A felicidade

Hoje lá pelo meio dia, duas da tarde, fez um calor super hiper trágico úmido daqueles de umedecer água.

E o suor escorria pela cara pingando pelo queixo, pela ponta do nariz. Testa encharcada, peito grudando na camiseta dry - uma ova - e mais e mais.

Antes da tempestade de verão o verão resolve chover por dentro das pessoas e escorrer para fora.

Fico aqui imaginando lá no antigamente subsaariano quando o velho antepassado pegou uma folha larga e se abanou e descobriu que aquilo refrescava.

Deve ter sido uma felicidade, não?

Minúcias

Preciso organizar minha imunda e idiota coleção de chaveiros.
Todos estão amontoados num único prego feito aquela gente toda no último cano do busão. Ou a última porta aberta do trem das onze, das doze, das treze.
Tem chaveiro de Tokyo, da Varig, de brinquedo de sucrinhos japonês, do Vietnã e um mini cubo-mágico da Finlândia. Tem mais, mas a montoeira é medonha, coisas irreconhecíveis. Tem uma camisa 7 do penta com o Felipão.
Quem foi o 7 em 2002? Não lembro.
Com aquela formação de três zagueiros e dois médios, minha cabeça confunde um pouco. Depois mudou para uma coisa mais prafrentex.
O tempo do prafrantex ficou muito pra trás, coisa de quem curtiu Tina Charles.
Já fui pra Campinas num fuscão 1500 com trilha sonora só de Tina Charles.
I love to love.
Alguns meses depois ouvi o News of the World, do Queen e tudo mudou.
Nunca mais fui pra Campinas e se fosse, seria outra trilha sonora.
O outono chegando ligeiro com um vento leste forte, difícil pra pedalar naquela direção.
Tenho pedalado entre 6 a 10 km por dia. Virou vício. A bunda dói, mas quando vou para oeste, o vento empurra.
Hoje lidei com um piano alemão muito bom e bonito. Daqueles compactos feitos para apartamentos moderninhos de pé direito baixo e portas estreitas.
O som da caixa era maravilhoso.
De Chopin a Monk sem tirar nem pôr.
Tivemos que encostá-lo porque o cliente não gostou da tampa de cima. Virá outra.
Por causa de uma tampa, ele não sabe que já poderia ter um maravilhoso instrumento em casa.
Boboca, tem rico que é muito boboca.
Se eu soubesse tocar, se eu tivesse comprado, se eu morasse nesse apê moderninho, ia ser Champion Jack Dupree até a garrafa secar. Nesse calor de dez da noite, vinho branco, aquele italiano da geladeira.
To lendo "A Viagem do Elefante", do Saramago.
Gostei quando ele disse das chuvas de verão e que por causa delas, de facto, o inverno começa em agosto.
Semana passada na praia perdi um par de óculos de sol.
Nem tanto pela perda, mas pelo valor que fora imposto por outra pessoa; o fato de eu ter viajado no ano passado com eles para o Brasil e minha prima ter gostado o suficiente para perguntar se eles não eram de menina - para, claro, ficar com eles - me deixou chateado.
Devia ter deixado com ela.
São daqueles quadrados do Mastroianni em 8 e Meio. Uma pena.
Mas logo virão outros, são meus favoritos.
E parece que da minha prima também.
Ontem escrevi cansei e gente atenta me tirou da anestesia.
A mãe do Otávio disse que estava tentando adivinhar o meu cansei.
Nada não, Diva querida.
É tempo de sentar e esperar a rua parar de correr para então descer da varanda e correr por si para qualquer lugar.
E sentar de novo.
Minúcias.
E acho que já to correndo, oeste, a todo vapor.

Esse coqueiro que dá côco

Vejo as pessoas falando mal do Brasil.
Outras defendendo.
Alguns começam atacando o Mano Menezes e terminam lembrando dos Fiscais do Sarney nos anos 80.
Outros pensam no Rio Tietê e na praia de Maresias.
Tem Tim Maia, amado e odiado, Jorge Ben e tudo aquilo que Barretos ou o Pelourinho representam para a música brasileira.
Tem o ar da Avenida Celso Garcia e os bosques de Monte Verde.
Caminhada pelo Ibirapuera, pela orla carioca, marcha por isso e aquilo, pedalada e atropelada.
Festival japonês de música e comida típica e restaurantes árabes populares nos rincões mais esquecidos.
Sobrenomes poloneses em lojas curtibanas.
Alemães brasileiros falam um alemão que não se fala mais na Baviera.
Tem tudo.
O Brasil tem tudo.
Tem até brasileiro.
O que não pode e deve ser lembrado todo dia é que o Brasil não pode ficar se maltratando - ainda que minimamente, às vezes, mas não é o caso do vídeo no link abaixo - como se fosse orgulho histórico ou fator cultural.
Não sou patriota, nunca fui.
Nem ufano o coqueiro de Ary.
Mas tem mais que isso batucando no meu peito.
Tem gente, muita gente querida que deixei nesse chão.

(Assistindo o vídeo "Estrebucha!", sobre a PM de São Paulo na Folha)

Catolicos baixinhos e ateus gigantes



Coisa de proporção. Parece que todo católico brasileiro encolheu.
Coisa de 40 cm em média.
Enquanto isso, ateus e protestantes estão com 1.90 m pra cima.
Se você encontrar um cara grandão, pode chamar de irmão. Ou camarada.

Enquanto isso, na margem sul do Mediterrâneo

o pau come solto.
Kaddafi (nos anos 80 escrevia-se assim) mais encurralado do que o verbete significa e se explica.
Pra quem não entendeu: em cu ralado, enconstado na parede, encurralado.
Entre o ditador e uma bala, apenas um dedo.
Dependendo do que o dedo sustenta, pode ser uma saraivada delas.
Um dedo, monsieur, um dedo encurralado.

AC/DCabernet Sauvignon




Vinícola australiana lança quatro vinho diferentes, cada um em homenagem a um membro do AC/DC.

(deu na Folha)
AC/DC me remete a porre de fogo paulista ou vodka barata ou goles de menta no gargalo.
Eu não aprecio um disco do AC/DC como se fosse um Egberto ou Monk ou uma garrafa de branco chileno.
Disco do AC/DC - sempre no talo - não me faz pensar em vinho, mas em esguicho de Budweiser na cara.
II
Ontem comprei uma Coca Cola de garrafa de vidro verde.
Achei numa parada de descanso e alimentação da highway Tomei, que liga Tokyo a Nagoya.
Nesse mundo de pet ou latas de alumínio, essa garrafinha vale seu peso em ouro.
Não sou mais um contumaz devorador de refrigerantes, mas essa deve ser apreciada.
Pastel de queijo pra acompanhar parece ser uma forte tendência nesse verão.
For those about to rock, we salute you.

john mclaughlin



Esse disco é legendário porque há duzentos e três anos atrás eu ia na casa do Paulão e sempre botava esse vinil.
Ficou um tempo em casa. Hoje em dia não sei seu destino.
Ontem botei mão num pequeno e econômico cd box do McLaughlin com cinco álbuns e tinha esse no meio.
Quase gritei é meu entre as prateleiras.
Hoje, passado o porre de ontem no festival de fogos do meu bairro, botei pra rodar.
A primeira faixa (New York on my Mind) abre com o Billy Cobham dando uma virada na batera pra guitarra começar a cantar o tema.
Esses segundos iniciais me transportaram para aqueles dias, há 203 anos atrás, quando éramos imortais e tínhamos um século para terminar e outro para começar.
E porra, ainda tem um solo de violino!
Um abraço e uma bênção a quem ainda tem 20 e poucos anos, mesmo que seja só no coração.

Jogaram um ventilador em mim

Tinha apenas a merda.

Aí inventaram o ventilador e depois jogaram merda nele.
Agora jogaram o ventilador em mim.
Foi essa a sensação depois que vi isso.
É a versão brasileira do Chaves no SBT.

A gente acha o que os outros também - sobre as versões



I
Diz a lenda que o Tarantino escreveu o roteiro vendeu por uma merreca, os produtores jogaram na mão do Oliver Stone, o Tarantino achou uma merda e falou que não queria o nome nos créditos. Desde então, um monte de gente vem dizendo que Natural Born Killers é ruim.
Não é.
O Oliver Stone às vezes é, mas nessa ele acertou a mão.
Pode ser que se o Tarantino fizesse, ficasse melhor. Vai saber.
A cena do casal central chapado de cogumelo no meio do deserto tocando Sweet Jane do Lou Reed na versão do Cowboys Junkies, é magistral.
Ninguém faria melhor porque eram aqueles dois atores naquela noite com aquela equipe ao redor.
Cinema, arte são circunstanciais.
Também podem dizer que é uma glamourização do crime, da violência cheap do final do século XX.
Esse é um outro assunto e um bom argumento.
Todo mundo sabe que com Tarantino, são barris e barris de sangue.
Prefiro sangue e violência na ficção que no quarteirão.
II
Tem a lenda que o Alan Moore também não quis o nome nos créditos do V de Vingança por causa daquele final chantili - para ele.
O gran finale no gibi é diferente.
Nele, Evey fica no lugar do V.
No filme, espalham máscaras de V por Londres.
De fato, Evey ficar com todo legado e a missão depois da morte de V, é mais dramático.
Milhares de Vs pelas ruas, porém, é cinematográfico.
Na verdade, o ato final de V na versão hq é a explosão do Parlamento.
Ninguém no estúdio ia assumir essa cena do filme.
III
Todo mundo fala que Godard é um gênio e mudou o rumo do cinema.
Eu fui assistir e dormi.
Preto no branco, preto e branco, Fellini é muito superior.
Fellini é eterno, Godard, não.
Cinema, arte são circunstanciais.
Amanhã ou depois, assisto o mesmo filme do francês e acho uma obra prima e Fellini, um chato.
Mas essas coisas geralmente ficam na primeira impressão.
IV
Eu tenho a teoria dos 4 minutos com relação a qualquer filme.
Os 4 minutos iniciais, sejam com crédito, introdução, preâmbulo, abertura, narração, não importa, esses minutos são os que te dizem se o filme é legal, divertido, ruim ou muito ruim.

Filme brasileiro com tema, música incidental e trilha sonora no piano pra mim é ruim.
Principalmente se ficar nítido que aquele tema não é apenas para piano e sim um arranjo para orquestra, mas como ficaram sem verba para os músicos, maestro e gravação, usam só a gravação do piano mesmo.
A não ser que o arranjo seja para piano e então nos entendemos.

Geralmente, contratam o compositor, ele grava a composição e manda pro diretor aprovar, aprovado, a grana daquilo vira sanduba para a técnica porque o orçamento estourou.
Erros administrativos.
Posso estar errado e podem dizer que falar é fácil.
Falar é fácil mesmo. Pra mim é mais fácil escrever.
Eu sei que cinema é complicado. Mas não dá pra ser simplista e fútil.
Cinema é sagrado. Pra quem assiste, tem que ser uma oração.
V
Aquelas cenas com câmera parada mostrando um objeto de uma casa enquanto conversas acontecem ao redor, nos primeiros minutos do filme, ou como primeira cena, pode ser letal, dedão no eject.
Se o diálogo não for bom ou o objeto não for interessante (bonitinho?), já era.
Os independentes do leste europeu gostam de começar assim.
E dá-lhe eslavês com legenda e eu dou eject - por uma questão acadêmica, pois não sei russo, polonês ou húngaro.
Alguns brasileiros copiam.
Tem a coisa do timing com essas cenas.
Pode ser que espirre sangue, cuspe, xixi.
Escatologia logo de cara, só o Lars von Trier se garante.
VI
O Cacá Diegues pediu pro Chico Buarque uma música prum filme.
Chico fez Bye Bye Brasil, ficou enorme.
Cacá pegou o papel da letra e rasgou, canta até aqui, até aqui tá bom.
Diz a lenda.

Hiroshima 360 graus

Fotos 360 panorâmicas de Hiroshima após a morte em 1945.
É impressionante.
Dica do Bem, amigo-leitor do blog.
Valeu, mano.
AQUI
Aliás, o site inteiro é legal.

Aniversário do Lobo

Mário Jorge Lobo Zagallo, o Zagallo, faz 80 anos.
Como jogador, dizem que foi medíocre, daqueles pontas que não sabem driblar.
Inventou o ponta-esquerda-quarto-homem-do-meio-campo, ou seja, um retranqueiro.
Mas o que mais me dana nesse fanfarrão do futebol é que ele dá entrevista igual o General Newton Cruz dava, o mesmo temperamento malcriado de velho mimado, gestos, até o grisalho, aquele tom de voz de quem se acha o dono da verdade, parece conversa de síndico de prédio com morador novo.
Se diz o torcedor número 1 da amarelinha, uma bobagem, todo brasileiro se diz assim.

Shake Dog Shake

Shake Dog Shake é uma canção da banda The Cure.
Shake é o nome do projeto da fotógrafa americana Carli Davidson.
É isso.












Deu na BBC Brasil

Ao deus dos ateus

I
Parece piada.

Piada de paradoxos, paralelos absurdos, física quântica como se fosse uma paulada no meio da cachola.
Grupos unidos e organizados de ateus.
Sites, blogs, comunidades em redes sociais, tuiters, associações, séde própria, sala alugada, reuniões semanais, palestras, pautas, panfletos, libretos, autores, compositores, jornalistas, informações sigilosas, provas irrefutáveis, diplomas, discursos inflamados.
O que eles não perceberam é que viraram uma religião, a religião dos ateus.
O religare do homem ao nada. Que delícia!
Agora precisam dos heróis, dos mártires da causa, de nomes gravados no mármore em algum panteão.
E tudo acaba tendo o mesmo significado do religare do homem ao todo.
O que era ausência de deus, acaba virando mais uma grande ortodoxia fundamentalista de não-superstições explicáveis por sábios antigos, homens de valores morais inatacáveis cujos saberes atravessam os séculos pela obscura ciência do ceticismo.
Dito claro: ceticismo pelo ceticismo.
Logo virá algo como o dízimo, o valor de cada indivíduo para a causa maior.
Um grande não-templo para não-orações num lugar não-místico?
Será o carro zero do sacerdote do não-céu?
A casa na praia para fugir do não-inferno?
A faculdade das crianças?
A temporada de cinema em Barcelona?
Uma emissora de tv?
Briga para transmitir futebol?
Chutar a santa?
II
Meu ceticismo não anda de turma não.
Será que algum deles leu a Revolução dos Bichos de George Orwell?
Ou Max Weber?
A Bíblia, Alcorão, Torá para pelo menos dizer não com certa malícia e empenho?
Essa coisa de andar de turma.
Nem em banda de rock dá liga.