Fire in Cairo

Fire in Cairo, já cantava Robert Smith do The Cure.

Mas lá ele fala de um amor, dos olhos que queimam no Cairo, nada disso está acontecendo nas pirâmides.

O buraco é mais embaixo.

Quando o estado combate a democracia com cassetete e jato d'água e tiro e informações evasivas é porque já passou do tempo e espaço. Eles atiram em vozes de liberdade.

Quantos calhordas como esses não nos deparamos no século XX? Ainda essa. agora?

É porque o povo tem razão e emoção.

O estado laico inventado pelos gregos não é fácil, mas é o auge das relações sociais.

Sempre torci pela base da pirâmide.

Pechincha












KORG AX 1500G



Na sexta-feira, falei pro japa assim to pensando em comprar um pedal wha wha Vox. Ele falou eu tenho uma pedaleira da Korg que tem um wha wha razoável, não uso mais, te dou. Eu falei imagina, esse tipo de coisa tem que vender, nunca dar, jamais emprestar, mas vender. Quanto você quer nele? Ele perguntou quanto você paga? Respondi mil yenes. Ele confirmou ok, eu trago segunda.

Isso dá 20,44 reais na cotação de hoje, segunda.
Já fiz barulho prabracadabra, sim sinhô!

E o wha wha é bonzinho mesmo.

Rituais e um almoço na ONU

I
Todo final de ano, os japoneses confraternizam ao redor de pratos e copos com seus colegas de empresa num jantar chamado bonenkai. Uma confraternização geral mesmo, chefes, chefes dos chefes, todo mundo num porre dionisíaco. Inventaram o karaoke pra esses micos.

Depois, virando o ano, fazem o shinenkai - mais comedido - que é para o início do ano. Tudo é muito mais ritualístico do que uma churrascada no quintal do chefe ou no pátio da fábrica ou aquela saída pro pé-sujo pra tomar uma Brahma e beliscar galetinho.

Para entender esses rituais todos, basta dizer que um amigo brasileiro foi convidado a participar de uma festa de uma gangue de motoqueiros barulhentos e arruaceiros, os bosozokos - tal qual no filme Black Rain, onde o policial Andy Garcia é assassinado em Osaka.

Pois bem, reuniram-se num estacionamento abandonado com as motos em círculo e uma garrafa de sake passou de mão em mão, gole em gole, até que o líder da gangue foi ao centro da roda e fez um discurso dizendo o motivo daquela reunião, o prazer de estar entre amigos, a fidelidade da gangue, união, etc, até o clímax do grito de guerra.

Depois, aleatóriamente, cada um disse seus motivos de lá estarem, sempre em torno do tema amizade, lealdade, amizade, lealdade. Até que todos montam em suas motos (umas 20), os garupas - o meu amigo era garupa de um deles - e fazem novamente o grito de guerra e vão para as ruas passar em sinais vermelhos e fazer barulho madrugada adentro.

Pois é, até para os Hells Angels japoneses, tem discurso, hierarquia, patati patatá. E olha que é uma molecada de 18 anos, se muito.

II
No sábado fui almoçar com o Suzuki san e o Khahn, ambos da Apollo Piano. Fomos a um restaurante indiano. Para o Suzuki san aqui era o nosso shinenkai, para mim era um almoço entre amigos.

O Suzuki san é japonês, o Khahn é vietnamita e eu sou brasileiro. Todo o staff do restaurante é indiano. Ao redor, clientes japoneses. De repente, o celular do Khahn tocou. Já reparou que todo mundo quando atende o celular fala mais alto do que se atendesse em casa? Pois bem, vietnamitas também são assim. Mas o Khahn já fala alto por natureza, ao falar no celular, o aparelho vira megafone de feira.

Por causa do idioma completamente diferente de japonês, indiano e português, todo o restaurante se virou para ver o comunistinha gritar com um amigo. Todo.

Depois disso, o garçom de Nova Delhi ficou nos encarando, principalmente ao Khahn pra saber de onde veio esse cara. Aos poucos foi se aproximando da mesa, disfarçando, como se estivesse arrumando as mesas ao redor. Na hora que ele percebe que eu falava japonês com sotaque, pirou. Foi para a cozinha e de repente vários caras vestidos de cozinheiro, com aqueles chapéus típicos saíram pra ver as nossas caras.

Apesar de ter milhares de estrangeiros morando em Hamamatsu, a cidade continua interiorana e provinciana. Isso se aplica por osmose aos povos que aqui convivem e pouco se misturam. Ao ver uma mesa completamente heterogênea, a curiosidade toma conta - e estamos falando de indianos, com milhares de deuses, centenas de idiomas e etnias.

A curiosidade é nata. é importante tê-la e conservá-la para melhor compreender o diferente, a outra cultura, o novo gesto. Vai ficar mais fácil para todos quando perceberem que o mundo não ficou menor só no computador, mas ao redor físico também. A diferença entre uma pessoa e outra é só um pensamento ou como esse pensamento se expressa, com circunflexo, sem acento, num ideograma, hieróglifo ou crase numa consoante.

O que importa mesmo é rir. O resto acontece.

O Vespa

Não sei que catso a gente tava fazendo perto do Centro Cultural Vergueiro. Era uma época de muitas caminhadas e situações inusitadas na companhia do Vespa.
O Vespa era um cara que se estivesse numa ponta de uma plataforma do metrô e te visse na outra ponta, chegaria até você passando por todas as pessoas dançando e cantando alto - gritando - canções folclóricas libanesas. Junte isso ao fato de que ele tinha quase dois metros de altura.
Nessa época ele fazia faculdade de não-sei-o-que na Brigadeiro. Certa vez ele e a turma cabularam para ver Koyaanisqatsi, o tédio-cult dos anos 80. Eu estava lá. Acho que o Bado também.
Mas não sei que catso a gente tava fazendo perto do Centro Cultural Vergueiro. Eu sei que resolvemos descer a Liberdade a pé. Fazia frio, ventava daqueles ventos que só tem ali por causa da 23 de maio no andar de baixo. Aquilo é uma maluquice urbana, duas avenidas seguindo paralelas com dezenas de metros de profundidade de diferença.
Um pouco antes da estação São Joaquim, passamos em frente a um templo evangélico. Era um pouco maior que uma garagem numa construção do começo do século passado, daquelas casas operárias sem estilo definido, mas definitivamente, carcomida. Entramos. O pastor usava um microfone apesar do pequeno espaço. Havia pouco mais de dez pessoas, não mais que quinze. A sensação que tive é que a maioria estava ali pra fugir do frio, não porque não tivessem fé ou não dessem importância ao sagrado, mas o calor do abrigo já era o bastante. Caminhamos pelo único corredor central. O pastor nos viu, um japonesinho e um golias lusitano de sobrancelhas largas, e não perdeu as rédeas da tribuna, continuou gesticulando e falando alto coisas de Manassés e saduceus e vale do Hebrom. Sentamo-nos no meio da pequena turba. Aos poucos foram notando nossa presença. Poucas vezes na vida me senti tão marciano. E nu. Acho que a idéia de entrar foi minha, na verdade disputávamos para ver quem era mais maluco e aquilo poderia me dar pontos. Ficamos ali uns dez minutos; como entramos, saímos, apenas a voz do pastor e nossos passos. Senti as cabeças se virando para observar nossa saída. Nunca considerei um ultraje ao divino, ao sagrado, nem nos meus maiores devaneios iconoclastas. Tudo era muito pagão e vulnerável, nossas imagens, o papo-pastor, as pessoas feias e fedidas sentadas ali. A lembrança está nítida, mas de todas as sensações que ainda ecoam, só sinto as cabeças se virando para verem nossas costas abandonando deus e homens. Nunca saberei.

Frio pra dedéu

O weather tá dizendo que tá 3 graus centígrados com sensação térmica de -1.
Fiquei com a sensação inequívoca que deram desconto de 4 graus, mas pelo escorrer do estalactite, o buraco é mais embaixo.
Não tá frio. Tá gelado, gelado pra cacete, gelado pra carvalho, gelado pra caray, gelado pra dedéu.
Coisa de vapor sair da boca dentro de casa. Café esfriar na caneca em 10 minutos. Vidro de carro fosco de gelo grudado parecendo fundo de freezer. Roupa dura no varal. Corpo esquizofrênico porque o aquecedor fica do lado esquerdo e o lado direito inteiro está gelado.
O weather falou que vai nevar domingo. Vai chupar gelo, weather mané do carvalho.

457 SP Capital





SP Capital - Envelheço na Cidade


Estive em São Paulo em junho de 2010 e passei um dia com o Laerte. Fui na casa dele, almoçamos e depois fomos na Comix pra ele me autografar o livro mais recente na ocasião, o Laertevisão.
Passaram alguns meses e ele lançou o Muchacha, esse ainda estou pra ir buscar.
Dali a dois dias eu embarcaria de volta pra cá.
Essa foto é uma homenagem a mim, ao Laerte e a SP.
A mim porque nasci nessa cidade e devo a ela todo meu dna cultural e emocional. Por São Paulo celebro a vida e o que sou.
Homenageio o Laerte porque ele é o maior cronista contemporâneo da cidade, é paulistano, é punk, é fodão, é diário, é da Folha.
E a São Paulo, que gerou a mim, a Nanci, o Laerte e muitos tantos heróis do meu passado, ainda presentes, distantes, sorridentes.
São Paulo de trocentos anos onde nada se perde, tudo se transforma e passa boiando no Tietê. Até Piratas - e corsários efêmeros.

Sonhei que

o despertador toca. Está escrito 8:20 no digital, pensei mas ainda está muito escuro, não são 8 e 20. Uma voz me diz não se preocupe, são 8 e 20, o dia é que não sabe.

Acordei. Eram 5 e 40, escuro feito breu e com a estrela d'Alva à esquerda na janela.

A parte I e a parte II

I
Para onde vão os desertos quando não há ninguém neles?

As multidões. Não gosto desses sábios que dizem das multidões como se voassem sobre nossas cabeças porque mesmo sozinhos somos da multidão dos solitários.

3a. pessoa do plural, jamais infelizes, silenciosos sim.
E sábios só voam quando compram passagem.

Ninguém sabe mais do deserto senão o incógnito grãozinho de areia - esse sim, voador.

Os gritos vão para o deserto para avolumarem sussurros e depois aos tantos, tantos que caraca dio mio são incontáveis por só soprarem seus mais íntimos elementos.

Ah, esses sábios que fazem fama falando mal da gente. Que digam, que cantem, que escrevam, que talhem seus dígrafos nas paredes e sejam vulgares com céus e infernos e perfumes baratos dulcíssimos fedorentos.

II
Eu só quero contar a história de alguém que tenha defeitos morais incuráveis. E que pratique ioga sem meias nem oferendas do cartão de crédito.
Um personagem que me foda e me sacaneie do prefácio ao lixo.
E sem nome, se esqueça de mim.

Amanheceu assim



Moro em Hamamatsu há 17 anos e nunca vi nada parecido com a nevasca de ontem à noite.
Amanheceu assim.
Aliás, nessa região do Japão nunca neva nos invernos, mas uma conjunção de fatores, etc, amanheceu assim.
O Suzuki preto é da Nanci. O branco é o meu. Amanheceram assim. Nenhum deles tem pneus de neve. Fomos trabalhar deslizando, é um perigo, dá medo. Aqui nas duas esquinas de casa deu porrada por derrapagem, na esquina de lá e de cá.
Vocês devem estar perguntando porque a molecada está indo de capacete para a escola. É assim mesmo, seja verão, inverno, calor, frio. Eles criam grupos que fazem o mesmo caminho e vão juntos à escola por segurança. Mesmo em dias de chuva, eles vão andando de turminha para escola, fila indiana desde pirralhinho, coisa de 6, 7 anos de idade.
Nas esquinas, pais voluntários e velhinhos e velhinhas aposentados se revezam durante o ano para controlar o trânsito.
Por isso, no Japão não tem fila de mães e carros esperando filhos em porta de escola parando o trânsito da cidade.
Claro, em dia de temporal, tufão ou disco-voador, pode ser.
Nem na neve de ontem, rolou isso.
E olha que amanheceu assim.

É hoje

De vez em quando, Nanci e eu pegamos o carro, enchemos o tanque e fazemos "estradinha".

Estradinha é sair por aí, som no talo, caminhos inéditos, cidades deconhecidas.

A primeira pergunta sempre é "mar ou montanha?"

Curto e grosso

Não existe uma poção mágica para literatura. Só existe dedo, tecla e sair rasgando o verbo sem pensar muito. Se pensar, dá preguiça e pronto.

Acaba aqui.

Falei? Inverno + Cointreau = bocejo.

Bocejo manda.

Por extenso

Gente por aí bastante entusiasmada com dois mil e onze, tudo tão fresco como se a vida desse start agora com a vantagem de nascermos como acabamos dois mil e dez, tipo eu to aqui novíssimo nas minhas dores matinais in natura no black e oficial, quarenta e cinco anos nesse mesmo pique devagar quase parando.
Quem nega uma bobagem dessas?
Tem uma coisa pouco redonda nessa coisa de cansarmos do ciclo de trezentos e sessenta e cinco. Nos cansamos do ciclo dos cinco dias úteis da semana, queremos todos os sábado, imploramos por sol nos domingos. Chega meio dia e queremos oito da noite, meia garrafa do branco bem descida, embriaguez de sofá classe média sorridente, todo dia é quinta, é hoje, é agora.


É agora. A gente pensa na frase ou dá ou desce porque a vida é assim, sem drama, sem jantar, sem beijinho nem vaselina. E não tem como pôr na conta, sair prum refresco, uma sombra, um canto quieto.
Eu medito. Na maioria das vezes acabo cochilando e não sinto culpa, sinto alívio pra equilibrar a minha insônia de trem lotado. Não tenho insônia de não ir dormir no começo. Eu não vou dormir no final. Ao invés de não ir dormir, vou com anjos, carneirinhos, entregue sem resgate no colo de Morfeu e

a sacanagem é que dali a três, quatro horas, acordo cínico e serelepe pra pensar na desgraçada da vida de quem nem percebe que estou por aí.

Eu chamo de sono ejaculação precoce. Nem começou, já acabou.

Mas dois mil e onze ainda será de Gaga e bê bê bê, Ronaldinho Gaúcho e Hebe. O mundo dá uma volta ao redor de uma bola de fogo num grande vazio - o maior oco do mundo - que chamam de universo e ainda ouço blablabla Hebe. Velhas sobreviventes sempre nos surpreendem com seu poder de fogo. Já fomos netos de Dercy, de Aracy e Marlene Matos.
Chamam o grande oco de universo e quando querem dizer que a coisa é total dizem que é universal.
Vai entender.

Calvos

Cientistas dizem ter encontrado a causa da calvície.

Me parece óbvio:

A calvície existe porque outras pessoas têm cabelos.

Roteiro

Já sentei no sofá pra assistir filme alemão só pra dormir. Eu gosto de muitas coisas do cinema alemão, muitas, de verdade. O problema é que em alguns filmes menos cotados, chega uma hora em que eles se sentam naquelas salas desconfortáveis e nada aconchegantes que eles insistem em usar de cenário ultra-realista e começam a falar de sexo.
Eu vejo um sofá com estampa xadrez e braço de madeira escura e poltronas pretas de couro barato. Almofadas de retalhos retangulares.
Todos meio embriagados. Os donos da casa são profissionais liberais de esquerda, provavelmente verdes. Podem ser eles e três amigos, três amigas, vinte bigodudos, quatro casais, seis adolescentes. O que importa para o roteiro é que eles vão falar de sexo.
Sem trilha sonora.
Não vão fazer sexo ou agir sexo, só sexo-pensar, como diria Orwell. Ou tudo será apenas sexo verbal. E vão falar de situações vexatórias, claro, escuro, brochadas, falta de vontade, umidades, securas, cheiros, sujeiras, cores, fetiches anatômicos, moças e rapazes nus correndo numa praça em Berlim numa madrugada de verão. Shakespeares tedescos, lânguidos Fassbinders, vinho branco adocicado alemão de segunda nas taças, nos beiços, na mesa de centro de madeira tropical com detalhes marinos. Vão falar de sexo até que um par de ele e ela ou de eles ou de elas se retiram para a cozinha para pegar mais quitutes ou uma garrafa ou um pano para limpar o vinho da calça, camisa, vestido de alguém. A idéia é que pode rolar, pagar um peitinho, um decote, uma curva, músculos suados, bronzeado tropical.
Agora começa a trilha sonora. Uma daquelas faixas malucas do Miles na fase eletrônica com o trompete totalmente lisérgico. Eles vão para a cozinha - que ainda está na penumbra. Luz da rua entrando pela janela da cozinha, pode ser térreo, pode ser vigésimo andar. Agora o filme já não tem mais cara de filme alemão. Ou tem, eu é que acho que não.
Mas eles só se falam em alemão. Estão em Stuttgart, alguns são moderninhos de Berlim, outros são americanos, balineses e ou hondurenhos.
Podem ser havaianos.
Japoneses jamais, são muito caricatos numa situação assim.
Brasileiros também não. Iam logo partir pro vamovê.
Nem esquimós com aquele escroto beijinho de nariz.
Puro preconceito. Dane-se.
A cozinha. Abrem a geladeira. Corre um arrepio pela audiência, todo mundo pensa em Kim Basinger e Mickey Rourke naquela cena manjada da larica pós foda, cozinha apagada, verão em NYC, geladeira acesa, transa & diversão/transa & digestão. O arrepio e a tensão aumentam porque a câmera está dentro da geladeira com uma das pessoas olhando para cima, para baixo, para os lado, vai fechar e a outra pessoa o impede. Ambos estão com a cara praticamente dentro da geladeira. Eles não são feios, são jovens, tenros, puro hormônio. O som claustrofóbico de Miles atravessa nossas cabeças porque eles pensam o som claustrofóbico de Miles, ou nos passam essa magnânima sensação. Pegam um envelope irreconhecível, pode ser salmão defumado, pode ser queijo, pode ser jamón, pode ser mortadela.
Quando a geladeira bate e tudo escurece, o som acaba.
Voltam para a sala. Todos foram embora. As garrafas estão praticamente vazias, alguns copos cheios, outros pela metade. A câmera passa ao redor da mesa de centro para nos dar a idéia de que a idéia de ir embora foi involuntária e inexplicável. Volta o som de Miles. Começam a subir os créditos finais. Nessa hora percebo que a trilha poderia ter sido escrita por Arrigo Barnabé. Nesse caso e estética, a questão sensorial seria quase idêntica. Ou não, ou sei lá.
Acredite, esse assisti até o final.

A bicicletaria do velhinho

Virando o farol do correio à esquerda e seguindo em frente até a outra esquina havia uma bicicletaria que pegou fogo ontem à noite. Era de um velhinho gordinho de calças largas que abria a loja arrastando os chinelos, abaixando o toldo, colocando algumas bicicletas na calçada - todo dia de manhã. Eu o via nos dias em que me atrasava e chegava naquele ponto do trânsito um pouco depois das sete e meia.
Agora há um grande vazio de quinquilharias pretas incendiadas. A casa dele era no andar de cima, não sei se era casado, se morava sozinho. Lembro dele arrastando os chinelos com o sol à esquerda nascendo tímido nas manhãs de inverno e explodindo no verão com ares de salsa e merengue.
A bicicleta é uma instituição do oriente, de Jacarta a Pequim, de Hanoi a Hamamatsu. Eu tenho uma bicicleta. Nunca uso, mas é uma instituição. Deve ser como cafeteira em casa brasileira.
Hoje em dia as pessoas compram bicicletas nos home centers. As pequenas bicicletarias vão sumindo da paisagem. Floriculturas também. Tudo no Japão começa a fazer parte de uma grande rede de franquias européias, americanas e japonesas. Nada mais é do bairro, do amigo da esquina, do vizinho. Até mercados brasileiros fazem parte de grandes redes. Agora o mundo está ali naquela marca e os sabores e o papo de balcão e o pendura pro fim do mês dão lugar à massificação inodora.
Eu ainda me atrasarei de vez em quando, mas ele não vai mais estar lá abrindo a loja. O mundo vai ficando menor e a gente só se dá conta quando já não há mais retorno.

Blogs morrem

Olhando por aí,
acreditem,
blogs morrem.

Por aqui estamos tão vivos
que me denuncio no plural.

Mas que morrem,
poderosos e totais,
morrem.

Nos bastidores do blogger ponto com
tem um botão verdugo:

"EXCLUIR ESTE BLOG".

Ninguém clica
mas todos os abandonam
e se abandonam
e nos abandonam.

Voilá.

Ex é now

A presidente Dilma assumiu o governo há menos de uma semana e ainda falam do ex-presidente Lula.

Deu na Folha que ele almoçou arroz, feijão e pastel.

Por isso eu amo o Brasil e sua objetividade.

Haiku de kai ou Haikai de ku #1

"Batatinha quando nasce
tem destino certo
de virar purê
ou saco colorido
de porcaritos".

O haiku (ou haikai) tem uma métrica silábica chamada go-hiti-go, ou "cinco-sete-cinco", dando um total de 17 sílabas, formando uma frase poética de efeito sonoro e fonético confortável ao recitador e ao ouvinte, dando valor à concisão para a explanação do tema escolhido pelo poeta. Com relação à métrica e ritmo confortáveis, assim também são os sonetos alexandrinos no nosso idioma, por isso, acredito, seja fácil para nós entendermos qualéquié a desses poetas japoneses.
Vou escrever algumas bobagens. Vou trazer coisas sérias dos outros. As minhas bobagens não seguem métricas, rimas - ou seguem, às vezes. Na verdade são aleatórias e anárquicas.

Ao passar do tempo

Hoje fui na Tower Records e não era para estar lá. Eu só queria ver o tempo passar. Nanci e eu saímos para não mofarmos depois de dormirmos até bem depois do meio dia.

Fiquei cinco minutos encostado numa coluna no meio do corredor do shopping, mãos nas costas, pés cruzados no chão - vendo gente como eu que estava ali para ver as vitrines passarem enquanto o relógio sobrava no fim de semana prolongado. O tempo, as vitrine, pessoas e eu passando no mundo horizontal de um corredor de um shopping.

De lá subi para a Tower para ver discos e gente interessada em música. A estante de jazz continua diminuindo e cada vez mais em conta. A de blues tem menos de 50 títulos. Algo muito triste acontece no mundo das gravadoras e nós, como sempre, ficamos à margem e sem opção a não ser esperar que downloads nos salvem.

Comprei esse Miles ao vivo. É praticamente o mesmo time do álbum Kind of Blue, menos o pianista Winton Kelly. Dizem que Miles estava no auge. Não sei, Miles sempre esteve para mim. Enquanto ele soprou a corneta, a música toda esteve no auge. Deve ser mais ou menos como ter sido contemporâneo de Mozart ou Bach.

Também peguei esse do Son House.

Ainda na idéia do contemporâneo, todas as canções foram gravadas em 1965, ano que nasci. Isso me chamou atenção. Enquanto minha mãe se empanturrava de batata com maionese (totalmente caseira, ainda não havia Hellmann's), esse negão genial saía do delta do Mississippi para gravar em Nova York essas canções. A questão da batata com maionese é legendária. Ela dizia que foi basicamente isso a sua dieta na minha gestação, seu desejo por batata com maionese era diário. Isso pode explicar muitas coisas, principalmente meu acintoso vício em maionese.

Como esse disco e o do Miles estavam por menos de oito dólares, abracei a causa. Praticamente toda a coleção de Bill Evans está por esse preço. A ver, a ouvir.

Acabei de rolar a bolacha do Miles. É um momento anterior ao Kind of Blue e muito diferente na concepção e escolha de repertório, apesar do time ser o mesmo. Na primeira faixa (Ah-Leu-Cha) todo o naipe de metais ataca para aquecer os beiços. Ninguém faz isso na fase modal que viria. Mas está cool e é maravilhoso.

Agora Son House está lamentando a vida apenas com sua voz e o violão. Todo o universo passa por um solo de blues. Eu apenas fecho os olhos e queria estar lá. Fecho os olhos e queria tocar como ele. Fecho os olhos e abro a alma. É de falar putaquiupariu bem baixinho.

Ver o tempo passar, escutar blues, jazz, elogiar músicos que já morreram, escrever para quase ninguém ler. A felicidade pode ser um instante sem graça mesmo. Com muita batata e maionese caseira.

Feliz 2011 a todos.

Na posse da tia Di

Daqui pra lá: Manuel Santos (Pres. da Colombia), Hillary Clinton (Secr. de Estado EUA), Sebastian Piñera (Pres. do Chile) e Hugo Chávez (Pres. da Venezuela).

Qual é a piada que fez Hugo Chávez rir com cara de quem não entendeu porra nenhuma?

foto da Folha