtudes e defeitos tomando cidra como se fosse magia.

E é.

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