Max Roach, Abbey Lincoln- Freedom Day



Fui lá na Abbey Road Used and Rarities e achei essa maravilha do baterista Max Roach.

Botei no carro voltando pra casa. Tive que dar uma parada para ler o encarte.

Na hora pensei, caraca, o cara foi na onda do Return to Forever do Chick Corea na fase Flora Purim/Airto Moreira.

Que nada, as gravações de WE INSIST! são de agosto e setembro de 1960. O quarteto formado por Max Roach (bateria), Coleman Hawkins (sax tenor), Olatunji (percussão) e Abbey Lincoln (voz) anteviu o jazz fusion sem uma única nota emitida por guitarra ou quaisquer instrumentos elétricos.

Nessa, Miles não leva o troféu "eu inventei".

O interessante nessa loja é que sempre acho maravilhas assim por um preço equivalente a cinco refrigerantes.
Ele não são muito criteriosos quanto ao que terá excelente desconto ou não. Acho que escutam a primeira faixa e se baseiam nisso.

Catei um Buddy Guy e um Mississippi John Hurt, sodas, mas ainda não escutei nem bebi. Yeah.

Laerte




Às vezes não percebemos que estamos diante de um gênio contemporâneo.

Pra ser gênio não precisa descobrir isso e aquilo.

Pra ser gênio basta traduzir um mundo e deixar a gente atônito.

Tem que ser maior que a realidade e que o sonho e não fazer o menor esforço pra isso.

Dá-lhe, Laerte.

Livros discos vídeos à mancheia




Todos os livros estão à minha esquerda.
Na medida em que as coisas vão acontecendo, humores, canções, céu claro, qualquer coisa, os livros mudam de lugar.
Já tentei botar ordem no pardieiro - ou estante - mas é sempre papelada mutante-metamórfica porque tem alguns que tiro, passo os olhos, leio até a página 49 e voltam pra estante por desinteresse ou desbaratino - por displicência ou desleixo, nunca no mesmo lugar. Mas seria bom.
Uma ordem possível foi por autor. Isso me parece óbvio. Depois, por tamanho, os grandes nos cantos. Ok, dura uma semana, depois volta o caos.
O que facilitou a minha vida foi colocar os que nunca mais vou ler lá embaixo de tudo porque os aqui em cima são na altura dos olhos.
Me sinto um mequetrefe quando começo a empilhar livros horizontalmente em outros que estão dispostos verticalmente. Nesse meio horizontal começo a incluir envelopes disso e daquilo, holerites, álbuns de fotos e selos, cds, dvds, rolo de durex, revistas.
É impressionante como coisas empilhadas aleatorio-toscamente conseguem ficar imóveis, sem cair, por longos períodos de tempo.
Fisicamente falando, lixo é matéria fora de lugar.
Livro e papelada fora de lugar é auto-sacanagem.
Tem aquela crônica do Luiz Fernando Veríssimo onde ele conta que foi a um hotel e não tinha nem bíblia para ler. Nada. Foi ao banheiro e ficou lendo instruções de água quente.
Aqui no Japão, ao invés de bíblia, tem um livro budista bilingue, inglês/japonês.
Uma coisa chata que estava acontecendo com essas mudanças dos livros na estante era que a foto da Anne Frank estava me encarando há alguns dias. Isso estava me entristecendo e não sabia porque.
Troquei pela cara maravilhosa e esguia do Drummond.

Ora, bananas

Não vou forçar a barra. Se não to afim de escrever, não escrevo.
Sou capaz, também, de passar anos sem comer uma banana.
A banana talvez seja a fruta com o pior after taste de toda a feira.
Deve ser aquela massa meio cimentada que é a textura dela.
Pode ser o fato da casca ter a mesma cor da polpa, ou seja, a banana é um tédio do começo ao fim.
Se tem uma coisa que estraga uma tijela de aveia ou sucrilhos é uma banana dentro, cortada em fatias, amassada ou inteira.
Aliás, banana amassada é feia até pra Vik Muniz achar que pode fazer arte naquilo.
Aliás, Vik Muniz é arte naquilo?
Banana é tão detestável que em qualquer lugar do mundo, banana é banana. Em japonês, se diz bánana pra banana.
O gosto da banana fica grudada no céu da boca.
Dizem que a banana, rica em potássio, ajuda na prevenção da câimbra.
Ora, bananas, é simples: basta não praticar esportes. Sem esportes, sem dor, sem câimbras, sem bananas.
Aqui no Japão tem suco de banana e banana desidratada em saquinho pra comer como se fosse pipoca. Pelo menos é crocante.
Dizem que há uma praga incontrolável dizimando vários bananais pelo planeta como se fosse um ebola de bananas e é altamente contagioso entre elas.
Uma nanica pega da prata que pega da terra que pega da ouro.
Uma suruba de bananas.
Chega, esse papo ficou meio fruta. Nada contra, mas muito fálico.
Mais uma razão pra detestá-las.

Mas conta outra

Funcionários das agências BB no Japão estão (estavam?) em greve.
Era só que faltava. Poucos clientes, trabalham basicamente com agência cheia nos sábados e querem mais? Mais?
A maioria é antipopular porque nos tratam como se fôssemos algo.
Curso
de atendimento em Guantánamo, Cuba.

Algo é a tua avó, vagabundo. Vai trabalhar e não reclama.
E tem um lá que me odeia porque sou punk ou fedido ou feio ou bonito.
Sei lá.

Respire zazen

Penso que mando

no meu nariz, mas o ar


manda em todos nós.

(Haikai do Sobrevivente)

Grana japonesa

1 dolár, aproximadamente 80 yenes.

Uma lata de guaraná Antártica no Seven Eleven, 120 yenes.

Uma caixa de chá de jasmim, 300 yenes.

Um jogo de cordas Fender Regular, made in Mexico, 800 yenes.

Um cd de jazz anos 50 na promoção da Tower Records, 1000 yenes.

Um jogo de cordas Fender Regular, made in USA, 1.200 yenes.

Um cd usado de jazz, raro, na Abbey Road, 3.000 yenes.

Um violão Yamaha not made in Japan, 20.000 yenes.

Um notebook da Acer, 4 GB, 640 HDD, 100.000 yenes.

Um automóvel Wagon R da Suzuki, zero quilômetro, 1.200.000 yenes.

Um piano de cauda da Steinway & Sons, 20.000.000 yenes.

Assistência geral, habitações temporárias no nordeste do Japão, 483.000.000.000 yenes. Bilhões.

Eliminação de lixo e escombro, 352.000.000.000 yenes.

Recuperação de infraestrutura, 416.000.000.000 yenes.

Empréstimos relacionados ao desastre, 640.000.000.000 yenes.

Subsídios fiscais para os governos locais, 120.000.000.000 yenes.

Despesas diversas, 800.000.000.000 yenes.

Tudo isso dá um total de 4.000.000.000.000 yenes.

Trilhões, só pra começar a arrumar. Prejuízos causados pelo terremoto, tsunami, sem contar a queda de produção industrial e comercial local e o acidente na usina nuclear, 25.000.000.000.000 yenes.

25 trilhões, na bucha.

Fonte: Revista Alternativa

Zona de exclusão

Agora, entrou, toma multa de 100 mil yenes (1000 dólares, por aí) e pode até ser preso.

A zona de exclusão de 20 km ao redor da usina nuclear de Fukushima é assustadora.

Parece gueto, terra de zumbi, Distrito 9.

Moradores tentam pegar o que é possível, roupas, eletrodomésticos. Cães?

Depois de quinta-feira, aquilo vai ser terra de ninguém.

Clima de guerra em tempo de paz.

Blablabla da mídia local

A International Press é uma empresa de comunicação de blablabla. Não imprimem mais o jornal por falta de leitores por causa da internet e seus milhões de jornais gratuitos e diários. A única coisa interessante é que eles retransmitem a Globo, mas nem isso, porém, é lucrativo por causa do You Tube etc.
O site de notícias IPC Digital fica dias, semanas sem atualizar-se. Parece blog de secundarista de folhetim do Gilberto Braga.
Nesse site fizeram uma matéria sobre a radioatividade e seus efeitos. Embutido no blablabla, falam das virtudes do carvão blablabla que purifica a água.
Adivinha quem está vendendo esse blablabla online, sacos de 1 kg? Eles, claro.
E vendem como se fossem bons samaritanos. Ah, tá.

Fotos que eu gosto de bater

Rota 1, 18:05 hs - Hamamatsu

Japão 2011

Não sei quantos brasileiros foram embora,
não sei quantos ficaram.
Não sei se é possível sonhar.
Não sei física nuclear.


(trecho do texto abaixo)

Chernobil no quintal

Uma coisa é o que escrevem na mídia e outra é o que a gente vê. Eu li que aumentaram o alerta nuclear para o mesmo nível de Chernobil. E também li que até agora, um mês depois, a quantidade de material radioativo que vazou corresponde a apenas 10% daquela usina ucraniana, o que já é um petardo, então imaginem quanto foi por lá. É importante dizer que o governo isolou a área antes que a coisa piorasse, como se fosse possível.
Não compreendo muito bem qual será a razão matemática possível para nivelar uma coisa relativa - porém concreta - como a radioatividade. Pra mim, se são sete níveis possíveis, depois de cinco já é nível CQF (corre que fudeu). Três dias após o tsunami já decretaram nível seis, ou seja, quem correu, correu.
Um mês depois, fico pensando nas pessoas nos abrigos sem privacidade, sem banho, sem nada seu, nem mesmo o próprio interruptor na própria parede no próprio banheiro.
Nada mais privativo que o silêncio da solidão no vaso sanitário. Nem isso é permitido.
Nenhum pânico nas ruas por aqui. Se há alguém que tem que tirar esse país do buraco, somos nós. E haja paciência e resignação. Na verdade, é melhor manter a cabeça focada nas coisas simples do dia-a-dia do que aprender física nuclear para entender tabelas, projeções, patatis, átomos e patatás.
Não sei quantos brasileiros foram embora, não sei quantos ficaram. Não sei se é possível sonhar. Não sei física nuclear.
Dizem que quando acontece um terremoto por lá, as crianças brincam apostando entre si de quanto foi a magnitude e todas correm para a frente da tv (coletiva) para ver a transmissão do evento e conferem para ver quem acertou.
Eu tenho uma pandora de emoções dentro de mim: medo, esperança, felicidade, melancolia, indiferença. Só não quero ter solidão.

Mortadelas

Mortadela De manhã o Nagashima - meu chefe - veio me falar que sábado passado assistiu um documentário sobre os breakfasts no mundo e viajou na mortadela. Viu São Paulo na tv, um apartamento, uma família, mesa farta como se fosse um café da manhã num resort e um baita sandubão de mortadela. Eu expliquei que sim, pode ser, mas geralmente a coisa é mais fast, acordar, comer e voar porque o trânsito em São Paulo é aquilo. Em casa é só um cafezinho e o sólido fica pra chegada, próximo ao trabalho ou como acontecia no Banco Real, um café com leite e um pão francês esfarelando com a margarina distribuida como se fosse um mapa demográfico do Saara. É, eu fui bancário o tempo suficiente pra entender que eu nunca mais serei outro.
Mortadela dois A curiosidade dele com relação ao embutido durou o dia todo. Como todo ano a gente faz uma churrascada, ele pediu pra levar. Nunca vi churrasco com sanduba de mortadela. Agora estou na dúvida entre um café com leite ou uma tubaína.
Mortadela três Nos mercados brasileiros têm algumas marcas de mortadela, todas fabricadas aqui. São boas o suficiente para matar a saudade, ligeiramente. Mas falta-lhes a umidade e o cheiro penetrante que só acontece numa padaria no Brasil. Nem mesmo a pimenta preta convence. A cada mordida, a lembrança da Moóca, Pari, Brás e o sanduba do Mercadão com 300 gramas de Ceratti é torturante. Mas como eu disse, ligeiramente.
Mortadela quatro A mortadela e o churrasco, apesar da origem animal, são dois universos diferentes,tempo e espaço diferentes, situações e até mesmo gulas diferentes. Podem ser as mesmas pessoas, mas com certeza estarão vestidas de modo diferente. O humor também é outro. Será que alguém comeria sucrilhos no show do Ozzy? É a mesma relação.
Sim, comeria. Com Ozzy tudo é possível.

Falta de higiene

Bolsonaro, Bolsonaro.
O cara é só um babaca com mídia. Aí ele vira O babaca.
E os nossos do dia-a-dia, sem microfones ligados, mas prontos para dar o bote no bom senso, bom humor e paciência?
A vida é um Bolsonaro e depois outro.
Entre um e outro a gente faz tudo melhor e de melhor.

Escola da vida - II

E tem outra, ao invés de ensinar filosofia e sociologia nas coxas, é melhor ensinar POESIA & TEATRO e MUSICA.
Porque?
Você conhece alguém que gosta de poesia & teatro e música? Diz aí, é gente boa, não é?
E mais, tem uma pá de ator e músico desempregados que bastavam fazer um bom curso de metodologia e pedagogia pra pegar no batente.
Além do fato que poesia, teatro e música serem muito mais divertidos que sociologia e filosofia, que ensinados assim, fazem os pirralhos ficarem com raiva de intelectualismos inoperantes.
A arte abre a cabeça e o coração.

Escola da vida

Thiago Santos está na USP. Ele tem um pouco mais de vinte e muito menos de trinta. Está no seu auge. Ele é filho de um grande amigo, o Gil.
Thiago estudou praticamente a vida toda aqui no Japão, tanto em escola japonesa, como brasileira. O mérito de estar na USP cabe apenas a ele e seu esforço diante da dificuldade de reaprender a gramática da língua portuguesa sem perder o japonês, no qual ele é fluente, além da cultura e do mudus vivendi brasileiro, completamente diferentes em sua vida e adolescência no Japão.
Há alguns anos, ele voltou para cá para visitar os pais e rever amigos. Passou um verão aqui. Nessa época eu estava desempregado, estudando japonês e nos vimos algumas vezes. Assim como o pai, muito bom pra sentar e jogar conversa fora - o que há de melhor a fazer com amigos. Em uma dessas vezes, fomos à escola japonesa onde ele formou-se no ensino fundamental para pegar a cópia de um certificado relativo ao idioma japonês, o qual ele incluiria em seu currículo para poder dar aulas no Brasil.
Ao chegarmos no guichê da secretaria, pediram documentos e ele apresentou o passaporte. A mim, o funcionário perguntou porque eu também estava ali e disse que apenas o acompanhava. Depois fomos colocados numa sala de reuniões. Ficamos ali sentados por 15 minutos vendo as fotos nas paredes com o Thiago contando dos humores dos professores estampados. Pouco depois, nos trouxeram a cópia do documento que ele pedira. Fomos levados até a porta do prédio. Ao sairmos, Thiago ainda ficou me mostrando a escola pelo lado de fora, o campo de futebol, o pátio, os armários de materiais esportivos, lembrando das brincadeiras que aconteceram ali. Nesse momento, percebi que um funcionário, de longe, nos observava. Assim ficou até que saímos para a rua.
É simples. As coisas podem ser muito simples. Não mais que isso, apenas nos observou - mesmo sabendo quem éramos e com a cópia do passaporte do ex-aluno na mesa - um pequeno gesto de cuidado e zelo com a instituição de ensino e principalmente, com as crianças que estavam em aula.
Talvez, por seu histórico contemporâneo violento, o Brasil precise colocar alarmes, câmeras, detectores de metais e seguranças nas portas das escolas. Mas fica claro que um gesto, um ato, um olhar, fazem muita diferença. E não apenas entre os funcionários e ocasionais visitantes, mas de aluno para aluno, professor para aluno, professor para professor. Gente para gente. Aprender e ensinar na escola da vida.
Só isso.

Miyagi magnitude 7

A cada terremoto ficamos mais tristes por mortes ocasionais e pelo medo afligido.
A cada terremoto nosso medo traz abandono, solidão, insônia e uma solidariedade que surge junto com tais lamaçais d'alma.
Por isso, a cada tremor, perto ou longe, nos sentimos absurdamente vivos.
Se pudessemos explicar o tintim por tintim de cada paradoxo desse cotidiano surreal, não teríamos a palavra para o inexplicável.

Festa estranha com gente esquisita


Lá em Tokyo tem uma onda cosplay que atravessa a barreira da realidade para a fantasia e vice e versa e se fixa na realidade, sem volta.


Se tudo pode ser natural assim, posso ir até a padaria vestido de Batman com o amigo ao lado de Buster Keaton. E o padeiro de Free Willy. O cara do balcão servindo um café vestido de Asterix para o Morcego Vermelho e uma coxinha para a Janis Joplin.


Hoje de manhã, como faço todos os dias, fui até a loja de conveniências pegar um café e me deparei com essas meninas abaixo vestidas com psicodélicos pijamas mamíferos da Parmalat.


Sete e meia da manhã.


Não discuto certas maluquices, jamais.


Macanudo - Liniers


Vegetar, minerar e animar

Vegetar. Nada pra fazer e não é em nenhum dia específico. Geralmente a gente reclama de sábados assim porque todo mundo associa o sábado a algum movimento físico, desde empurrar carrinho num megamart a academia ou futebol e cerveja. Deve ser algum resquício do anti-semitismo na idade média - enquanto os judeus curtiam o sabá, os cristãos corriam pra lá e prá cá só pra deixar Samuel e Sura cansados de ver. Nada pra fazer é vegetar. Sol ou chuva ou neve ou dia ou noite. A vida exige um passo para frente junto com o tempo. Dizem que aproveita-se o tempo assim. Capitalismo puro, time is money, bobagens assim. Mas dá pra aproveitar o vegetar bem cru e solícito para o grande nada do dia. Ou também desgrudar a bunda do assento e ir até aquele sebo de discos que faz tempo que não dá uma passadinha. Ora ora, sempre tem novidade. Minerar. No meio do sábado o sol a pino e o sebo de discos a algumas aceleradas em direção ao centro. Estacionamento vazio, casa vazia, todos os discos são de quem chegar primeiro. Minério, ouro, diamantes, sempre há alguma pepita esperando seu fetiche, seus ouvidos. Ordem alfabética? Então é blues, jazz, rock e soul. Albert Collins, BB King, Taj Mahal. Ali tem Bukka White, Robert Johnson e KD Lang que está na prateleira errada. Minerar é ver estes, separar aqueles, ficar horas traduzindo contracapa, ver os músicos de um show ao vivo, pensar sempre que Miles é o eterno herói, mas esse Count Basie é de lascar. Horas indeciso pelo prazer de ficar indeciso entre John Lee Hooker e Chick Corea e passar no caixa com Pat Metheny Group e Sonic Youth. Animar. Bom, pra mim é volume no talo e escutar até fazer calo no cd. Depois esperar outro sábado.

Ler é só começar

A geração dos vitoriosos e talentosos diretores do pós "Sem Destino" de Peter Fonda e Dennis Hopper.

Sim, somos previlegiados por podermos ver qualquer filme a qualquer hora em qualquer lugar.


Sim, cinema é culto, é religião e nós acreditamos em cada mentira contada na tela.


Sim, eu acho que se você não acredita em deus e não acredita em moralismo barato, pode substituir a bíblia pela trilogia "Godfather".


Então, leia esse livro.


Tradução da Ana Maria Bahiana.

Editora Intrínseca.

Capa vermelha: De Niro.

Capa azul: Peter Fonda.


O meu é vermelho.



Bataterra

Tão dizendo que essa batata psicodélica aí do lado é fruto (?) de intensas pesquisas baseadas em fotos de satélites, gravidade batati-batatá. A batata é a Terra. Como se já não bastassem todos nossos milênios de guerras e auto-destruição, destruição da natureza, asfalto em cima de minhoca, essa falta de amor próprio que a gente carrega pelo fato de sermos humanos very gente, veja você. Tá na cara que a minha coriza é minha culpa, que o pó que acumula nos móveis da minha casa é minha culpa, que a água que desperdiço lavando meu carro eu pago a conta, mas podia encher o caneco de um cara com muita sede sentado numa poça de lama num daqueles países perdidos entre uma propaganda da cola light e uma mina subterrânea esquecida de vinte anos atrás, é minha culpa. Culpa culpa culpa a gente cria monumentos e religiões para nos livrarmos dela. Tem a culpa das pessoas que falam na humanidade na terceira pessoa do plural - essa mania do século XX que começou com Nietzsche, esse idiota feio e bigodudo idolatrado por quem nunca leu filosofia, mas acha o nome do cara um enigma inicial e por ele e pelo bigode ou em citações em palavras cruzadas, já leu tudo do alemão babão. Essa coisa da terceira pessoa do plural onde ficam dizendo eles eles eles, humanos eles, inimigos eles, destruidores eles, carrascos eles, racistas eles, pobres eles, pretos eles, brancos eles, amarelos eles, fumantes eles, gordos eles. Tudo muito nós, muito eu e seis bilhões de bípedes - até que pisem na mina esquecida. Muito eu e você, nós. Pois bem, como se não bastasse essa culpa com esse deus pregado e morto, esse outro clamando nos desertos, aquele outro em jejum e contemplação ou aqueles milhões que são tudo e não são nada, como se não bastasse nossas dores mais pequeninas e secretas, ainda usam todo nosso conhecimento tecnológico - sim sim sim, virtudes! - para dizer que nosso planetinha-lar é uma batata? Justamente num momento entre Hiroshima e Fukushima onde quase fizemos dessa batata um purê? Amor próprio é planeta azul, o mais azul dos quadros de Fernando Cea Nuñez ou a janelinha de Gagarin. Aos tristes, as batatas.