Mundo cão

Morreu o ex vice, José Alencar. Meus sinceros sentimentos à família e amigos. Mas expor um corpo à visitação pública é um ato de terror e horror para saciar uma curiosidade mórbida e triste. Tinham que perder essa mania faraônica. Os faraós são coisa de muitos milênios, viraram pó, esparadrapo, trapo num aquário no Louvre. Deixem os mortos em paz. Imagina, pegar fila pra ver um morto. Eita mundo cão da porra.

Um copo de água/um homem dormindo/uma tragédia




Um copo d'água pode ser a visão do vazio se a transparência,

a falta do que ver, do que falar, do que sentir, forem um só vazio.

Mas tem o risco que separa de dentro dágua do de dentro do ar.

Um risco não conta, não preenche o vazio, não satisfaz o olhar.

Tem o ar que enche o copo quando some o risco ou quando o risco desce e fica lá embaixo grudado no fundo.

Tem o mundo, que se não fosse uma rima.


Um homem dormindo não conta vantagens e nem será atropelado se deitado.

A maioria das pessoas de uma cidade - qualquer - dormem ao mesmo tempo.

A minoria que está acordada depois dormirá ao mesmo tempo.

Nem todos voam no trapézio.

Mas todos que voam também dormem.


Uma tragédia jamais faminta, jamais subindo uma ladeira, jamais denotada à grega,

uma tragédia sem nome que mata e voam todos os Legos.

Uma tragédia pé ante pé porque uma tragédia é irmã da outra.

Fotos que eu gosto de bater


Tenryugawa cho

Boatos, que nada


Sim, tem um mercado brasileiro vendendo água mineral a preço extorsivo. É notícia da semana passada e ainda devem ter esse valor no papelzinho.

Quando me mandaram esse email e não me passaram a fonte, me pareceu que estavam vendendo água seis vezes mais cara lá em Tohoku, na região atingida. Por isso desmenti. Mas não, o preço não chega a tanto, é, no máximo, tres vezes superior, o que já é uma fdptagem.

É aqui mesmo em Hamamatsu, no bairro de Sanarudai. Como não vou pra lá há anos, não sabia nem que esse mercado ainda existia - deve ser o mesmo.

É por isso que eu não falo muita coisa de brasileiros aqui no Japão. Por que dá nisso. Todas vitórias são pessoais, nunca coletivas e as coletivas não são levadas a sério. Nem eu levo.

Enfim, toda história da água bandida está aqui.

Ainda bem que é sábado

Acordei depois do meio-dia pra ter dor de cabeça o dia todo. Por isso sou a favor dos analgésicos, seja um copo, um trago, uma pílula branca. O importante é eliminar a dor.

Se a Nanci deixasse, eu ia acordar bem depois do sol se pôr de novo. Daqueles finais de semana onde a gente se propõe a perdê-lo na horizontal, tendo outras experiências em dimensões que só o sono & sonhos proporcionam.

Mas fomos ao shopping ver o sol de sábado por dentro da caixa de concreto e embrulhos. E almoçar comidinhas de shopping. A bagaça tava lotada. É bom ver as gentes por aí batendo perna consumando a normalidade no dia-a-dia de novo.

Íamos comprar presentinhos para as sobrinhas que estão longe, na Europa. Só isso. Mas dos rituais que preservo, ir ao à loja de instrumentos Shimamura e à Tower Records, são sagrados. No Shimamura, quase saio com um cajón da Pearl, quase. To muito afim dessa batucada. Pedi um catálogo de instrumentos de percussão e encontrei um modelo muito mais barato. Ainda bem que pedi.

Aí fui na Tower. Enquanto isso a Nanci estava nos périplos que normalmente ela faz.

Achei esse Miles aí do lado. Escutei no fone de ouvido apenas a intro da primeira faixa, não tive dúvida, catei e fui pro caixa.
Pra quem conhece o Bitches Brew no estúdio, sabe o que esse disco representa. Foi lançado em fevereiro, pela Columbia.
Tem um box com cd, dvd e vinil comemorando os 40 anos do lançamento desse álbum.
Tem outro dos 50 anos do Kind of Blue.
Miles, amado Miles.
O time em algumas faixas é Miles (t), Corea (ep), Holland (b) e DeJohnette (d), 1969-Newport Festival.
Em outras + Jarret (o), Gary Bartz (as) e Airto Moreira (perc) em 1970, Isle of Wight.
Ainda bem que não passei o sábado dormindo.

Darizendubido

to tomando um remédio para a febre do feno e ele dá sono. é um saco.

não é bem nariz entupido, mas ele fica escorrendo o dia todo e esse remédio deve inibir as glândulas nasais, algo assim.

e tem os espirros pqp. quando começa uma session, são cinco, seis, numa sequência ruidosa e torturante. são tres ou quatro sessions por dia.
um espirro pode chegar até 160 km por hora. por isso, não segure espirro, podem voar partes do teu cérebro pelos ouvidos e não é bom que as pessoas saibam o que você está pensando.

geralmente fechamos os olhos quando espirramos. tem que ser assim, é um mecanismo de defesa do organismo. se não fecharmos os olhos, os globos oculares podem voar até dez metros da cara pois os sete buracos da cabeça estão relacionados entre si.

por isso se o espirro for travado nesses mesmos sete buracos da cara, o couro cabeludo pode soltar-se, como num desenho animado do Picapau. ou, dependendo da pessoa, expandir as unhas. o Zé do Caixão pode ser um caso de segurador de espirro enrustido.

a orgia dos pólens de ciprestes nas serras centrais do Japão continuam até o final de abril. até lá, devo dar mais uns 600 espirros. é muita coisa e é uma média razoável.

se pudéssemos aproveitar a energia proveniente de um espirro, daria para alimentar um IPad por duas horas, creio.

mas ele ficaria ensopado.

Fotos que eu gosto de bater


Minha mãe


Se ela estivesse viva, hoje faria 66 anos.
É ruim de dizer, mas é bom de lembrar.
Este é o primeiro ano que não ligarei para ela no seu aniversário. Ano passado já não liguei nas festas de final de ano, nem fiquei sabendo para onde ela iria no feriadão de carnaval.
Esta é a única foto que tenho escaneada da gente.
Talvez seja a única foto que eu vá publicar sempre que a homenagear.
É uma foto rara de um palhaço com sua mãe. Muito mais rara por ser de uma mãe com seu palhaço.
Estavamos felizes, vestidos de paz e rindo de tudo.
Ainda estou, por mim e por ela.
Não sei que dia, ano foi esse. Pode ter sido um ano novo ou um aniversário. Foi uma festa, tenho certeza. Não sei que paredes são essas, que lugar é esse. Só sei que sou eu e minha mãe.
Nunca mais e para sempre.

Boatos que não são boatos

Os 50 de Fukushima ainda estão lá no meio do lodo radioativo.

Erram notícias, eu também. Mas queria que eles não estivessem lá.

Herrar é umano.

Boatos são apenas boatos

É que chegaram nuns e-mails.

Tem um brasileiro vendendo água a preço extorsivo, seis vezes mais caro.
Não sei de nada, tampouco acredito que essa extorsão esteja acontecendo. Se chegar alguém com um preço desses, é denunciado. Depois da denúncia, não sei, pode ser que pague uma multa.
As notícias sobre os brasileiros são basicamente duas: os que estão sendo retirados paulatinamente pela Embaixada brasileira e os voluntários que estão levando caminhões de alimentos, roupas, mantas, cobertas e futons.
A Embaixada brasileira está trabalhando junto à Cruz Vermelha do Japão. E está com atendimento 24 horas.
Conta-se que um grupo de voluntários brasileiros não conseguiam localizar os patrícios nos abrigos pois os mesmos não tinham nomes ocidentais, apenas nomes japoneses.
Um deles teve a idéia de visitar os abrigos enrolado numa bandeira brasileira, deu certo. Vários brasileiros foram localizados e resgatados.

Há um grupo de operários suicidas trabalhando junto aos reatores.
Eu que trabalho com pianos tenho exame médico anual com um ônibus-ambulatório parado no estacionamento - raio-x, urina, vista, basicamente.
Agora imagine um cara que trabalha numa usina nuclear e todas as regras que regem tal local de trabalho.
E todo mundo que vai trabalhar num local desses sabe que o buraco é mais embaixo, que se por acaso o bicho pegar, ele mata e come.
Sim, japoneses são meio obcecados com o trabalho, a empresa, motivação. Mas não creio que seja até a morte.
No entanto, há notícias que contam de funcionários de grandes montadoras de automóveis que excedem a carga horária diária + horas extras e acabam morrendo de ataque cardíaco ou outros males causados por esse tipo de auto-abuso.
Nos dias posteriores ao grande tsunami, 50 operários mantiveram seus postos tentando controlar a temperatura dos reatores. O mundo viu que foi impossível e todos foram retirados do local.
Ficaram conhecidos como "Os 50 de Fukushima".

A radioatividade foi detectada na costa da California.
Sim e não. Até o começo de setembro, ou seja durante toda a primavera e verão, o vento sopra de oeste a leste, indo em direção ao mar. Depois do mar há terra e é os EUA, mas o Hawaii e não a California.
Parece óbvio que os resíduos sejam detectados no Hawaii. Mas a quantidade de radioatividade é irrisória.

Há a proibição de consumo de alimentos e isso denota uma catástrofe maior do que a mídia ou o governo apregoam.
O fato é que aquela região do Japão é agrícola. Há muitas indústrias, como em todo o território japonês, mas por lá a agricultura impera, por isso pedem para não comprar alimentos oriundos da região.
Mas deve ser em Tokyo, Yokohama e outros grandes centros. Aqui em Hamamatsu consumimos produtos locais, verduras, chás e arroz. Provavelmente, essa região e outras distantes de Fukushima irão suprir os mercados de Tokyo, além das importações.
E também é óbvio que proibam o consumo de vegetais próximos às usinas.

Verticalização do eixo da Terra e sumiço do Japão.
Dizem que o eixo da Terra deslocou-se entre 10 a 25 cm.
Para esquerda ou direita?
Quem brinca com Google Earth sabe das proporções planeta > continente > país > cidade > bairros > ruas > minha casa > uma pessoa na rua.
Se vermos o Japão pelo mesmo prisma, teremos uma surpresa: o Japão é pequeno, mas é grande. Tem quase a mesma área do estado de São Paulo, só que comprido. Pra afundar, teria que destruir uma cadeia de montanhas no interior chamada de Alpes Nipônicos. Ou afundar o Monte Fuji que tem 3765 metros.
Claro, se compararmos com a área do Brasil, o Japão é minúsculo.
Cabem 25 Japões dentro do Brasil.
Há um boato entre os brasileiros daqui que se o Monte Fuji entrar em erupção, essa ilha se divide em duas.
É mais fácil o Corinthians entrar de camisa verde em campo do que rachar Honshu.
Honshu é a maior e principal ilha do arquipélago.

O governo japonês não merece o povo que tem.
Essa não é boato não.

Organização é tudo

Funciona assim:

Catástrofe em Miyagi, Fukushima e Iwate.
As outras províncias já sabem o que fazer, cada uma já tem o que fazer, o que mandar, como ajudar.
Nessa de 2011, Shizuoka ficou de mandar futons e cobertores, se não me engano. Aproveitou e mandou 700 bicicletas usadas. E assim vai.
Claro que hospitais etc estão abertos a todos, mas certos objetos tidos como efêmeros, mas essenciais para o dia a dia de um desabrigado, são tratados assim.

Por isso a gasolina que estava racionada por lá, já vai voltar a distribuir normalmente.

Tudo, organização é tudo.

Perdigoto atômico

Estão encontrando radioatividade em toda parte próxima da usina nuclear de Fukushima. Me parece óbvio. Se fosse fuligem de carvão de churrasco, ninguém ia dizer um A.


Minha mãe tinha o costume de falar "e não disse um A" quando a pessoa se resignava ao silêncio. Nunca entendi direito esse A, mas entendia que a pessoa murchava. Do alfabeto todo, de todas as infinitas combinações, nem o A rolou. É um silêncio atroz mesmo.

No caso de não dizer um A quanto a um suposto churrasco é que churrasco gera farra, cervejada, alegria. Essas coisas nucleares não. A única coisa boa que uma explosão atômica gerou foi o nome biquini por causa do atol de Bikini.

Acharam radioatividade em lote de vagem que foi a Taiwan, espinafre, leite e água de torneira. Explicam que a vagem, mesmo vindo do sul, fez escala no aeroporto de Narita, perto de Tokyo.

Mas é um nível tão baixo que cerca o normal. Se nada disso tivesse acontecido, não estariam medindo essas coisas. Mas se medissem, ia dar o mesmo tanto.

Pelo que a mídia publica, parece que o pessoal está chupando candy de urânio e tomando sopa de plutônio. Nem a pau. Mesmo que 6 e 9 de agosto não sejam feriados, respectivamente a destruição total de Hiroshima e Nagasaki, são lembrados todos os anos, o dia todo, como uma cicatriz que já fechou, mas que é importante mostrar para não tomar outra facada.

Vagem. Mas que vagem poderosa é essa que o Japão exporta? O Japão é um importador de tudo. Pense em qualquer coisa, o Japão importa.
Se for essa onda de produtos orgânicos, já era, perdeu a graça e a pureza.
É melhor o chinês comprar a vagem com adubos do sítio do Lao do que se arriscar a ingerir uma vagem fluorescente.

Quebrar a perna tem como consequência tirar um raio-x do local. Pense a respeito. Pense em Fukushima antes de quebrar a perna. A diferença entre o raio-x e uma bomba atômica é do perdigoto para o tsunami. Ambos molham. Um tsunami é uma casualidade, um acidente com baixíssimas possibilidades de acontecer mais de uma vez na vida de alguém. Mas quando aconteceu, baubau. O perdigoto não, se dimensionarmos seu poder de ataque, é um nadica. Na verdade, titica. Ele pode vir da conversa ao lado. Pior, de um papo amigo. Papo amigo o scambau, papo inimigo. Perdigoto é sempre fim de papo.

Penúltimas considerações


Moradias provisórias começam a ser montadas em Iwate ken. Isso significa privacidade, uma das coisas que todo mundo precisa, uma família, um casal, um indivíduo.
Isso também significa que começou a reconstrução.
Tijolo por tijolo num desenho mágico.

O estresse causado pelo fato de estarem a mais de uma semana em abrigos - leia-se quadras poliesportivas, arenas de espetáculos, templos - prejudica a saúde física, mental e emocional, elemento básico em qualquer momento como esse que estão passando e vivendo.
A esperança de encontrar sobreviventes diminui a cada dia. Mas a cada dia encontra-se um aqui, outro acolá.

Até que caia o último uruguayo, a Cisplatina não se renderá. eu li isso num livro do Eduardo Galeano, um jornalista uruguayo que admiro muito. Os voluntários, grupos de resgate estrangeiros, os bombeiros, todos pensam assim, até que se encontre o último sobrevivente.
Tem também o fato de que a minha prima está lá visitando o pai. Viva la Celeste!

A partir do counter de visitas, percebi que tive um aumento diário de 200% de visitas. Não é pouco não.

Agradeço a todos por terem me acompanhado nessa semana de várias emoções, penúltimas considerações, abruptas situações e principalmente, medo, muito medo.

Agradeço a todos que aqui estiveram pela primeira vez e todos que sempre me leem.

Mas sinto dizer que aous poucos deixo de falar da região de Tohoku para que ela possa se reerguer em paz. E aos poucos vou continuar falando de lá.
São penúltimas porque as últimas são muito triste, sempre.
Penúltimas porque o espetáculo não terminou, nem o blog e nem meu humor.
Por enquanto é só. Valeu!

EOEO!


Homenagem do TIMÃO ao Japão na vitória de 1 x 0 contra o Americana no Pacaembu.
Ali está escrito em katakana:
"Força Japão"
É nóis.

Domingão de sol morno 20 3 11

Como venho cantando e me encantado há alguns dias, parece que os ares da normalidade vieram pra ficar aqui em Hamamatsu. Dá pra sentir que as pessoas estão mais leves, menos tensas, até porque os técnicos estão resolvendo as questões radioativas em Fukushima.

Por isso eu digo: molecada, além de lerem muito, decorem a tabela periódica, um dia será útil. Mais que uma equação do 2o. grau, garanto.

Um paradoxo. E o mundo os tem aos montes. Enquanto celebra-se a paz nas filas de qualquer coisa, água, combustível, comida ou dar um telefonema dos desabrigados na tragédia japonesa e louva-se a civilização e a humanidade por tal comportamento, os Aliados atacam Kadafi, mais especificamente, a Líbia.

E com o jargão que eles adoram: danos colaterais, ou seja, morte de civis inocentes que não fizeram nada, apenas nasceram ali. Ou plantaram um quartel do lado da aldeia do infeliz.

Outro paradoxo. Hoje teclei com a Ritita, estudamos na mesma época no São Bento de São Paulo. Fofocamos sobre tudo e todos. Aí falamos do Lula, não do ex-presidente, mas de um amigo em comum. Eu o apelidei - sem ele jamais saber - de O Paradoxo de Santana, que era o bairro que ele morava.

Ele se chama Lula Maluf, por isso o paradoxo.

E numa reunião recente dos remanescentes, ele perguntou por mim.

- Estou bem, mano Lula, e você?

Além de citar o paradoxo macrocosmo muito macro da geopolitica da margem sul do Mediterrâneo, tem o macro micro aqui do bairro mesmo.

Ontem fui num lava-rápido botar a cor original do carro de volta. Depois, tem umas vagas para estacionar, o posto fornece as toalhas, o lavador de tapetes, o aspirador de pó e o próprio cliente cuida do seu coche. Quando cheguei, dois brasileiros ocupavam a vaga central enxugando um carro e as duas laterais com seus tapetes, as portas escancaradas e uma música muito ruim do centro-oeste brasileiro tocando alto. Como eu tenho a cara japa, me disfarcei de japa, nessas horas escondo a vergonha pelos patrícios de Pindorama.

Estacionei duas vagas à esquerda e na hora que saí para tirar a água, escutei é bom ficar longe mesmo. Bueno, pelo menos meu disfarce funcionou bem.

Enquanto eu enterrava meu bom mocismo entre as pernas, chegou uma van enorme com um japa com cara de buldogue, ele só apontou a frente do carro na vaga com os tapetes dos caubóis e ficou olhando. Parei pra ver. Um deles olhou torto, viu a cara gorda do japa e foi tirando os tapetinhos. Quieto, baixou o som, também com o rabo entre as pernas. Eu abanei o meu, yeah.

O japa botou a carangona preta ali. Cara ruim, feio de doer, mas salvou meu dia. Depois a criançada desceu pela porta de trás.
Enquanto louvam o exemplo de civilização dos japoneses pelo mundo afora, aqui, dois palermas mostram nossa cultura tupinambá-novo-rico-neandertal.

Millôr diz na Bíblia do Caos que brasileiro tem vergonha de brasileiro no estrangeiro. Eu tenho.
Há anos, um cara me mandou tománocu no trânsito. Eu respondi vaiocê. Lá na frente, ele parou no meu lado e disse desculpe, pensei que era japa.
É fodis, mermão.

Tem um velhinho japa que costuma dizer que eu sou diferente de outros brasileiros e acha que estou tomando suas palavras como elogio. Que nada. Dá vontade de não ser tão diferente assim ouvindo isso de um estrangeiro e lhe causar certos danos colaterais.

É diferente lidar com auto-crítica e a mesma crítica vindo de outrem. Eu posso achar minha mulher lindíssima, mas ninguém precisa ficar falando isso pra mim.
Velho mané racista. Um dia eu falo pra ele o que eu acho de japones fazendo barulho chupando sopa.

As coisas voltaram ao normal mesmo. Ando reclamando de coisicas titicas de nada.
Olha as cenas no mercado Big Fuji. Balcões lotado de frutas e verduras (lá em cima), normalíssimo. Mas nada de papel higiênico (ao lado).
Qual o significado disso?




Uma semana

Há uma semana atrás eu era uma outra pessoa. O fato de ver o apocalipse tão próximo e ainda fresco e dinâmico te faz mudar muito por dentro. Não virei santo, benevolente e bendito de ilibado caráter. Nada disso. Meu cinismo e ranzinzisse sobrevivem a quaisquer catástrofes. Outros defeitos maiores e menores também. Não é uma questão de caráter. Não sei o que é.

Sei que o medo virou uma sombra, um eco. Faz de tudo para preencher o silêncio, o barulho, o olhar. O medo está vinculado aos cinco sentidos, ao que rodeia. As preocupações passam pelo filtro de não ter um possível amanhã.

Em contrapartida, durmo normalmente como dormia antes dessa semana. Deito onze, onze e meia, acordo às quatro da matina, leio um livro por uma hora e durmo das cinco às seis, como faço há anos. Isso também não mudou.

Terminei de ler "Jimmy - o menino mais esperto do mundo", de MR. F. C. Ware. É uma história em quadrinhos maravilhosa. Plasticamente maravilhosa. O roteiro é meio complicado, mas melhor assim, nunca vou cansar de reler para ir descomplicando a cada vez.
Recomendo, é da Quadrinhos na Cia.

Quando saio de casa, acelero e encaro o sol no peito, na lente escura dos óculos, penso em todos os 120 milhões de japoneses que estão fazendo algo parecido nessa manhã e que todos estão com os pensamentos voltados para o mesmo lugar do mundo. E todos estão num stand by das emoções e trancados em seus mundos, em suas cabeças. Mas parece que todo mundo pensa igual numa espécie de estado de choque generalizado.

Essa semana passou como se fosse um único longo dia. O aperto no peito foi igual em todos os dias, os otimistas e pessimistas, tudo igual.
É perene, flutua sobre nossas almas sem tocá-las até que se inspire profundamente a tristeza, hoje fiel irmã e parceira.

O ágora e suas mentirinhas estratégicas

O desencontro de informações entre a realidade e o que o governo diz é comum a todas ágoras.

Os gregos sabiam disso e experimentaram todas as fórmulas possíveis. A democracia ainda impera como ideal e nela acredito como se fosse o paraíso na Terra.

A possibilidade de frescor no inferno.

O governo japonês procura dar-se o máximo. A tragédia é um fato e como eu disse antes, se há uma desgraça total, essa em Tohoku e na usina de Fukushima é a desgraça total plantando bananeira num barril de merda, agora radioativa.

O pânico e fuga em massa em Tokyo é triste e desolador, mas é o que eu faria. Quem pode, se vira.

Eu também acredito que o círculo de segurança de 20 ou 30 km ao redor da usina seja pouco e seja uma proteção tão boa quanto uma peneira sem rede. O fato é que a usina já tinha 40 anos de uso, ia vencer e prorrogaram para mais dez anos sua vida útil.

A grana, o poder, a roupa mais vistosa são os grandes atrativos na ágora.


Mas quem tem grana, poder e roupa vistosa num lugar sem cidade, numa cidade sem lugar, num pesadelo generalizado de milhões de pessoas convivendo, morando, dormindo com estranhos em quadras poliesportivas?

Dizem que tem a cólera e a tifo virando a esquina de Tohoku. No, please.

O foda é limpar aquela lambança de tudo e nada. Construir é rápido. Eles levantam um prédio de apartamentos em 3 meses.

Aqui em Hamamatsu menos medo. Cada japonês sabe que faz parte de uma engrenagem e tem que girar. Metade do país não está girando, é preciso que a outra metade seja eficiente e constante para reconstruir. Por isso estamos trabalhando e fazendo nossas partes, por nós, pela família, pelas contas e por eles, agora.

Simulações são discutidas e pelo que vi num mapa ontem (no smartphone do Nagashima) - e não o achei na internet - o meu bairro está salvo por causa da distância com o mar. E eu que queria um daqueles apês em Enshu, onde basta atravessar a rua e lá está a praia. Saravá, Rainha do Mar, deuzolivre.

Hoje o dia promete, é sexta-feira e não tem carnaval. Mas tem aqui dentro, sempre.

BB, Bado e Bruno

O Bado eu conheço desde o século passado. E se possível for, antes.
O Bruno, nunca vi - o que não diminui sua sutil presença nesse momento.
Ambos nunca se viram.
O Bado e eu montamos a melhor e mais desconhecida banda de rock alternativo de todos os tempos, o Miguel e seus Ex.
O Bruno é leitor do Corsários e sempre deixa seus comentários e dicas.

Mas assim como eu fiz com o Laerte num momento catastrófico da vida dele, eles mandam emails com as mais diversas coisas, fotos, links, piadas.

Um paliativo que vale ouro. E me faz sentir querido.

Obrigado B & B.

Nivel de radiação nas províncias japonesas


Clique na imagem para ampliar
Não entendo patavinas.
Compreendo que, matematicamente, qualquer número com vários zeros na frente é irrisório.
Então Shizuoka (22) tá bem na fila.
Mas alguém pode explicar a todos nós o que é bom ou ruim?


Boas perspectivas



Uma coisa que aprendi nesses anos todos no exterior longe de familiares e amigos é que todos nós nos adaptamos facilmente às situações inusitadas.

Por isso, apesar de saber que Fukushima e Chernobil são farinha do mesmo saco de plutônio ou que os Tokyo no hito (Toquianos) estão saindo de suas casas para bem longe do Imperador, parece que a vida está voltando ao normal.

Me preocupo mesmo quando acordo de manhã e não tem barulho. Dá vontade de ir na janela e gritar com a natureza:

- É primavera, porra!

Hoje os corvos estão no volume máximo e o sol, bem, o sol é um bem de todos e ele tá lindão.

quarta feira de neve

O dia a dia segue seu rumo. Basta que se viva assim para que o dia passe. O trabalho é a melhor coisa nessas horas.
Passo o dia pensando no que vou escrever para vocês. Passo o dia pensando em vocês.

Apreensivos ao menor ruído, damos saltos e grudamos as quatro patas no teto feito o gato Tom diante das sacanagens de Jerry.
Foi o Takashi que derrubou uma tábua que sustentava a tampa de um piano de cauda e fez um barulhão. Suzuki san e eu olhamos assustados e de lá ele disse, calma, foi a tábua, não é terremoto não.

Hoje ventou muito na direção certa, de oeste a leste, empurrando a radiação para o mar. Na verdade, sacanagem com os peixes que nós vamos consumir, afinal.

Frio de rachar em março. Tem essa. Lá em Tohoku - a região afetada - ainda está nevando muito. Hoje nevou em Hamamatsu um farelinho de inverno sem que deixasse um manto ou rastro. Apenas os vidros do carro ficaram sujos por causa da poeira do vento. Mas em março já era pra estar fresco com os ares de primavera, as cerejeiras em flor e os arrozais sendo preparados para o plantio. Remexer a terra é importante, mas não com tanta violência.

A única coisa que realmente sei das leis do xintoísmo - se é que há dogmas - é que não se cavoca a terra fincando a pá como se a agredisse. A pá deve entrar de forma rente na superfície, suavemente.

Hoje cheguei em casa e a Nanci havia acendido incensos.

Não estou pensando constantemente em morte, Galeguito. Minha morbidez é um repertório solícito de piadas de humor duvidoso e constragedor, se quando. Mas não nego que penso na morte virando a esquina. Quando restam esquinas.

O Galeguito disse que eu sou um patrimônio da vida dele. Idem ibidem, mano.

Ontem comprei mais um pacotaço de papel higiênico, um dos últimos da estante da rede Create de farmácias. As pessoas estão preocupadas com a higiene pessoal. Eu também. Bumbum bom é bumbum limpo.

Mais um reator da usina de Fukushima foi pro cacau. Tenho contraparentes em Tokyo, estou precupados com os simpáticos e amigos Watanabe, um casal de velhinhos cheios de vida e história pra contar. São os pais do Takeo, meu concunhado. Queria que eles fosse para bem longe de lá.

Pode começar um rodízio de blecaute aqui em Hamamatsu e região. A usina de Hamaoka - a mais próxima e a que alimenta a nossa região - está trabalhando em stand by, sem sobrecarregar-se. Ontem teve uma reunião entre o prefeito de Omaezaki e os técnicos e diretores da tal usina. Disseram que tudo bem, que nada será com foi lá em Fukushima.


Tomara.


Por conta de tal blecaute, espero que seja à tarde, estarei em Iwata, trabalhando e vai dar para escrever e contar as novidades.

Tomara.

contador geiger

tenho mais medo de radiação

do que de morrer.

morrer não dói.

dor é um saco.

Terremoto - 15 3 11

São 22:46.
Houve um terremoto às 22:31 na parte norte de Shizuoka. Eu moro no sul. São 120 km de lá pra cá.
Magnitude 6. Aqui tremeu 3. Entre o epicentro e minha casa há uma usina nuclear.

Vou dormir o pouco sono que resta. Tentar dormir.

Nerds, caretas e afins

é bom saber que os nerds tiraram as melhores notas nas matérias que a gente odiava e agora cuidam das usinas nucleares.

Tá certo que duas explodiram, mas dadas as circunstâncias, pelo menos não virou aquele cogumelo do atol de Bikini.

Agora me sinto na obrigação de postar diariamente para que as pessoas saibam que pelo menos estou vivo.
Farei o prometido, nem que seja uma foto de um bolo de chocolate.

Não há mais água mineral. A rede de drugstore Kyorindo (conhecida como a farmácia verde-amarelo) recolheu todas das prateleiras para mandar para as regiões afetadas.

No Japão eu bebo água da torneira. Só no dia do terremoto é que a água ficou marrom meio beje, pois é água de cisterna.

Começou uma onda de propagandas educativas na tv dizendo para as pessoas se cumprimentarem, pegarem na mão das crianças, darem risada, darem lugar no metrô aos idosos e grávidas, coisas assim. Será que é para esquentar o coração do frio e cauculista japonês da gema?

O medo

A usina de Fukushima explodiu de novo. Foi o assunto do dia. Até que o mundo terminasse em água ou houvesse a possibilidade de todos sermos engolidos pelo mar como foi parte de Sendai, o medo primal era apenas o terremoto.

Há um nihon no kotoaza (provérbio japones) que diz que temos que temer, pela ordem:



dishin 地震, kaminari 雷, kaji 火災, oyaji 父

Ou seja, terremoto, trovão, incêndio e o pai.

Mas o medo multiplicou-se a partir da terra tremendo. Olho para todos os lados e só vejo inimigos. O que era belo e natural, é um deus irado pronto para matar minha família, meus amigos, meus inimigos e a maioria de desconhecidos, tão indefesos quanto eu.

Estou em casa e olho para a frente a partir da porta de entrada. Lá longe, a 13 km, está o mar. Venho acreditando que ele nos odeia muito. Não sou surfista, mergulhador, pescador, marinheiro ou vendedor de protetor solar, sou apenas um sonhador e quero viver. O mar desconhece as minhas razões e de todos os outros que moram entre eu e ele.

Olho para a minha esquerda e está o Rio Tenryu que abre as portas para o mar invasor. O conluio das águas. Iara, Iemanjá, Namor e Netuno numa orgia que arrasta o mundo dos homens como um chimpanzé com uma metralhadora numa loja de cristais.

O mundo dos homens - o meu o seu o dele e nosso - não nos pertence mais. Pertence aos deuses e eles estão putos.

Na outra margem do Tenryu está Iwata e mais adiante, a 40 km, a usina nuclear de Hamaoka.
Muitos brasileiros compraram casas por lá. O preço é muito barato justamente por causa da usina. O barato sai caro, mermão.

Olho para a direita e vejo Hamamatsu, daqui até o centro e depois até o outro extremo, uma cidade inteira que pode deixar de existir se uma combinação hedionda de fatores acontecerem. São quase 800 mil pessoas que vivem a inédita expectativa de verem o mundo acabar. Todos querem um naco de algo como um extra power para sobreviver, como num game ultra realista e absolutamente desagradável.

Às minhas costas, no norte, estão as montanhas de Tenryu com seus milhões de ciprestes pendurados esperando desabar e como diz a Nanci, se já não bastasse tudo isso, ainda tem o kafunsho (febre do feno) que nesta primavera está 6x acima da média.

Finalmente olho para cima e quero rezar. Mas pode vir uma nuvem radioativa e me cobrir com seu manto de morte até que eu mesmo exploda por dentro.

Para baixo não olho mais. O termo "perdi o chão" é uma constante. E é insuportável.

Cruzo as pessoas nas ruas, nos carros, no trabalho e vejo a mesma angústia em todos. Todos sabem que a vida é um detalhe, um sofisticado sistema de hormônios, órgãos, emoções e tudo mais que não explicamos que pode virar passado. É triste viver assim. É hediondo. É como estar em clima de guerra sem um inimigo próximo. É como se um anjo anêmico carregasse uma bigorna amarrada com barbantes sobre a sua cabeça.

O inimigo é o próprio mundo.

O medo não tem escalas e nem palavras que sejam vãs e que possam ir além do seu significado simples e compacto em parcas quatro letras, mas que nessa altura dos acontecimentos, são inúmeras, incontáveis, detestáveis.

Não há nada pior do que a espera, qualquer uma. A distância entre um homem e a solidão pode ser uma porta fechada. Mas hoje em dia, pode ser o fim de tudo.

Fotos que eu gosto de bater - das notícias na tv










Voluntários em busca de sobreviventes.







O exército tomando as rédeas.














Ela está procurando a filha que não voltou da escola.









Sobreviventes observam onde havia uma cidade.





Ela está indo ver se dá para pegar alguma coisa em casa.
























Mãe e filho brincam na porta do abrigo.








Tiazinha na fila da telefonia móvel para falar com o marido em Tokyo.






O nome dele é Ishikawa e ele foi arrastado por uma daquelas ondas de tsunami.












As provisões chegando.












Sobreviventes num abrigo.












Água na cisterna da praça.









Crianças aprendem a pegar água num riacho.


Reencontro: mãe e filha.

Todas as emissoras de tv aberta estão transmitindo notícias 24 horas sobre o terremoto.
No noticiário de tv das sete da noite as notícias desviam-se um pouco da perigosa radioatividade perene da usina de Fukushima e transmitem tranquilidade e esperança aos espectadores. Foram abertos poços artesianos, centrais de telefonia, locais e murais de aviso e busca de desaparecidos.
Para mostrar que a normalidade chegou pra ficar, ao direcionar para as notícias daqui de Shizuoka ken, fizeram uma longa matéria sobre o novo urso polar do zoológico de Hamamatsu com entrevistas das crianças que estavam ali para recepcioná-lo no seu debut como atração.

Muitos idiotas estão dizendo que o país não estava preparado. Mas qual país estaria? Nem mesmo o mais pessimista dos governos se prepararia para algo dessa envergadura. Nem mesmo um estado de alerta total e eminência de guerra nuclear com invasão de Godzillas e Klingons enfurecidos causaria tamanha prontidão. São realmente uns idiotas com ligeiro pendor a um sebastianismo claudicante de odor de fraldas usadas. São os anônimos que fazem questão de dar entrevista para os seus quinze minutos de fama.
Vai haver um racionamento nacional de combustível. As pessoas estão estocando comida em casa aqui em Hamamatsu. Já está faltando comida nos mercados de Tokyo. Mas nada que não se resolva em alguns dias. Eu conheço a eficiência japonesa. Comida, água, claro que não pode faltar. Podemos racionar. Mas isso não precisa vir acompanhado de uma nuvem radioativa.

Telegramas do olho do furacão

Coisa gente atenção vidro de Chanel #5 vidro de janela lateral do quarto de dormir que submergiu asa de gaivota de aeromodelismo vaso sanitário aparelho estéreo frio de rachar côco.

Coisa grande pequena infeliz fofa pedra de afiar saco de lixo cutícula olho de vidro cd do Otto granito pênis vibrador boca da noite silêncio grito no escuro SOS: 3 pontos 3 traços 3 pontos.

Budismo pimenta em mim templo xintoísta algodão mesa culhões chaveiros casa segurança apito de parar trem dodeskaden godzilla pão de açúcar ultraman batom carro aço meu bem meu bem.

Morte cenáculo Iwate Miyagi Fukushima Deus Nagô santo protetor louvai por si e por sim e porque não por vovô e vovó e netinho e netinha e ninguém que não seja que não veja enfim.

Comer merda e desejar querer comer merda porque só há o inferno e o céu como cobertor na canção da saudosa maloca do trem das onze que não passa mais não vai nem vem não fui.

Chique mil celulares mesmo toque avisando vai vir virá veio água muita água explosiva invasiva subcutânea supraalma supersoul simca chambord peter paul and mary pray porque não sei.

Mãe cadê mãe filha cadê filha gato cadê gato voz cadê voz médico cadê médico pai cadê filho neto cadê tio vida cadê nome sonho cadê linha pedra cadê poeta pira cadê fogo pira achei loucura.

... ---... atômica eu só quero ler um livro em paz nunca mais vou saber a diferença entre nunez e fender e shimada porque somos todos iguais no fundo é tudo igual a tudo a sós e assim seja, amém.

The day after - 12 3 11



Goto san, Khanh e eu no botafora.
I
Às vezes a nossa latinidade reclama do sangue frio do japonês. Mas bicho, o cara é samurai, zazen, xintoísta, a gente é driblador, capoeirista, Cartola, Garrincha e Villa Lobos. A gente sofre o que nunca aconteceu, a gente ama o inatingível.
Um bom japonês não olha para os lados. Não que ele não perceba que algo está acontecendo, mas ele sabe e só quer olhar para frente porque na sua vida, no seu aprendizado e adequação a essa vida - crescimento? - a paisagem pode atrapalhar o objetivo e geralmente ele está lá na frente, o objetivo e o japonês.
Millôr Fernandes diz que para certas pessoas seria necessário a invenção do ponto de ironia, assim como o de exclamação e interrogação. O mestre não erra.
A nossa ironia começa com o nosso próprio idioma que dá margem a segundas e terceiras interpretações e intenções. O japonês, por uso do kanji e da fórmula de manuseio dos ideogramas dentro do dia-a-dia, não faz nem da idéia da ironia como padrão de comunicação, pura e simples.
Não existe uma palavra em japonês que traduza tal condição de linguagem ou humor.

II
Por isso, eu sei, ao ver-se estampado na cidade que foi desgraçada pelo mesmo mar que remonta a sushi e é o símbolo de autenticação e identidade do país, o japonês vai arregaçar as mangas, reconstruir a cidade, a sala, o quarto, a cozinha, o país, as ruas, os parquinhos e pracinhas e fazer um memorial por esse dia em que tudo mudou e continuar comendo sushi sem ironia, mas com shoyu.
Assim fica muito claro a mim essa objetividade e discernimento ao ligar a tv e ver os resgates acontecendo por helicópteros, ambulâncias, voluntários, tratores, sopões, onigiris e missoshiros.

III
Hoje vi a cena do cachorro que estava ilhado no telhado de uma daquelas casas que foram arrastadas. E vi o velhinho voluntário civil com uma escavadeira recolhendo o animal e o entregando à dona cuja casa misturou-se às outras sem pudor nem identidade naquela lambança de tudo ao mesmo tempo agora nessa sopa de mar, terra, tudo e nada, o caos; mas cuja esperança renovou-se quando o animal pulou no seu colo e a lambia na cara exasperadamente. E se alguém diz que cachorro não sorri, é mentira.
Se eu tivesse rabo e o abanasse naquela força e velocidade, eu voaria. Cachorros não voam porque não tem muita imaginação.

IV
Os planos de reconstrução, parece, já estavam prontos. Havia a idéia da desgraça parcial, desgraça quase parcial, desgraça quase total, desgraça total e desgraça plantando bananeira dentro de um barril de merda. Em alguns lugares, passou-se dessa condição e homens com cara muito séria aparecem nos balcões dos âncoras dos noticiários das tvs dando opiniões e palpites para começar a fazer qualquer coisa, nem que seja salvar um cachorro.
Eles, os homens sérios, esperaram a poeira baixar, as lágrimas secarem e já arregaçaram as mangas.

V
Tem a usina nuclear de Fukushima que está vazando muito material radioativo. À tarde vi um especialista de Tokyo dando um pitaco. No começo da noite era um professor de física de Osaka. Agora, onze quase meia-noite, os dois juntos mostrando o que aconteceu e o que pode ser feito para virar o barril.

Mil informações sobre os riscos, a aproximação. Nada passa batido.


VI
Hoje foi o botafora do Khanh. Ele vai voltar para o Vietnã e nunca mais nos veremos. Levei todo mundo no Choupana, um rodízio de carnes. Vibraram.
O Suzuki san foi quem me avisou que estava acontecendo um terremoto. E foi ele que disse essa frase na porta do restaurante, que deu nessa crônica:

- Primeiro a gente come, depois se prepara pro próximo terremoto. Então vamos comer bem.

11 3 11 - o dia do terremoto


Eu estava trabalhando com a cara enfiada dentro daquele piano deitado no centro da foto quando o Suzuki san disse:

- Olha! É terremoto! - numa tradução muito livre.

Quando olhei pra cima e vi todas aquelas lâmpadas fluorescentes balançando percebi que o chão tremia e que uma ligeira sensação de náusea e desconforto ia se instalando de acordo com a continuidade dos tremores. Era um shake magnitude 3.

Lá em Sendai, Miyagi, foi 8.8 - o pior terremoto da história do Japão.

Sendai está a mais de 600 km daqui. Ao ver o poder de destruição das águas invadindo as cidades, todas as piadas que fizemos durante o tremor já não tinham mais graça. O nervosismo aliado ao terror e pânico nos fazem rir das próprias desgraças. Eu funciono assim. E foi um longo tremor. Não tenho uma idéia muito clara de quantos segundo, mas pareceu-me mais de um minuto. Ou várias rajadas de intensos e tensos segundos.

Uma das piadas dizia que era muito importante ter um potinho de pudim no bolso em caso de terremoto, pois quando acontecesse, a pessoa poderia abrir o pudim no chão que o terremoto ia distribuir a calda de caramelo por igual.

A mais importante das recomendações num caso desses é sair de locais fechados e ir para campos abertos, estacionamentos e pátios. A outra piada foi o fato de que saí para o lado errado. Não que haja um lado certo, mas todo mundo foi para a porta da direita e eu fui para a esquerda, do outro lado do prédio.

E fiquei sozinho olhando os postes balançando me perguntando porque ninguém saia. Depois dei a volta e encontrei todos, que riam de mim. Meu chefe perguntou se eu estava no wc.


Passei a noite em claro vendo as notícias e dizendo aos contatos no Brasil que estávamos bem. Horas e horas vendo efeitos especiais de filmes de catástrofes na tv. Efeitos especiais da desgraça da vida real. Todos assistiram nas tvs no mundo todo.

O fato do Japão ter câmeras em todos lugares, todos terem celulares equipados com vídeo e as tv serem famosas por seu grau de eficiência e precisão, são muitas emissoras ao mesmo tempo registrando tudo o que houve.

Nós vamos reconstruir esse país, todos os sobreviventes do norte e nós aqui do sul. O Japão não se dobrará. Todos que perderam tudo, mas não perderam as mãos e uma boa cabeça. Todos cujo coração pulsa. Todos que colaboram dando uma força através das palavras de incentivo e carinho, vocês, família e amigos.

Obrigado.

A Táta

A Táta é a minha tartaruga.
Tenho uma amiga, a Renata, que era Rê e virou Tata também, mas não uma tartaruga.
Pra mim, a Rê continua Rê.
Pois bem, a Táta acordou de uma hibernada desde outubro.
Todo ano ela pensa que é um urso. Mas ela é de Miami, cubana, milongueira e com as cores do Brasil.
Na Florida não têm ursos.
Benvinda à vida, Táta.
- Tomate cru,
to trabaiano
pra carvalho!

(xingo eco-vegan)

- Mas não sou
saporra não!

(muito mais natural)

Poesia "시" - Shi - de Lee Chang Dong (Coreia do Sul - 2010)


Poesia é a história de uma senhora que ao mesmo tempo em que descobre a poesia na vida e toda a beleza abstrata ao redor dela, descobre que está com o mal de Alzheimer, esquece as palavras e a realidade do dia-a-dia começa a lhe fugir das mãos e ruir sem controle.
A atriz Yoon Hee-jeong estava há 15 anos sem filmar. O roteiro premiado com o Cannes em 2010 foi escrito especialmente para ela pelo ex-ministro da cultura sul-coreano e diretor do filme, Lee Chang Dong.
Este filme passou na 34a. Mostra de Cinema de Sp, em 2010.
O legal é que também se diz shi (詩) para poesia, em japonês.

Kafunsho é o caralho

Pólen verde das montanhas de Tenryu
em todo céu e buraco de nariz de Hamamatsu, aqui.
Dor de cabeça cabeçuda de tanto espirrar e limpar o nariz.
Quero uma folga desse ar.
Quero um capacete do Perdidos no Espaço.

Kafunsho - febre do feno


Entre fevereiro e abril acontece a polinização dos cedros e ciprestes das montanhas centrais do Japão. Na foto ao lado, o que parece ser fumaça ou neblina, na verdade é pólen.
O cedro (sugui) é plantado ostensivamente para que sua madeira seja usada em construção civil. Durante a 2a. guerra mundial, devido aos bombardeios lançados pela marinha norte-americana, muitos bosques foram queimados, desde então, replantam cedros e ciprestes. O problema é que aliado à queda do setor de construção após a recente crise financeira mundial, existe o fato de que comprar madeira pré-cortada européia e canadense sai mais barato do que colher e manufaturá-la aqui. Ou seja, o que era para ser colhido, não foi. Tem o fato de que no ano passado o verão foi o mais quente das últimas décadas e prolongou-se até o final de setembro. Isso significa que a florzinha produziu mais pólen para ser lançado na primavera do ano seguinte - hoje.
Esse pólen irrita os olhos, a pele, o nariz e a garganta. Parece que há um bilhão de formigas sapateando no céu da boca. Espirra-se muito e o nariz parece uma cascata escorrendo. Colírio constante nos olhos e beber muita água ajudam a evitar o ressecamento e irritação da garganta.
Chama-se febre do feno, mas não rola febre. Pode-se até confundir com um resfriado comum, só que vai durar algumas semanas.
Até abril é esse inferno.