Mondocani e essa época

2011 foi um ano. Menos um.

Cada ano que passa Mondocani sabe que é menos um de vida. Menos um do distante marco zero em que nasceu. Mondocani pensa assim sobre os minutos. Sobre as esquinas também. Sobre as pessoas que poderia ter dito "ei, você tem mal hálito" ou "por favor, fale menos o pronome eu" ou "seja mais legal, menos babaca".

Mondocani pensa nos instantes que ele mesmo viveu e que foram disperdiçados com coisas irrelevantes como o tempo gasto nas prateleiras de tênis e calçados, escolhendo molhos de tomate ou assistindo programas ruins de tevê aos domingos.

Mondocani pensa que isso pode ser uma atitude bastante pessimista, mas sabe e crê que certos otimismos são uma forma muito séria de racionalizar para o nada.

Mondocani não acredita no invisível. Nem em forças universais. Não acredita que todas as pessoas estão fadadas à felicidade e alegria.

Mondocani sabe que muita gente, a imensa maioria está aqui apenas porque foi parida e nem sabe porque está aqui depois que foi apenas parida.

Vida de merda, pensa Mondocani.

Olha aquele ali com a pastinha, o terno, a gravata e deve estar cheirando a alguma lavanda vencida que passou na cara de manhã.

Olha aquela outra com os óculos comprados num desses outlets de barganhas chinesas.

Olha as paredes, os muros, os blindados, as grades, os porteiros, seguranças, walkie-talkies, krav magá, coldres, senhas, olhares e medos.

2012 virá com tudo, espera Mondocani.

Muita gente vai morrer em 2012. Muita gente famosa. Muita gente anônima vai nascer em 2012 e será muito famosa mais pra frente. E depois morrerá.

2012 será inteiro esperando acabar logo para que os maias estejam tão errados quanto estava Nostradamus, o visionário cafona.

Mondocani acha que o calendário maia acaba em 2012 porque as pedras onde eles esculpiam os calendários acabaram durante a execução do trabalho e que no meio dos Andes, carregar qualquer pedrinha é mover um Pão de Açúcar.

Por isso 2012. Poderia ser 60765. Ou 1.

Mondocani quer apenas assar uma carne, dar pulinhos nas ondas do mar, tomar um espumante e sonhar no um segundo que separa o ontem do amanhã.

Esperar o amanhã é melhor que vivê-lo, pensa Mondocani.

Brindar e brincar de ser feliz.

Mais que isso é otimismo irracional.

Talvez em 2012 comece um livro, conclui Mondocani.

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