De invernada

I
Estou há dois dias com isso na cabeça:
"É como se a cada dez minutos passasse um índio velho gritando:
- Ôu! Ôu!
Gritei de volta. O puto era surdo."


II
Hoje comemos salmão grelhado. Tudo é muito bom, a cor, cheiro, paladar, textura. Jogo orégano por cima, azeite e está pronto.
Fiquei com vontade de comer salmão por causa de um documentário que assisti sobre o Alaska, seus ursos e a piracema dos salmões na primavera.
Mesmo com aquela cara de bobo, o urso pardo tinha uma expressão feliz de saciado.
Acho que a cara larga junto com os olhos juntos fazem do urso um bobão-souvenir meio parrudão e mal humorado, solitário e guloso.
Todo mundo teve um urso de pelúcia. Todo mundo que é urbano. É como joelho ralado.


III
Joelho Ralado seria o nome que eu daria a uma banda.
Ia encher os culhões de pedais de distorção, plugar a guitarra e imitar as performances do Sonic Youth.
De todas as coisas feitas pra se chatear, acho que tocar em bandas de rock é a melhor. Depois vem livro ruim de autor bom. A gente lê até o final pra depois inflar o peito pra dizer que nesse ele derrapou. Nessas horas é importante ter mais de um na manga porque alguém vai citar um trecho bom e te derrubar. Você dá um gole - ou uma garfada, são pausas com timing perfeito - e cita outro livro de outro autor. Pode ser uma mentira. Não pode ser uma coisa pedante tipo Goethe. Tem que ser no nível e padrão do autor controverso amado/odiado. Se o cara citar outro trecho novamente, aponta o dedo mal educado das duas mãos e fura os olhos dele. Pelo menos acaba a amizade. E ele nunca mais vai te ver. Ou ler.


IV
Depois do salmão é importante ter um pedaço de chocolate por perto. O aftertaste é insuportável. Peixes em geral levam essa maldição.
É pior que lamber joelho ralado, juro.


V
Como é que uma pessoa racional pode acreditar que energiza um copo d'água com a mão? Se mãos fossem essas antenas de superpoderes mágicos, imaginem o poder de cura daqueles canos do teto de ônibus. Uau.


VI
Ontem assisti um filme brasileiro onde o diretor tentou usar a cidade de São Paulo como personagem.
Acho isso uma das coisas mais difíceis de se fazer. São poucas as cidades que se deixam filmar com essa clarividência de intenções. Algumas cidades são muito iguais a outras ou são muito feias em suas diferenças.
Em algumas cenas, principalmente nas iniciais, acaba-se confundindo de cidade ou só quem passou por ali sabe que ali é ali.
Filmar alguns prédios famosos num rasante de helicóptero é uma patetice clichê.
São Paulo vira uma anedota de cidade grande porque mesmo sendo tudo isso que sabemos que ela é, seu provincianismo ainda insiste em ser doce, cinza e nublado.
O filme era ruim, na verdade.


VII
Domingo à noite pode ser paulatinamente desgraçado. Pode ser.
Para conformados e inconformados é o pouco a pouco sob efeito de sedativos que não fazem efeito algum.
Pior que domingo à noite é olhar por relógio e ver que já são dez minutos da segunda.


VIII
- Porque eu? Porque eu? - Pergunta o índio surdo.

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