A primeira Canon a gente nunca esquece

Passei na loja e vi a Canon PowerShot SX150 is, que é o modelo mais recente dessa linha, cheia de recursos, porém simples de manusear, patati patatá.
Cara para os meus padrões, era muito cara.
Mas tinha essa, uma excelente câmera para amadores como eu.
Como aqui no Japão quando os novos modelos já despontam nas prateleiras, os antigos abaixam os preços em quase 50%, peguei essa, a Canon PowerShot SX 130 is.
Na verdade, para o que eu gosto de fazer - apenas apertar o botão - ela está muito acima das minhas aptidões.
Felizmente, achei um manual em português num desses fóruns e posso começar a treinar os recursos e ver se realmente aprendo a fotografar como gente grande e então me sentir no direito de comprar uma daquelas que valem um carro.
Por enquanto, clico as coisas que acho que dariam uma boa capa de disco.
O que não me impede de fazê-lo depois, com mais nhém nhém nhém.

Trip trip hurra!



Imagine um vulcão.
Imagine que esse vulcão é o Monte Fuji.
Imagine que você só conhece o lado de cá desse vulcão, tipo de quem olha da praia.
Pois amanhã vou para Kawakuchi Lake em Yamanashi ken, na região dos cinco lagos, do lado de lá desse vulcão.
Boa viagem pra gente, gente.

Coalhada Leiite

A Coalhada Leiite comparou os metaleiros a Hitler, aquele.
Eu tenho dias que estou e sou metaleiro, ouvindo Motorhead no talo. Ou Black Sabbath. Ou Led.
Ou posso ouvir Bill Evans com a camiseta preta do Metallica.
Ou ouvir Coltrane como se fosse Slipknot e botar uma máscara do Jason tomando um tinto. Ia derramar na camisa, mas tem canudinho pra esses eventos.
O rock'n'roll faz parte do meu cotidiano.
Um festival a mais ou a menos não altera a minha vida.
Pra ela, a Coalhada Leiite, deve ser importante, afinal, é cachê, grana, business.
Eu não gosto do som dela e nem da cara dela.
Se alguém já ouviu algum disco do Carlinhos Brown, sabe o que são ritmos baianos e o que é um compositor dos guetos dos tais ritmos baianos.
Beleza. Feiúra. Bobagens.
Coalhada Leiite, o teu erro, além de nos chamar de nazistas, foi ter tocado num festival de rock.
Só isso. E isso é tudo, boboca.

Mau, sapão, mau

Porque foi axé vomit song que abriu o festival com a C Leitte azedo e porque porra, o


SEPULTURA


estava num palco secundário.


Vai pra casa do caralho todo mundo de terno e crachá nessa merda.

Porque eu amo os livros

Lá está Londres e lá está o Savoy Hotel, perto da Ponte Waterloo sobre o Rio Tâmisa.
Em 1898, Wolf Joel, um milionário inglês, reservou uma mesa para 14 convidados. O Savoy é famoso por sua requintada culinária, já o era nos anos vitorianos.
Infelizmente, um dos convivas não pode comparecer ao jantar.
Ignorando a superstição, Wolf pediu para servir o jantar para 13 pessoas.
Três semanas depois, foi brutalmente assassinado na Africa do Sul, baleado.
Após o episódio, o Savoy não permitiu que se fizesse reservas para 13 pessoas.
Em algumas situações, incluiu um funcionário entre os convidados para que somassem 14 pessoas à mesa.
Nos anos 20, o hotel adquiriu Kaspar, este gato art decó de 90 cm que substitui o talismã humano nas mesas com 13 pessoas.
Ele é aparelhado com os mesmos talheres, louças e pratos servidos às pessoas.
Durante a II Guerra foi roubado e dizem que o primeiro ministro Winston Churchill em pessoa pediu que a Scotland Yard investigasse e o devolvesse ao hotel, no que foi prontamente atendido.
Está no livro Esquisitologia - A estranha psicologia da vida cotidiana, de Richard Wiseman.

Por isso amo os livros.

Não

Só grana pra associar Cláudia Leitte com rock. Ou falta de opção. Ou imaginação.
Como disse o Clemente, esse Rock in Rio tá mais pro Criança Esperança.
Quem é o Clemente? Ah, vai ver Criança Esperança, mermão.

Verão, outono

Hoje muda do verão pro outono.
Esses equinócios e solstícios são perfeitos aqui no Japão. Até ontem tava calor, ainda dava praia, hoje já esfriou, não está frio, gelado, congelado, mas está frio.
Se a natureza faz o homem, explica-se as atitudes japonesas com relação a si e à sociedade diante de tudo tão agendado, o sol, as nuvens, arrozais, silêncios e calores.
Aliás, já viram o filme coreano "Primavera, Verão, outono, Inverno"? Boa dica.

O olho do tufão



Ontem passou um tufão com ventos de até 50 km/h. Esse deu medo mesmo.
Casas destelhadas, plantações arrasadas, coisas voando pela cidade.
A tempestade mais violenta durou quase 4 horas, das 11 às 15.
Houve um apagão em grande parte da província de Shizuoka.
O único prejuízo aqui em casa foi um objeto que voou e pegou no carro da Nanci. Mas parece que o seguro vai cobrir.
Amanheceu com sol. Passarinhada fofocando, grilos resmungando e o mundo em movimento.
Nessas horas de aflição no meio do olho do furacão, meu medo verdadeiro são os medos alheios.
Pessoas morrem por bobagens.
Um morreu num prédio porque estava limpando a calha e caiu.
O outro o vento levou e caiu no rio.
E outros e outros.
Alguns amigos perderam telhados, um deles, a casinha das ferramentas do quintal.
E nada além do que algumas coisas perecíveis da geladeira para o lixo.
Agora o inverno está próximo. Beleza.

Tufão, mas já é outro



Olha o tamanho do verbo. Vai chegar em Hamamatsu depois do almoço.
Vento fuderoso. Já houve o tufão de duas semanas atrás que detonou a região a oeste de Nagoya.
Agora esse que vem bater de frente conosco.
Em Aichi ken, 80 mil pessoas que moram em regiões montanhosas e regiões ribeirinhas já foram transferidas para abrigos.
E o homem do tempo diz que amanhã será de sol.
Veremos.

Desculpa

Ou um gole d'água ou a água estava turva
ou o copo rachado
ou as mãos trêmulas ou o chão escorregando ou os panos sujos
ou a vida agitada ou peguei mas não vi ou sabia demais
ou a janela fechada
ou o vento levou
ou sozinho com dignidade ou solitário e balbuciando
ou perdendo meu tempo
ou capacho de emoções ou as horas não passam
ou meu dinheiro acabou
ou sabemos de tudo ou coragem, coragem
ou os livros na estante ou passa a régua e traz a conta
ou fecha a porta e apaga a luz ou bota o disco certo
ou meu deus, isso não tem fim
ou conversei com ele e tudo será com antes
ou os melhores dias estão por vir ou nada, nada, nada.

Experiência

Sono. Muito sono.
Até onde chegará esse texto?
Já fiz algo assim quando era adolescente, escrever sonolento até cair de cara.
A diferença é que eu já estava no travesseiro.
Adolescentes desafiam a lei da gravidade. O ócio. O pretexto de viver.
Quando deixei de sê-lo, adolescente?
Acho que foi quando escrevi um poema e não gostei.

Mondocani e o que é legal

Mondocani acha muita coisa legal.
Peixe beta e carro antigo com parachoque cromado são duas das muitas coisas.
Mondocani apenas diz puxa isso é legal ou puxa, isso é muito legal.
Mondocani não acha legal aquele tipo de gente que vê uma coisa legal e já bota defeito ou faz piadinha de qualidade de filme dOs Trapalhões porque não consegue expressar felicidade por alguém que não seja si mesmo ou algo que não seja de sua propriedade.
Mondocani pensa puxa, vai tomar no rabo.

Tao Te King



"Uma via que pode ser traçada não é a Via eterna, o Tao".


Como alguns grandes pensadores, Lao Tzu nunca deixou nada escrito. É a tradição.
Ela também diz que ao ver a corte em declínio, resolveu afastar-se para não ver sua derrocada. Nos limites da Grande Muralha, um dos guardas da passagem oeste pediu que ele recitasse um resumo de sua sabedoria e ele, Lao Tzu, deu o nome de Tao.
Isoladamente, o ideograma "tao" significa "caminho, estrada".
Hoje em dia, ao reler novamente e depois de ter aprendido um pouco - muito pouco mesmo - sobre a condição abstrata e a estrutura dos kanjis, percebo porque é um livro cujo pé-de-página e notas explicativas são maiores que o conteúdo.
Acontecem paradoxais explosões de entendimentos/desentendimentos simultâneos na leitura e absorção do Tao.
É impossível não ver o caminho na simplicidade do ideograma "tao" e ao mesmo tempo, sem a complexidade do aprendizado básico, é compreensivo e possível não vê-lo.
Com tais condições pré-estabelecidas para os tradutores e para quem lê o Tao Te King, fica evidente que as palavras de Lao Tzu em português estão muito distantes do original chinês. E ao mesmo tempo, com sua simplicidade e complexidade juntas em cada estrofe, estão muito próximas.
Não é possível explicar.
Fica mais fácil citar novamente que
"Uma via que pode ser traçada não é a Via eterna, o Tao"
ou seja, quanto mais explico, mais complico.
É o Tao.

Livro, o fetiche

Livro tem a rodo no Google.
É coisa de mil, milhão e milhões.
Tem autor indonesiano falando da seca em Chiapas, México.
Tem autor de Chiapas falando da Indonésia com muita convicção e certeza.
Tem dúzias de traduções de uma única poesia de Pablo Neruda, se quiser.
Tem fotos dele, da mãe, da tia, sozinho, multidão, numa festa, com árvore, com céu.
Mas tem uma coisa chamada fetiche e tem uma coisa mais doida chamada fetiche por livro.
Para quem adquire esse tesão, não vai ser um tablet ou sei lá o que movido a pilha que vai aconchegar as mãos no contato com o papel, a letra impressa, a tinta, a capa, a velhice, a história do dia em que ele saiu da estante da livraria, pousou nas mãos para entrar na vida e na cabeça e nunca mais sair.
Eu também gosto de cheiro de livro novo, qualquer um.
Se ele estiver lacrado e plastificado, melhor ainda, passo minutos cheirando antes de ler.
Fetiche não se explica, se goza.

Meu Brasil já não é o Brasil

O Brasil S.O.S. ao Brasil,
De norte a norte o Brasil
não é mais o Brasil.

S.O.S. cantando o Brasil
O Brasil desencanta o Brasil
e o Brasil redescobre o Brasil.

Meu Brasil já não é o Brasil,
O Brasil não é mais o Brasil,
S.O.S o coração do Brasil.

Vês

Quando vejo um prato de sopa - sem sopa,

vejo um estádio.

Quando vejo o estádio,

vejo um cinzeiro gigante.

Quando vejo o cinzeiro,

penso que deus está com tosse.

Al infinito y adelante - en el Tao

Yo quiero una madrugada entera con o sin luna

dos ventanas abiertas de par en par

tres árboles bailando al viento

cuatro dedos doblados y un pulgar en riste

cinco hogueras para calentar vidas

seis “saudades” en un sobre

siete sollozos y tragos de agua

ocho motivos para hacerte regalos

nueve colinas y una puesta sol

diez veces este poema y

mas diez veces las diez veces.

(versão espanhola de Fernando Cea Nuñez)

Certo

Noite fresca com uma pá de grilo berrando carente lá fora.
Quase meia noite e amanhã já é sexta-feira.
Cannonball Adderley tocando a alegria do jazz que só ele tem.
Que mais? Nada. Tá bom.
Agora eu sei que vai dar tudo certo.

Velho, meu velho

To com uma dor nas costas que parece que vou parir.
Só parece, pelamordedeus.
Mas sei que é daquelas dores imbecis que vão grudar tão bem que acho que vou colocar no cartão de visitas.
Dor imbecil porque aparece com a idade.
Dizem que a gente fica mais sábio. Grande bos, grande mer, sábio e meio curvado, reclamando até do tênis com cadarço.
Por isso poucos velhos usam All Star e preferem ficar nas alpargatas.
Veremos.
Hoje fui lá no massagista e tomei choques elétricos.
Me senti um hamster de laboratório.
Dei um rolê de bike e nada de dodói.
Veremos.
Mas tem a idade. Onde estão os meus óculos?

Ao infinito e avante - no Tao

Eu quero uma madrugada inteira com ou sem lua
duas janelas abertas escancaradas
três árvores dançando ao vento
quatro dedos dobrados e um polegar em pé
cinco fogueiras para aquecerem vidas
seis saudades num envelope
sete soluços e goles d'água
oito motivos para presentear-te
nove colinas e um pôr do sol
dez vezes esse poema e
mais dez vezes as dez vezes.

Tufão



Falaram em muita chuva e vento e atenção, fique em casa.
Vento tem, uiva e dá rajadas medonhas. Coisa de 40 km/h, mais ou menos.
Mas da chuva só umas cuspidinhas.
Mais ao sul ele já matou um, sumiu com cinco (inclusive um surfista macro-idiota) e desabrigou um monte.
O tufão #12 vai atravessar a ilha e correr no Mar do Japão, provavelmente afetando muito a costa leste da China.
Fim de verão e eu queria os últimos calores na praia. Dancei.
Lá fora tá 29 graus com vento.
Um bafo quente de dragão-tufão.
No ano passado deu praia até final de setembro, quem sabe.
Isso me lembra quando desembarquei zero bala no Japão em 1990. O tempo estava igualzinho.

Sabe-se lá

Intransponível é a linha entre o ontem e o amanhã. Não dá para sair dela, é tudo ao redor de hoje e acabou.
Planejar a gente planeja, mas quem não se surpreende com alguém na contramão ou um arco íris como uma bênção?
Tem as lembranças e os esquecimentos.

Me espanta quando alguém diz que lembrou depois que esqueceu. Impossível. Esqueceu porque não tem como lembrar.
Quando a gente volta a lembrar não significa que deixou de esquecer.

Alguns detalhes estão frescos entre dois segundos, sabores ou roupas coloridas.
Lembro de automóveis, pessoas atrasadas e uma das minhas velhas tias dizendo que correr ao redor da mesa cria cobra.

Perdi muito tempo da minha vida sem escutar James Brown.

Um filme pornográfico tem basicamente duas possibilidades, a entrada e a saída.

Só quero acordar amanhã para dormir de novo.
Gosto de cochilar à tarde, mas sabe-se lá quando dá.


Quando alguém morre, não tem jeito, é a vida.
A morte é a vida.
O problema não é morrer, é ficar vivo e testemunhar que todos morrem.
Tampouco o problema é viver.
Viver é uma solução com um resultado num final muito paradoxal.