Nquete: discos

Se a tua coleção de discos fosse em ordem alfabética, quem seria o primeiro?
E o último?
Qual letra falta na tua discoteca?

Calor calor calor calor

Ainda estamos em junho e ontem bateu 36 graus aqui em Hamamatsu.

É claro que esse inferno calorento acontece exatamente quando temos que racionar energia por que desativaram a usina nuclear de Hamaoka para vistoria e manutenção pelo o que aconteceu àquela outra usina que agora solta estrôncio no mar.

O verão japonês é insuportável até mesmo para bichos tropicais como eu por causa da umidade do ar. É uma Macondo, de fato. É tanta umidade que cardumes entram pela janela da sala e saem pela porta da cozinha, nos fundos, disse Márquez.

Essa foto ao lado é do controle remoto do ar condicionado aqui do quarto. Eu sei ligar o cool, aumentar e diminuir a temperatura. Mas não sabia acionar o dryer. A única coisa que entendo é o Hitachi e o número da temperatura desejada, o resto, vixi.


Aliando a onipotente sabedoria do Google tradutor aos meus parcos conhecimentos de português, cheguei aos três kanjis 除湿機 , onde lê-se JO SHIME KI, ou seja, simples como um buda sentado gargalhando, desumidificador. E esses kanjis estão escritos no controle remoto.

Mas como sempre, é uma bosta. O ar fica tão seco que ao invés dos cardumes de Márquez, o que passa pela casa é o Saara, meia dúzia de marroquinos e quatro dromedários irritados.

E te digo, ecologista futurista suadão, racionamento com 36 graus, nem buda.

O lixo é o fim - e não um fim

Não resisto.

Fica claro a todos que observam o mundo que nós somos o que somos porque entendemos o que está ao redor e interagimos - bem ou mau - e cá estamos.

Se a pessoa tomar porrada todo dia, ela acaba acreditando que é assim que tem que ser e vai sair dando porrada todo dia.

Lembro que quando comecei a achar que ler era uma coisa importante a fazer, não sabia bem porque, mas lia por prazer, e nessa idade de 12 ou 13 anos começam a cair os totens infantis impostos pelas grades do berço e começamos a dar os primeiros passos e criarmos nossos próprios sóis, luas e estrelas, enfim, eu lia pelos meus motivos e poucos amigos liam e então começamos a procurar os que leem e ficamos nesse pequeno grupo por anos. Sim, ficamos.

Mas hoje, se as pessoas estão preocupadas com o excesso de informação na ponta do fio do modem e paradoxalmente, é nítida a falta de informação básica para sair deste ponto intelectual para aquele pelo simples motivo de que muitos não sabem decifrar um texto ou escrever sem os absurdos caminhos do analfabetismo técnico, é preocupante, é uma questão histórica.


A curiosidade nunca mais será uma virtude?
Assim também é com a música.

Gente ruim faz música ruim.

Música ruim faz gente ruim.

É o mesmo raciocínio anterior.

A música ruim existe para termos parâmetros.

O problema é que o parâmetro virou o objeto comum.

Não tenho e nem defendo essa falsa poesia do politicamente correto, do som do gueto, regionalista, etnico, social.

Existe o som do gueto, o regionalista, o etnico e o social. Mas nada é feito pelo prisma da arte.

As coisas são feitas para criar opções, inserir, mas arte não é sociologia.

Esse politicismo do que seria apenas um ponto de vista artístico, um trabalho para ser admirado com alguns dos cinco sentidos, virou um panfleto de péssima qualidade.

A geléia geral não é o lixo.
O banal é uma opção e não um fim.

Conto de um parágrafo e dois centavos - Pacabá

Os Pacabá são uma tribo do Alto Xingu que vendem artesanato de palha e couro de jacaré-do-papo-roxo aos turistas bunda-branca do sudeste.
Muita gente acha que o papo roxo do jacaré é aquele papo fálico.
Engano, é papo furado.

TREME - Série de tv da HBO

Três meses depois da inundação da cidade de New Orleans por causa da passagem do furacão Katrina, várias histórias paralelas contam a reconstrução da cidade e dos personagens do bairro que realmente existe em New Orleans chamado Treme.

Cajun, jazz, blues, sax, trompete. Muita música no drama cotidiano de reconstrução pessoal e coletiva.
Muitos músicos, tijolo por tijolo, nota por nota, lágrima por lágrima.
Participação especial de Elvis Costello fazendo ele mesmo.

Conto de um parágrafo e dois centavos - Agora eu grito

Não desista.
- Mas a paciência é um saco.


(Sozinho, uma isca, um anzol, uma linha e um começo de furo na canoa no meio do Pacífico).

Hábitos

Esqueci minha câmera na gaveta da minha mesa lá no trampo.
Quando percebi, me senti nu.
Mas passou quando assisti tv.
Estou viciado em imagem digital.
Vai passar quando eu encarar o mar - e fotografá-lo.

Romário, você tá certo

Coisa de ano e meio, dois anos antes de iniciarem os jogos da copa no Japão, todos os estádios japoneses já estavam prontos, além da infraestrutura para torcedores, imprensa e atletas.

O problema não é o Brasil não ser o Japão ou o Brasil ser o Brasil (ainda bem!).
O problema é o Ricardo Teixeira ser brasileiro.

Macondo aqui, sempre aqui

(Gravura de Carybé para o livro Cem Anos de Solidão)


Antes do verão explodir com o sol a dois palmos da cara da gente, vem essa temporada de chuva atrás de chuva, fila indiana de chuva, todo dia chuva como se todas as nuvens do mundo e de outros mundos fizessem um congresso aqui na Ásia e o Japão fosse a mesa do cafezinho.

Ou o toalete.

Já disse que me sinto em Macondo.

Já me disseram que só quem leu Márquez entendeu essa.

Explico.

Imaginem um lugar entre a imaginação e um ponto perdido do mapa colombiano, é Macondo, fundada por um Buendía anos antes dos primeiros ciganos chegarem com as grandes maravilhas do mundo.

Por essas e outras que começa a vir aquela vontade de abrir o livro de novo, voltar àquela cidade e suas bananas, sempre nessa época do ano, sempre que fica esse calor grudento de mofar até os ossos do milenar cadáver do faraó no deserto.

E se tem uma coisa que não deixo esperando é um Buendía.
Todo ano largo o que to lendo e releio os Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez.

E aproveitem o ar, ele está vivo e lúcido.

Aproveitem porque é o mesmo que ele respira.

Ares

Uma poesia com ares de Bandeira.
As descrições minuciosas do pernambucano sobre as coisas do amor e fraternidade.
Uma poesia que fixe residência numa gota de chuva
e se esparrame pela cidade por todos
todos os poros, guarda-chuvas e Ipods.
Um dia inteiro de poesia no ar e nos mistérios entre os respirares.
Ares que carregam seus odores e que carregam a saudade para explicar para todos que estamos muito longe, mas sempre por perto.
Essa imagem é de Elomar, não é minha.
Nem dele, é anterior.
E não são ares, são asas.
Mas me diga, se emoções não tiverem asas, pra que tê-las,
asas e emoções?

Dia Hoje dos Namorados

Viajamos 70 km até Shizuoka para nos presentearmos e acabamos nas vitrines em Hamamatsu mesmo.
Mas foi bom o vai-e-volta e o Häagen-Dazs de amêndoas.
Dei uma bolsa indiana muito legal, colorida, cabe o mundo, a Índia, seus deuses e toda feminilidade da Nanci dentro dela.
Não é tão grande assim.
Ganhei uma bermuda legal e já tratei de manchar de óleo.

Chove



Tá chovendo tanto em Hamamatsu que até o sol resolveu usar galochas.


Sabe aquelas coisas que a gente vê nos livros de escola e fica maravilhado quando vê assim, na cara, a poucos metros ou sob os pés?
Comigo, várias coisas bacanas.
Paris embaixo do meu All Star foi um sonho realizado.
Ver o Imperador japonês passando de carro, do outro lado da avenida.
Capela Sistina.
O Rio de Janeiro lá embaixo e o Cristo Redentor aqui do lado.
Bob Dylan no palco.
Mas tem uma coisa que tinha nos meus livros de geografia que eu nunca entendi muito bem e ainda não entendo, mas vivo neste exato momento: as monções da Ásia.
Chamar de monções é tipo dar nome científico para a bactéria que anda assustando a Europa, o E. Coli. Cara, é diarréia e desidratação, só isso.
Monções é o cacete. É chuva em cima de chuva. Chover no molhado. Os anos de chuva em Macondo.
Em tempo, aqui nós chamamos de monssu.

Roubem tudo, menos minha música



Minha Fender, sagrada, fazendo pose na escada.
Quando sei que roubaram um instrumento musical de alguém, fico tomado por um nojo muito grande por esse ladrão.
Não discuto a ética do lubridiar, denegrir, invadir e tomar o que não te pertence e evidentemente não concordo com nada disso, mas cara, leva o carro, a guitarra não!
Roubem tudo, menos a minha música.
Nesse instrumento, eu faço 12 notas virarem toda gama de emoções que jamais caberiam no coração e mente de alguém que rouba a minha música.
Se estou só, se só me resta a madrugada, a tarde chuvosa ou um insuportável e tedioso dia ensolarado, não assisto uma comédia e nem um filme romântico de vampiros bobocas, nem vou à praia ou ao shopping mall, eu plugo a minha guitarra e toco um blues.
Ou clico on num tecladinho eletrônico simples e alongo notas como se fossem feitas para a introdução de um gospel num velho órgão dominical barato de igreja.
Eu faço uma canção e a esqueço.
Eu quero sempre ter o poder de fazer uma canção e esquecê-la.
Para isso, minha guitarra está lá no pedestal.
Não invejo o glamour dos grande artistas de pantagruélicas turnês ou excursões milionárias. Invejo aquela Fender Mustang creme ou uma Jaguar vermelha sangue com as bordas gastas de suor na desconhecida banda punk do interior do Arkansas. Ou aquele triângulo na mão hábil do repentista feliz e cego.
Um instrumento musical me faz ser a pessoa mais feliz do de toda a história da humanidade, de todas as guerras e todas épocas de paz.
Com um instrumento musical eu faço a vida ser muito melhor todos os dias.
Por isso, se você roubou de mim, pode devolver, deixa aí no quintal, eu serei eternamente grato. Pode ficar com as pérolas, os eletrônicos e o carro.
Mas devolve a minha música.
(Não, não roubaram nada de mim, daqui de casa. Estamos intactos. Essa é pro Luiz Bueno, amigo do amigo do amigo - coisas de Facebook - que foi surrupiado em casa).

Clap clap clap!






Depois que o Ronaldo Fenômeno deixar a camisa 9 da Seleção, o próximo centroavante vai ser, no máximo, 8,4.
Obrigado por tudo, Ronaldinho.

Troca o disco, corazón!

Caiu, o Palocci caiu, mas vai faturar mais e mais sem as amarras dos crachás oficiais.
Então tá, eu acredito em cachorro vegetariano, o rato acredita no gato, a natureza cria uma formiga diabética e
viva eu viva tudo, viva o chico cabeludo. Viva a anarquia-a-a.
Sabe quando você pede azul, o cara pinta de rosa e diz você pediu amarelo, por isso pintou de vermelho?
Uma pequena e singela anarquia dautônica que representa o olhar de Brasília para a sua parede, a parede da massa, a massa corrida, o corre-corre da vida diante desse dramático bolero político sem paixão.
Quanto ao seu voto-dinheiro, eleitor-contribuinte, acredita, vai:
- A punição virá - kafkiana, essa.

Ode ao velho lar





A melhor definição que já ouvi sobre um lugar foi

"Lá de onde eu vim, todas as casas tinham pelo menos uma janela com um vidro quebrado".

(Edu Coiso, metaleiro paulistano)

Na dúvida, o melhor lugar para morar ainda são os poucos centímetros cúbicos macios do teu próprio e exclusivo travesseiro.

Já morei num décimo-sétimo andar no centro mais perverso de São Paulo, entre a 25 de Março e o Mercado da Cantareira. As mesmas centenas de metros que eu caminhava para comprar um peixe exótico de aquário de um rio da Nova Guiné, também eram, em direção oposta, para lojas onde eu poderia adquirir um papai noel em tamanho natural com a camisa do Esporte Clube Bahia - em plena Páscoa.

Qual é o tamanho natural do Papai Noel?


Quando vejo filmes novaiorquinos onde os caras falam mal de lugares como Queens ou Hell's Kitchen, creio que cada poeta, diretor, roteirista ou blogueiro sabe onde o calo aperta quando tranca a porta de casa atrás de si.

Eu sei da Cracolândia ou do eterno cheiro de cebola podre de ruas inteiras do bairro do Brás.

Ou dos cachorros mortos boiando na latrina viva que é o Rio Tamaduateí.

Sei de Dom Pedrinho, Imperador do Centro, mendigo esquizofrênico daquelas ruas, Imperador que cuspia no chão e lambia de novo quando estava com fome.

Ou de Maria, A Louca, outra mendiga, nossa rainha.


Tinha o boteco que apelidamos de 7 Portas porque ele era numa esquina triangular e tinha realmente todas as sete portas.

Claro, o querido e point pé-sujo do Seu Zé, que cobrava uma merreca a mais só porque queriamos maionese no misto quente.

Naqueles dias em que dava para encontrar um papai noel equivocado em datas em meia dúzia de lojas na 25 ou travessas, a Cracolândia era apenas um lugar de putas baratas onde caberia o glamour da trilha sonora de Tom Waits. Hoje em dia deve constar até nos arquivos do efe bê i.


Ainda é possível encontrar papais noéis em vários tons e temas, Mas todo o glamour escorreu pela escuridão dos canos das bocas-de-lobo.

Lembro quando o Bado mudou para o centro, me ligou do orelhão, tinha descolado meu telefone com o Otávio. Ele disse estou aqui na esquina da Senador Queiróz com a Barão de Duprat. Fui até a janela, assoviei, ele olhou pra cima, fez positivo, desci e a vida tratou de nos sofisticar em elocubrações ainda inalcançáveis.

Amigos assim, se não são eternos, são para sempre.

A mãe do Otávio-que-descolou-meu-telefone tinha uma loja na outra quadra.

Fernando Cea, outra pessoa rara e absolutamente presente na minha/nossas vidas, tinha morado, anos antes, ali no Parque Dom Pedro II, dez minutos a pé.

Todos nós tinhamos como vínculo o Largo de São Bento, um colégio, um palco, várias gargalhadas.

Tudo no Centro de São Paulo e ainda no centro de nossos corações.

Por isso eu sei que a saudade nunca está sozinha.

Conexão Hokkaido Sunagawa - Paraná Assaí






O duro inverno de 1933 não passaria em branco na cabeça de Tasaku Okamura. Seria sua última estação fria antes de embarcar para o Brasil com toda a família. A filha mais velha, Tamy, não entendia muito bem as explicações do professor do vilarejo de Sunagawa, 200 km o norte de Sapporo, capital de Hokkaido. O professor dizia - O Brasil é muito longe, Tamy-chan - ela olhava pela janela da escola o topo da montanha de Pineshiri e pensava - Será mais longe que aquilo?

A colheita da pequena lavoura de Tasaku e sua família mal dava para o sustento da casa. Os mensageiros da capital diziam que o Imperador pedia paciência e perseverança aos súditos e que as vitórias do Grande Império trariam muita riqueza a todos.

Mas não há paciência que dure ao ver as crianças com os olhos da fome.

Enquanto o Imperio gastava e armava-se contra os chineses e russos e unia-se ao Eixo, o povo japonês de norte a sul passava fome. Muita fome. Isso fica evidente ao observarmos que durante a grande imigração japonesa ao Brasil do começo do século XX, as famílias são oriundas de todo o arquipélago, de Okinawa a Hokkaido.

Alguns poucos vizinhos de Tasaku foram para o Brasil e diziam que voltariam assim que juntassem bastante dinheiro para comprarem terras melhores ao sul ou algumas reses para criarem vacas leiteiras, as boas vacas leiteiras do extremo norte do Japão.

Tasaku não entendia muito de vacas e laticínios, mas era um bom homem e muito trabalhador. Seu cunhado Uichi também iria ao Brasil.

Tasaku sabia que com toda a família e um parceiro como Uichi, tudo daria certo.

No dia 27 de maio de 1933, há exatamente 78 anos e 5 dias, meu bisavô Tasaku e esposa com 4 filhos, sogra e cunhado, pisavam pela primeira vez em terras brasileiras, no porto de Santos.

Ao desembarcar do Africa Maru, ele - e principalmente minha trisavó Hina - não imaginavam que hoje seríamos quase 100 descendentes, entre filhos, netos, bisnetos e trinetos.

Logo vai nascer o pequeno Gabriel, filho da minha prima Cristiane e do Daniel, mais um sangue-bom da 4a. geração dos imigrantes de Hokkaido.

E eu aqui, do Japão, na origem de tudo que fui, sou e serei, faço valer a vontade de meu bisavô de que tudo iria dar certo. E deu.





E dará.





(Agradecimento especial ao meu primo Sueki Yoshida, pela pesquisa e memória de elefante)