O grande lance de 2011

Foto surrupiada do Facebook da Cris.


Muitas coisas bacanas em 2011.
Algumas, em contrapartida, bem chatas.
Outras - a maioria - cotidianas e usuais como uma torneira pingando.
Ainda bem.

Mas de tudo que vimos e fizemos em 2011, confraternizar com a Cris e o Daniel o nascimento do Gabriel foi um show de expectativa realizada e muitas, mas muitas feições de felicidades, como essa foto.

E também sou meio que testemunha. Quando estive no Brasil em 2010, o Daniel me confidenciara que era a hora de ser papai e que também era a vontade da Cris. Não de ser papai, mas mamãe, claro.

Tenho boas lembranças daqueles dias. Eles foram muito bacanas, gentis e excelentes anfitrões quando estive em São Paulo.

Enfim, o Gabriel nasceu e é o pioneiro da 4a. geração da nossa família desde o dia em que nossos bisavós sairam de Sunayama, extremo norte do Japão, para aventurarem-se no Brasil.

Espero conhecê-lo e vê-los em breve.

Feliz 2012 a todos nós.

Beleza?

Dane-se o tempo

Tinha um cara.

Esse cara estava atrasado.

Ele tinha uma poesia na cabeça.
Dane-se o tempo.

Esse poema falava e ecoava e ricocheteava.
Quase gritava.

Dane-se o tempo.

Sobre o frio

Nos ossos.

Na cara congela,
no vidro gruda.

Sem meias, morro.

Nos olhos o branco
no sono pesado.

Cuia de missoshiro
cuida de esquentar.

Nos ossos, na pele da
cara o tapa estilingue.

Água
quente quente quente
de chegar a sentir amor.

Frio no zero, no um,
lá pelos 5 ainda é frio.

Matinas cantante tiritando
por um café quente com as
mãos espalmadas
abraçando a caneca
cafeína irmã.

Cuia de sopa qualquer uma.

Sem meias, sou um ultraje.

Lá fora
estão
ventando
todos os
pontos de
Borges
num uivo só.

- Frio da porra, porra.

Mondocani e essa época

2011 foi um ano. Menos um.

Cada ano que passa Mondocani sabe que é menos um de vida. Menos um do distante marco zero em que nasceu. Mondocani pensa assim sobre os minutos. Sobre as esquinas também. Sobre as pessoas que poderia ter dito "ei, você tem mal hálito" ou "por favor, fale menos o pronome eu" ou "seja mais legal, menos babaca".

Mondocani pensa nos instantes que ele mesmo viveu e que foram disperdiçados com coisas irrelevantes como o tempo gasto nas prateleiras de tênis e calçados, escolhendo molhos de tomate ou assistindo programas ruins de tevê aos domingos.

Mondocani pensa que isso pode ser uma atitude bastante pessimista, mas sabe e crê que certos otimismos são uma forma muito séria de racionalizar para o nada.

Mondocani não acredita no invisível. Nem em forças universais. Não acredita que todas as pessoas estão fadadas à felicidade e alegria.

Mondocani sabe que muita gente, a imensa maioria está aqui apenas porque foi parida e nem sabe porque está aqui depois que foi apenas parida.

Vida de merda, pensa Mondocani.

Olha aquele ali com a pastinha, o terno, a gravata e deve estar cheirando a alguma lavanda vencida que passou na cara de manhã.

Olha aquela outra com os óculos comprados num desses outlets de barganhas chinesas.

Olha as paredes, os muros, os blindados, as grades, os porteiros, seguranças, walkie-talkies, krav magá, coldres, senhas, olhares e medos.

2012 virá com tudo, espera Mondocani.

Muita gente vai morrer em 2012. Muita gente famosa. Muita gente anônima vai nascer em 2012 e será muito famosa mais pra frente. E depois morrerá.

2012 será inteiro esperando acabar logo para que os maias estejam tão errados quanto estava Nostradamus, o visionário cafona.

Mondocani acha que o calendário maia acaba em 2012 porque as pedras onde eles esculpiam os calendários acabaram durante a execução do trabalho e que no meio dos Andes, carregar qualquer pedrinha é mover um Pão de Açúcar.

Por isso 2012. Poderia ser 60765. Ou 1.

Mondocani quer apenas assar uma carne, dar pulinhos nas ondas do mar, tomar um espumante e sonhar no um segundo que separa o ontem do amanhã.

Esperar o amanhã é melhor que vivê-lo, pensa Mondocani.

Brindar e brincar de ser feliz.

Mais que isso é otimismo irracional.

Talvez em 2012 comece um livro, conclui Mondocani.

Norte

As pessoas choram compulsivamente a morte do líder norte coreano.

O ocidente ainda está em dúvida sobre a veracidade das lágrimas do povo, das imagens transmitidas pela tv estatal de lá, se são ensaiadas ou não.

Bicho, ou chora, ou morre.

Pois bem, a última emitida pelo governo deles foi que até a natureza chora a morte do tampinha.

Aliás, festa free no céu desde então.

Você achou que era no inferno?

Nem no inferno querem aquele trapo.

Barça

To lendo por aí que o Santos representou o futebol brasileiro em Yokohama e por conta disso o futebol brasileiro foi humilhado nos 4 x 0.
Papo furado.
Destronado de seu pedestal de ar foi o time praieiro e só.
Além do Muricy que se acha o Einstein do vestiário.
O time praieiro não representa o futebol brasileiro, representa a si mesmo e sua torcida.

Eu já sabia que ia ser um show do Barça.
Se eles deram show com meio time reserva na semifinal, que dirá na final.
Quatro gols sem atacantes fixos, 70% de posse de bola, em média. É show.

Uma coisa é certa, não seria diferente com outro time brasileiro, nem como Timão.

Também tão dizendo que a torcida Corinthiana, por não torcer pro Santos, é anti-patriota.
Eu digo por mim, nunca fui patriota, torço pro Timão e pra Seleção.
Então, vão todos lamber o Vasco que também é vice.
Não torci pro Barça. Torci pra ter um jogo de 5 x 5, 10 x 10.

Mas foi um peso pesado e um sparring miúdo.
Que pena.

Paulistanos que se cuidem, os preços praianos serão abusivos por conta do mal humor.

O Barça é a Holanda que vence.

Mondocani está cansado neste Natal

Mondocani leu na internet que morreu o Sérgio Britto. O ator, não o músico dos Titãs.
Mondocani também não sabe se o ator tocava algum instrumento ou se o músico já atuara em alguma peça, filme ou propaganda de tv. Isso poderia confundir as partes, o morto e o vivo.
Mondocani se pergunta se o fato de alguém saber tocar algum instrumento musical, seja gaitinha ou flautinha soprano de loja 1,99 o faz merecer o título de músico.
Ou também se alguém que aparece numa propaganda de tv segurando uma lata de chocolate em pó o faz ator.
Mondocani sabe que o ator morto fez uma adaptação de uma peça que virou uma outra adaptação chamada "Águas Claras".
E as águas desse palco contribuiram para o alterego de Mondocani ser quem é.

Isso merece um solene respeito ao homem e artista Sérgio Britto.

Mondocani também leu que morreu um carnavalesco.
Mondocani já tinha lido em outro lugar - e em outra ocasião - que quando morre um carnavalesco, ele vira purpurina.
Também leu que a presidente Dilma disse que o carnaval ficará mais triste com a morte de Joãosinho Trinta.
Mondocani gostaria de perguntar a ela: mas Presidente, carnaval não é triste?

Morreu aquela cantora Évora.
Dizem que o som era bom. Mondocani nunca ouviu nada assim assim.
Mondocani percebe por aí que as pessoas louvam os mortos por suas obras enquanto vivos. Parece óbvio e é.
Mas não dá pra louvar o trabalho de alguém que não lhe apetece o coração ou que lhe fez mudar tanto enquanto tocava no rádio do carro que o faz virar uma esquina errada ouvindo tal canção.
Essa moça Évora merece mesmo descansar.

Mondocani também está cansado, mas vivo.

Tem também o cachorrinho que foi espancado. Mondocani assistiu o vídeo numa manhã, tomando um café preto e forte.
A cafeína e a cena nauseabunda reagiram de tal forma na cabeça de Mondocani que ainda não passou.
Provavelmente a cafeína já tenha virado xixi, mas a vaca arrombada daquela biscate de Goiânia espancando o cachorrinho ainda não.
Enquanto via as cenas, Mondocani pensava numa canção do Roberto.

"Quero ver você de perto, quero ver você de perto".

Se Mondocani visse aquela mulher de perto, sabe que não ia ser nada bom para ela.

Nem para ele. Provavelmente iria puxar uma cana depois de vê-la.

Em várias partes do mundo, a arte ficou menor por conta dessas três mortes.
E o coração das pessoas muito menor por causa da dor do cachorrinho.

É, Feliz Natal.



Ardil

Sobre o silêncio que não existe.
Existe um infindável barulho de eletrônicos imitando silêncios.
Existem luzes apagadas e escuridão dentro da escuridão.
Coisas. Livro fechado no colo, chuvas e guarda-chuvas, perfil de gente triste.


Vivas, as mãos estão vivas e tocam as paredes pensando em envelhecimento.
Não te vejo faz tempo. Nem você, você e você.
Lixo humano no planeta Marte. Multibilionário detrito teórico.
Praia vazia não enerva ninguém.


Mas eu grito.
E nada acontece.
Independente.
Solo de trombone ultrapassando o limite do ponderável.

Caminhões com suas sombras imensas escondem o sol.
Sol sozinho. Sempre pensativo.
Fui até o mercado e comprei berinjelas.
As berinjelas me acompanharam quietas até em casa.

Ardil.
Um dia caiu uma ameixa num manjar e de lá nunca mais saiu.
Ardiloso.
Há quem vá e volte. Há quem venha e fique. Há amor.

De invernada

I
Estou há dois dias com isso na cabeça:
"É como se a cada dez minutos passasse um índio velho gritando:
- Ôu! Ôu!
Gritei de volta. O puto era surdo."


II
Hoje comemos salmão grelhado. Tudo é muito bom, a cor, cheiro, paladar, textura. Jogo orégano por cima, azeite e está pronto.
Fiquei com vontade de comer salmão por causa de um documentário que assisti sobre o Alaska, seus ursos e a piracema dos salmões na primavera.
Mesmo com aquela cara de bobo, o urso pardo tinha uma expressão feliz de saciado.
Acho que a cara larga junto com os olhos juntos fazem do urso um bobão-souvenir meio parrudão e mal humorado, solitário e guloso.
Todo mundo teve um urso de pelúcia. Todo mundo que é urbano. É como joelho ralado.


III
Joelho Ralado seria o nome que eu daria a uma banda.
Ia encher os culhões de pedais de distorção, plugar a guitarra e imitar as performances do Sonic Youth.
De todas as coisas feitas pra se chatear, acho que tocar em bandas de rock é a melhor. Depois vem livro ruim de autor bom. A gente lê até o final pra depois inflar o peito pra dizer que nesse ele derrapou. Nessas horas é importante ter mais de um na manga porque alguém vai citar um trecho bom e te derrubar. Você dá um gole - ou uma garfada, são pausas com timing perfeito - e cita outro livro de outro autor. Pode ser uma mentira. Não pode ser uma coisa pedante tipo Goethe. Tem que ser no nível e padrão do autor controverso amado/odiado. Se o cara citar outro trecho novamente, aponta o dedo mal educado das duas mãos e fura os olhos dele. Pelo menos acaba a amizade. E ele nunca mais vai te ver. Ou ler.


IV
Depois do salmão é importante ter um pedaço de chocolate por perto. O aftertaste é insuportável. Peixes em geral levam essa maldição.
É pior que lamber joelho ralado, juro.


V
Como é que uma pessoa racional pode acreditar que energiza um copo d'água com a mão? Se mãos fossem essas antenas de superpoderes mágicos, imaginem o poder de cura daqueles canos do teto de ônibus. Uau.


VI
Ontem assisti um filme brasileiro onde o diretor tentou usar a cidade de São Paulo como personagem.
Acho isso uma das coisas mais difíceis de se fazer. São poucas as cidades que se deixam filmar com essa clarividência de intenções. Algumas cidades são muito iguais a outras ou são muito feias em suas diferenças.
Em algumas cenas, principalmente nas iniciais, acaba-se confundindo de cidade ou só quem passou por ali sabe que ali é ali.
Filmar alguns prédios famosos num rasante de helicóptero é uma patetice clichê.
São Paulo vira uma anedota de cidade grande porque mesmo sendo tudo isso que sabemos que ela é, seu provincianismo ainda insiste em ser doce, cinza e nublado.
O filme era ruim, na verdade.


VII
Domingo à noite pode ser paulatinamente desgraçado. Pode ser.
Para conformados e inconformados é o pouco a pouco sob efeito de sedativos que não fazem efeito algum.
Pior que domingo à noite é olhar por relógio e ver que já são dez minutos da segunda.


VIII
- Porque eu? Porque eu? - Pergunta o índio surdo.

PPP - Pés punks (not) podres

A maioria das pessoas não sabe, mas eu tenho um par de sapatos. Não estão aqui nos meus pés, estão ali no armário, na caixa original por onde vieram. Esse par usei apenas uma vez, com eles fui a um casamento em Tokyo. Ña verdade, fui como sempre fui, de tênis, All Star, preto, cano longo.
Lá em Tokyo calcei o par de couro, solenemente, tão importante e sóbrio como uma madre superiora.
Não tenho nada contra sapatos sóbrios e importantes. Até gosto do conjunto terno, gravata, camisa branca e um belo par nos pés. Acho tudo muito próximo de uma guerra num filme de ficção científica, uma coisa meio Matrix, o Senhor Smith ou os Homens de Preto. Massa. Posso acabar com o Neo ou com esponjinhas tagarelas que moram no Bronx, em New York.
Pode ser um show do Nick Cave também.
Mas prefiro tênis. Gosto muito do solado de borracha macia me mantendo em pé. Não que eu seja um esportista, longe disso.
O fato é que o tênis é a quintessência do foda-se.
Como depois dos quarenta o foda-se destina-se aos milionários ou ídolos de rock (lê-se claramente Keith Richards ou Iggy Pop e outros raros), resta-nos os tênis nos pés como bandeira.
Calçar o All Star preto cano longo é fazer o ritual e reza para a capa do disco dos Ramones. Isso basta e engrandece, faz o dia. Se for um sábado, vira dois.
Calçá-los é gritar por dentro o gabba gabba hey e manter o coração com quinze anos. Um foda-se utópico e pequeninho, mas constante.
Yeah.

PS. Mas se eu fosse milionário, teria o enorme prazer de usar meias novas todos os dias. Todo dia um par novo. É antiecológico, fibras, poliéster, cachemira, etc. Mas foda-se.

PENTA CAMPEÃO BRASILEIRO! (De verdade)


Sócrates Brasileiro Sampaio de Sousa Vieira de Oliveira

Foi o jogador mais inteligente que já vi jogando, articulando, passes precisos, gols magistrais, dribles desconcertantes.

Passes tão perfeitos de frente e de costas que foi o melhor toque de calcanhar de todos os tempos.

Capitão da melhor seleção brasileira que já assisti.
Valdir Peres, Leandro, Oscar, Falcão, Luizinho e Júnior.
Nocaute Jack (massagista), Sócrates, Cerezo, Chulapa, Zico e Éder.  

Pelé? Não.
O nome dele é Sócrates, o Doutor.

Líder e mentor da Democracia Corintiana.
Elisa (torcedora símbolo), Solito, Sócrates, Ataliba, Casão, Zenon e Biro Biro.
Mauro, Daniel González, Alfinete, Paulinho e Wladimir.

Pra sempre, pra sempre.

Yabadaba Buda 6

- Você nunca viu uma árvore crescer? Ouve, ela grita por espaço.

- ...

- É por causa do barulho do pensamento, atrapalha mesmo.