Lulinha Paz e Amor e o resgate de uma certa ética

Eu não acho que o Luis Ignácio deva se tratar no SUS. E nem que os filhos de políticos devam estudar numa escola pública. Equivale a dizer que todo alemão deve ter a pele marcada com um número só porque são alemães.
Eu acho que muita gente da classe política é bem sacana mesmo e que se elegeu pra ter as benesses financeiras e jurídicas e dar carteirada a três por quatro. Muita gente. Assim como devem ter médicos que não lavam as mãos para uma cirurgia ou engenheiros que não sabem construir nada e esses médicos fazem cirurgias bem porcas e as casas e prédios desabam por erros burraldos.
Tem filho da puta em todo lugar.
Mas o Luis Ignácio não é. Pode ter sido conivente com muitos corruptos, vendado os olhos, dado uma de migué, abraçado esse, tapinha nas costas daquele, elogiado uns e outros, falado bobagem, construído demagogia, viajado à toa, mas ele não merece esse ódio coletivo. Não assim. Se a maioria da classe média tem o direito de ter dois ou três convênios privados, ele também tem.
Eu gostaria de ver todo o Brasil sendo tratado de uma rinite pelos padrões do Albert Einstein. E também que toda criança deveria estudar em escola privada. Como isso não é possível, que as escolas públicas possam ter um padrão pedagógico, físico e profissional como as das escolas católicas, por exemplo. E todos os hospitais com cara de Grey's Anatomy ou House MD. E que todas as crianças do Brasil possam saber de verdade discernir entre o que é bacana e o que não é e então fazer sua opção.
O fato é que a maioria das pessoas não tem tido muita opção. Parece-me que há uma raiva latente porque a cidade está suja, a classe política está suja, as praças, os jardins, o bife a parmegiana veio com um fio de cabelo.
E a raiva cresce.
Os humoristas estão raivosos soltando espuma pela boca. São todos muito bobocas, na verdade. Não sei porque, mas nunca achei humorista engraçado. Não discuto o politicamente correto ou não-correto, isso é bobagem. O lance é a raiva.
O país está com a democracia solidificada, com índices de crescimento bastante razoáveis, as classes médias consumindo como nunca, muito crédito habitacional, multinacionais brasileiras disputando pau a pau com empresas gringas pelos mercados afora. A miséria está sendo erradicada. Tudo muito lentamente, tudo muito latinamente. Já é historicamente irreversível. Mas ainda há a raiva, rancor.
Parece que felicidade incomoda. E a saúde do ex-presidente também.

Yabadaba Buda dois

Yabadaba Buda caminhava com um amigo.
- Plantei couve, feijão e milho, mas estou com vontade de comer alface - disse ao amigo.
- Completamente Buda, meu mestre, mas sempre humano.
Ao ouvir isso, Yabadaba Buda ficou duas horas levitando e sorrindo.

Tá besta?

Anteontem um diretor da empresa quase fechou um contrato para um novo modelo de piano.
Quase. Mas já tá na mão.
O protótipo chegou ontem da filial de Shanghai.
Mas o cliente queria ver a estrutura do piano, sem teclas, sem action, sem nada.
Oco.
Pra que? Pra porra nenhuma.
E anteontem o mesmo diretor disse tá, pode vir.
Esse pode vir ficou marcado para sexta-feira, 28.
Ontem paramos tudo para montar duas carcaças de piano sem bagaço.
Eu fiquei até as 9 da noite.
Tem gente que deve ter ficado tipo overnight.
Hoje abri o blog do meu chefe e ele escreveu ahô ka? que quer dizer tá besta?

Foi

Foi dar uma volta no quarteirão para fazer digestão de rabada, arroz branco e salada maionese e levou chave, celular, lanterna, carteira com documentos e dinheiro, duas balas de hortelã e o mp3 pra desanuviar.
Foi.
Foi pescar na beira do lago para relaxar, levou molinete com gps, isca artificial com medidor de profundidade e velocidade do peixe ou da correnteza, boné com aba comprida que usa virado para trás, cadeira com encaixe para copo, garrafa e vara de pesca, cinco sanduiches de rosbife e cheddar, um box cooler com cerveja, água mineral e água isotônica, óculos de sol, câmera fotográfica, celular, lanterna, carteira com documentos e dinheiro, duas balas de hortelã e o mp3 pra desbaratinar.
Foi lavar o carro depois de quatro dias ininterruptos de chuva e vento, levou dois baldes, panos, três esponjas, xampú para lataria, limpa-pneu, limpa-vidros, limpa-painel, limpa-bancos, silicone líquido para pneu, mais panos, óculos de sol, celular, carteira com documentos e dinheiro, duas balas de hortelã e um cd no talo do Jesus and Mary Chain para acordar.
Foi casar depois de cinco anos de noivado, levou os pais, o irmão mais novo, a namorada dele, a irmã mais velha, a namorada dela, os sogros, dois cunhados, uma concunhada, dois sobrinhos, um de colo, vários amigos e amigas da agência, alguns amigos da faculdade, quatro brothers do colégio, um amigo de infância, o fotógrafo, o tio paraplégico, a tia desquitada, o primo distante descabelado, a empregada que trabalhou com a avó e há anos trabalha com a mãe porque a avó mora com a mãe, o cameraman, outro primo, a prima gostosa, o namorado dela e o carrão dele, um padre, dois violinistas, um violoncelista, uma flautista, três damas de honra, celular, carteira com documentos e dinheiro, duas balas de hortelã e estava assoviando a marcha fúnebre no altar quando a prima gostosa chegou no ouvido dele e disse fudeu.

Yabadaba Buda

Tudo isso aí é importante mesmo?

Mestre Yabadaba Buda

Pára tudo

Para quem acha que a vida não termina no domingo à noite, para quem concorda em não usar capacete num carrinho de rolimã descendo uma ladeira absurda e para quem acende todas as luzes da casa para apagar a solidão.
Para quem corre para sentir-se vivo e para quem vive sem correr e para quem escreve sobre as pessoas, para quem lê o horóscopo de manhã, paga o dízimo à tarde e se embola no santo depois da meia noite, para quem sonhou que voava e reclama que a pizza está sem orégano.
Para quem é um bundão.
Para quem sobe e desce escadas tão lépido quanto um gato medroso e abandona os amores no andar de baixo, para quem, do telhado, perde a conta no céu todas as vezes que passa uma nuvem e apaga as estrelas, para quem acredita que a melhor canção para uma despedida é um bolero do Agnaldo Rayol, para quem joga fliperama, pacman, War e mau-mau, mas não consegue ligar para pedir perdão.
Para quem pisa na grama e sabe que é sagrado tirar as sandalias em campo santo, para quem sente o coração acelerar quando ve a praia depois de um longo inverno com as bermudas pútridas de naftalina. Para quem também diz talvez.

Um Conto Chinês (Argentina -2011)

I

O filme começa com uma vaca desabando do céu sobre um pequeno barco chinês.

E isso é real, mas no Japão.

Na verdade, em águas territorias russas.

Um pesqueiro japones havia invadido as tais águas para pesca ilegal quando uma vaca vinda do céu afundou o barco.

Isso aconteceu em 1997.

Os japoneses foram presos na Rússia pela invasão e por supostamente estarem mentido para as autoridades russas, mas era verdade.

Após averiguações, descobriram que alguns soldados russos estavam roubando vacas e as transportando em aviões militares até que num desses vôos as vacas ficaram agitadas e para que não houvesse um acidente maior com a aeronave, resolveram jogar as duas vacas no vazio, uma delas acertou o pesqueiro japones.

A história chegou a ser publicada no diário Komsomolskaja Prawda.



II

A partir do vôo da vaca faz-se um filme maravilhoso com o sempre talentoso, eficiente e carismático ator Ricardo Darín.


Uma pequena obra prima nos seus detalhes e conclusões.

Uma bela história de amor e amizade. Massa.

E definitivamente, o cinema argentino é melhor que o cinema brasileiro.

KS Nei

Porque KS Nei?
Porque tem PJ Harvey, k.d. lang, T.S. Eliot, e.e. cummings e claro, INRI Cristo.
Bobagem.

Prêmio Jabuti





Muita honra.
Quem me dera ter um desse na estante.
Mas o logo de 2011 é infeliz.
Parece que a tartaruga tá fazendo xixi.

Sebo é bão



Todo ano leio, releio, folheio um livro de Gabriel Garcia Márquez.
Faz vinte anos que eu faço isso, ano por ano.
É um ritual, uma necessidade cerebral.
Muito mais da alma, se é que conta.
Em 2010 estive no Brasil e fui ao Sebo da Visconde, na cidade de São José dos Pinhais-PR, onde eu "moro" agora.
Nesse sebo achei um Gore Vidal por 5 reais. Esse García foi 2.
Tomara que o sebo esteja lá.
Coisa fácil de fechar é sebo, cinema, teatro.
É triste e conceitual.

Poemeu de zóio nas news de hoy

O Rei do Maranhão free feito um pardalzinho,
rato encontrado na Elma Chips,
explosão num buteco no Rio,
meia entrada or not
e toda semana, fuso horário legítimo e pontual,
chego na sexta-feira um pouco antes.
Se as coisas se relacionam, ora vá, que seja assim.
Se não, ótimo, aliás...

Mal mau humor

Escreveram pra mim:
- Fala sobre o Rafinha Bastos.
Falar o que?
Tudo já foi dito, até o que não deveria sê-lo.
Mas eu não assisto tv brasileira porque estou no Japão.
Quando estava no Brasil não assistia programa de humor porque nunca teve graça.
O melhor do humor está em não estar.
Pra mim, é só uma questão de público, tem gente que gosta do Vesgo, outros do Bussunda e outros do Costinha.
Aqui no Japão pouco assisto programa de humor porque não entendo as piadas japonesas. Algumas, quando entendo, não acho graça.
É isso.
Meu humor vive insuportável, deve ser por isso que ironizo tudo, de deus a bicha.
E acho que politicamente correto é enterro de papa. O resto é pagão.
Que bom.

Livrai-nos do mal, amém

Tudo bem, é ignorante.

Tudo bem, é supersticioso.

Ok, ok, é ignorante e supersticioso.

Mas ignorante e supersticioso na porta da minha casa, nem fudendo.
Eu calço a ferradura pendurada atrás da porta e te chuto até o inferno, mequetrefe.

São Várias Horas na Capital




Na janela havia um pequeno ponto branco.

Além do ponto, pombos pousaram no fio do poste e isso dava um sentido uníssono de ponto + pombo = transparência prejudicada num quadro 3D pintado tão aleatóriamente com são os caminhos da chuva.

A sombra de um avião voando baixo acariciou a parede do prédio do outro lado da rua - tão rápido, tão doce, tão sombra.

A cerveja esquenta na garrafa, o suor escorre pelo vidro marrom formando uma poça na mesa com o formato do Brasil.

Os pombos voam espalhafatosos/ruidosos com o estampido de um escapamento.

Impossível.

Em tempos de injeção eletrônica, motores não explodem como as kombis dos anos 70.

Ou os fuscas que diziam que botavam naftalina no tanque para elevar a octanagem do combustível e e fazer o besouro voar.

Se é impossível, o estampido é de tiro de alguma arma de porte médio, desses fáceis de comprar e mais fáceis de roubar e mais fáceis ainda de carregar.

Cinco balas, basta uma.

Sol de fim de tarde e os esquecidos levam as mão à cabeça porque o banco só abre amanhã.

Em tempos de internet o país vive uma fila única, do nascer ao viver, do viver ao guichê, do guichê à lágrima, do gol à expulsão.

As mãos na cabeça. O tiro foi ao alvo. Morte na via pública e nada além.

Ninguém é de ninguém.

Os pombos voltam e tudo parece em paz. Mas há um homem deitado na solidão.

A sua alma acaricia a parede do prédio em frente.

Sol de fim de tarde e celulares apontam e tiram fotos e não ligam para aqueles números úteis sempre com emergências de minutos de atraso. Nem ambulância, nem polícia, nem nada.

O homem não é mais homem.

Homens variam, desvariam, comem. cantam, vivem.

Este, de vida, só tem as roupas.

Basta um gole de cerveja quente, basta o mapa do Brasil.

Alguém pergunta que horas são, mas não para mim.

Não estou aqui, tudo é mera especulação.

Não vou entrar numas de metalinguagem.

Basta o mapa.




(Porque no dia 7 de outubro de 1990 pousei no Japão, faz 21 anos).

Mondocani e a mais valia

Quando Mondocani pensa em capitalismo e lucro e pensa que é causa e efeito da natureza humana e sob o microscópio dos primórdios protocavernosos, Mondocani leu em algum lugar que armazenavam para manterem-se aquecidos no inverno sem necessitar de mandar tudo pro inferno, Mondocani pensa orra, ou é isso ou vou pra Coréia do Norte.
Mas quando Mondocani vê uns trogloditas neanderthais escondidos atrás de crachás escrito patrão e sabe que eles estão fazendo Mondocani de bobo porque eles acham que grana é tudo, orra, que vá tudo pro inferno.
E eles para a casa do caralho que os pariu.

360 graus ao redor do Monte Fuji





O mapa da façanha.








Na área de descanso e serviços de Fujikawa, fomos recepcionados por palhaços que estavam na campanha para fazer do Monte Fuji um patrimônio da UNESCO.

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Nanci e eu a 2400 metros. Ao nível do mar, a temperatura ao redor dos 22 graus, lá em cima, entre 8 e 10 graus, além do vento cortante.









Última vista do vulcão pelo retrovisor do carro antes de retornar à Rota 139 para pegar a highway para casa.