Lista de livro, no way

Lista de livro pra ler no ano seguinte. Nada a ver.

Um livro chama o outro.

Num dia, crônicas de João Ubaldo. Quer mais, quer mais crônicas e acha um de pequenos contos do Guimarães Rosa e aí você tá conversando com um amigo e aparece um escritor russo do começo do século XX que você nunca ouviu falar só porque o cara escreve sobre os sertões da Sibéria com a mesma maestria do nosso Rosa.

Na semana seguinte, o russo.

Aí alguém fala de Boris Pasternak, outro russo, e o livro/filme Dr. Jivago e o papo fica ao redor de cinemão da era de ouro de Hollywood e acaba na sexta-feira lendo sobre os bastidores das filmagens do Godfather do Copolla. E assiste Pulp Fiction, do Tarantino.

Daquele escritor russo do mês passado, sobrou um filme que foi baseado no livro e foi dirigido pelo Kurosawa. Acha num sebo um de haiku e koans zen budistas e fica flutuando 10 cm acima do nível das colchas. Aproveita e encaixa um Quintana, um Tornaghi e aqueles poemas que o amigo mandou pra você dar uma olhada e soltar uns pitacos.

Iwata shi, Japão. Numa onda entre Guimarães Rosa e Kurosawa.

Termina o Quintana, pensa nos gaúchos e começa a rir com Luiz Fernando, embalado pelas crônicas do João Ubaldo de dias atrás. Depois, ainda gaúcho, tira a poeira do uruguaio Galeano e fortalece seus vínculos com a madre américa. E vai. E volta. Nessas idas, Allen Ginsberg e a melancolia poética do asfalto da outra américa.

No meio da primavera está sentado na varanda gargalhando com aqueles dois Asterix que sempre são a poção mágica.

Axterix chama Baudelaire.

E.

Frio dozinfer parte 2

Vento animal vindo de tudo quanto é lado.
Vento sacana que entra no miolo das roupas até encostar na pele e feito navalha de Plínio, corta as carnes sem dó, sem pensar no calor de um mísero palito de fósforo.

Cheguei em casa agora.
Sai do trampo e fui ali no mercado comprar tomate-cereja.


Naquela geladeira-prateleira de queijos e iogurtes e leites e picles e essas coisas, estava quentinho, aconchegante, quase um spa na Bahia.

Tem a parte dos peixes que no Japão é uma prateleira quilométrica e dava até pra pegar um bronzeado e escolher um sashimi de atum.

Geladeira quente, maravilha.

Peguei-paguei o tomate-cereja em copo - comprei porque estava num copo, claro - e saí para o estacionamento, puta merda, congelei de novo.

Não está nevando, nem com ares de geada, nada disso. E também acho que quando neva o frio não é tão intenso, deve ser porque quase nunca neva por aqui e quando acontece a gente fica todo bobo tirando foto.

E desde novembro, no começo desse inverno eu acho que o inferno é um lugar gelado com todo mundo de sunga e blusa de lã molhada com estalactites caindo na cabeça pela eternidade  gelada.

E olha que eu gosto de frio.
Bem, gostava.

Puta frio dozinfer

Gelo gelado.

Frio pra caralho.

Pra caralho!

Sem essa de noite feliz.

Nesse frio o natal é uma merda de frio,

frio pra caralho.

Vizinhos


É um casal de velhinhos simpáticos e calados que atravessam a rua para cuidar da horta que tem cenouras, nabos, cebolas e berinjelas. De vez em quando eles colocam num cantinho ali e vendem por 100 yenes (2,50 reais) um saquinho com cinco ou seis. É, a vida não anda fácil.

Me encontro com o velhinho nas terças, quando jogamos o lixo queimável. Dizemos apenas bom dia. Algumas vezes, apenas nos cumprimentamos com a cabeça. Ele vem com o carrinho de mão carregando os sacos de lixo, isso já faz alguns meses. Deve ser a dor na coluna, ele tem andado mais curvado ultimamente.

Ele dirige mal, já não enxerga bem. Esse murinho à esquerda com tijolos aparentes tem bons e nítidos riscos na altura de um para-choque.

Quando a velhinha está estacionando o Suzukinho, é melhor dar a volta no quarteirão, principalmente se for à noite. Nas noites de verão quando eu saia mais assiduamente pros rolês de bike, eu a via tentando estacionar, não conseguindo e finalmente telefonando para ele, que saia de casa, vinha até a rua e fazia os sinais de vem e pára até que começassem a discutir sobre os procedimentos de ré e pra que lado do volante girar e dois ou três carros parados esperando pacientemente pelo entrave até que sabiamente, a velhinha deixa o velhinho sentar ao volante e estacionar, raspando o muro, evidentemente.

Numa dessas noites de verão a vi descarregando vasos de ikebanas.

É muito comum nos centros culturais dos bairros acontecerem diversos cursos para os moradores, idosos ou não. São cursos de ikebana, manuseio de computador, ginástica, música, dança havaiana, inglês, outros. Tem até português.

Os preços variam, podem ser o equivalente a quatro ou cinco saquinhos de berinjela por aula. Nesses centro culturais também há quadras poliesportivas e muitos brasileiros alugam para vôlei  basquete e futebol de salão. Não mais que as tais berinjelas por cabeça.

A única ordem pétrea é limpar o local de uso, quadra ou classe, varrer, passar o pano de chão com os rodões, guardar as traves, enrolar as redes e entregar as chaves na hora prevista. Simples como ter os impostos sendo usados de maneira correta pelo estado. Um dia a gente vai entender  melhor esse conceito e aplicar com qualidade no nosso dia-a-dia no Brasil.

Hoje de manhã saí para dar um rolê de bike, apesar do frio e vento, o sol convidava. Na ida, não havia a bandeira japonesa no alpendre da entrada da casa dos velhinhos. Eu já sabia que no dia 23 de dezembro comemora-se o aniversário do Imperador Akihito. Quando voltei, encontrei a bandeira a meio mastro. Fiquei preocupado. Logo pensei na morte do Imperador, no começo do ano ele passou por diversas cirurgias, afinal é um homem de 79 anos, enfim.

Entrei em casa e liguei a tv. Nada.

Depois percebi que a bandeira estava a meio mastro porque eles não alcançam o topo. Simples.

Ansiedade de catraca

Dorme no sábado com o ingresso no carteira e a carteira na calça e a calça na cadeira e confere a carteira na calça na cadeira pela terceira vez pra ver se o ingresso está lá.
Está.
Escolhe a camisa, vai de branca Batavo, pousa suavemente sobre a calça na cadeira.

Dorme.
Acorda domingo e confere a carteira. Tudo em cima, sempre.
Café da manhã, tv ligada, quer saber se tem alguma novidade no trânsito, no tempo, na vida.
Nada, tudo igual a um céu claro,
domingo de restaurantes lotados,
praças e folguedos, parques e algodão doce.
Churras gargalhada e tulipas lotadas.

Pega o metrô com os amigos e os amigos dos amigos do amigo dos amigos.

Cantoria e batucada, em cada coração o guerreiro do cavalo branco matando o dragão.

Cantoria e batucada e batucada e cantoria.

O Zé, o Migué o Mané, o José, o Miguel e o Manuel. Bandeiras! Alvinegras!
Os remos cruzados no brasão das tradições e glórias mil.
O Gavião. As listras paulistas, a âncora vermelha,

1910

O Sport
o Club
o Corinthians
o Paulista

O coração bate tanto que parece um zunido.
Bate a mão na bunda e encontra a carteira e confere se o ingresso está lá.
Na catraca do nosso estádio municipal o zunido está na velocidade da luz, a garganta está seca,
a cabeça sem dono e sei lá.

Passa pelo funil, o brilho que só o Pacaembu tem entra pela retina e vira um grito que vai durar noventa minutos, noventa séculos, noventa mil gols.

Faz coro ao primeiro canto de guerra que ouve, se ajeita onde dá, agora só quer ver o Timão sair do túnel e a vida, bem, por enquanto, deixa pra lá.

O nome do China

Pro Marcinho eu era o Coreba. Ele dizia que eu não era japonês, mas coreano. O Marcinho é mineiro de muito longe, lá do Jequitinhonha.

Nunca fui pra Coréia e acabei vindo pro Japão e conhecendo um chinês maluco que diz que eu sou maluco.

Quando a gente está no Brasil e encontra alguém do Extremo Oriente e acha que ele é exótico, bem, exótico é encontrar o cara do Extremo Oriente no extremo oriente, tipo na última estação do Expresso Oriente, mais ou menos onde a Agatha Christie diz quem é quem.

Li em algum lugar que apesar da China ter uma população dez vezes maior que os 128 milhões de japoneses, o número de sobrenomes na China é de apenas 4000 e no Japão, entre 80 a 100 mil.

Meu sobrenome é Schimada (島田), mas existe Tajima (田島), ou seja, basta inverter os ideogramas, por isso essa multiplicação de sobrenomes no Japão.

Veja, são um bilhão de chineses com apenas 4000 sobrenomes. Repetem e repetem e repetem.

O sobrenome mais comum é Wang. São 90 milhões de Wang na China, quase meio Brasil.

Só em Beijing, são 10 mil Wang Tao.

Na China, o legal é ter um nome com apenas dois ideogramas. Quando vão registrar o bebê, eles verificam se na região não há algum xará. Como por lá tudo é superlativo (é!), encontram sempre uns 300, só naquela rua. Então o escrivão diz que não dá. Colocam mais um ideograma e encontram apenas  130, então tudo bem.

Os ricos geralmente têm dois ideogramas porque abrem a carteira.

Outro dia perguntei ao Dragon (蒋朝龙, Jiang Zhaolong, Dragão Matinal) se ele tinha alguns amigos com nome de Mao Tse Tung ou Lao Tsu ou Kun Fu Tzu, ele disse que era proibido, que apenas esses grandes homens poderiam chamar-se assim. Ficou bravo. Na verdade ele fica bravo toda hora. Por lá deve ser comum ficar bravo à toa.

Tampouco conheço Jesus ou Sidarta ou Krishna. E também só conheço um Ariano Suassuna e um Francisco Buarque de Hollanda, por exemplo.

O chinês mais famoso do Brasil é o Zizao, meia atacante do Corinthians. O Dragon nunca ouviu falar dele. Mandei foto, vídeo, não adiantou.

O Dragon ficou muito bravo quando descobriu que dragão é gente feia no Brasil. Eu disse que homem dragão é o cara que fala alto, fortão e que a mulher dragão é feia. Ele gostou, desconfiado, mas gostou.

O Dragon faz estágio onde trabalho. Se ele souber que estou falando dele, ele vai ficar muito bravo. Esqueçam tudo.

Fuleco?



O mascote da Copa de 2014 é um tatu-bola.

Deram o nome de Fuleco pro bichinho.

Coisa de cu.

Fuleco é uma mistura de FUteboL + ECOlogia.

Coisa de cu de burro.

Mais futebol e ecologia que TATU-BOLA é impossível, cu de burro.

Como disse o meu amigo radialista, daqui a pouco vão começar o slogan "VOLTA TEIXEIRA".

Nem.

Mas Fuleco é de doer. O Ricardo voltar é pior.

Na verdade, o mato tá sem cachorro e praticamente ficando sem mato.


Preto e branco em technicolor



Seremos dez mil do mundo todo. 

Mais que isso, nós seremos todos os onze em campo vestidos de preto e branco com toda a América abaixo dos cascos do cavalo de São Jorge.

Jorge Henrique Guerrero é o nosso ataque. E pode ter um Sheik.

Espero que o meu grito de gol exploda muitas vezes nas duas partidas e que ecoe ecoe ecoe.


Batman

Bate covarde.
Bate martelo.
Bate omelete.
Bate tambor.
Bate bolo.
Bate prego.
bate punheta.
Bate lata.
Bate a cara.
Bate no poste.
Bate de frente.
Bate de três dedos.
Bate de trivela.
Bate de peito.
Bate de curva.
Bate de chapa.
Bate de jeito.
Bate com gosto.
Bate o sino pequenino.
Bate até virar manteiga.
Bate clara até virar neve.
Bate o reflexo do sol.
Bate o reflexo do sol no espelho.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro com a minha família.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro com a minha família naquele prédio.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro com a minha família naquele prédio onde tinha um jardim.
Bate o reflexo do sol no espelho da vitrine na loja de roupas usadas do outro lado da rua onde moro com a minha família naquele prédio onde tinha um jardim e agora não tem mais.
Bate o reflexo direto na minha cara.
Bate o reflexo.
Bate direto.
Bate na minha cara.
Bate covarde.

Onde todo mundo é ninguém

Onde está o passado?
Os cheirosos homens de negócios?
Os carros de muitas portas, botões e brilhos?
A ralé?

Onde estão os prédios de vidros tensos?
As bonecas de pernas abertas?
As figuras de honra e terror?
O camelô?

Onde moram os disso e daquilo?
Onde plantam orquídeas e impérios?
Onde gozam sem gota de amor?
O perdedor?

Todos, todos!
Ninguém, ninguém!

Reencontro anunciado



Toda vez que eu volto do Brasil, trago muitos livros.
Como as empresas aéreas nos dão o direito a duas malas de 32 kg, saio no lucro.
O problema é que chego em casa e vou ajeitando os livros nas estantes, onde tiver espaço, daquele jeito. 
Fiz isso em 2010 logo que voltei, depois dei uma organizada e outra mais recentemente. Nessas mexidas, com os títulos mudando de lugar, sempre some um ou outro que ainda não li. Não é sumir de puf!, é sumir de ir parar nas prateleiras de baixo, que são as piores para ler os títulos na vertical.
Aconteceu isso com esse aí em cima. Deve ter mais por aí. 
Achei-o no Sebo da Visconde, um dos meus lugares prediletos em São José dos Pinhais. Já disse isso, gosto de dizer isso. 
Nem lembrava dele. Tinha uma ligeira impressão que tinha mais um Drummond por aqui, mas era como se fosse um sonho de cochilo, uma imagem etérea distante, uma lembrança esfumaçada como são algumas depois dos quarenta.
Foi uma grata surpresa. Agora é saborear.



Só para constar, terminei de ler esse.
A gente escuta uma canção dele e cria as nossas próprias construções, folhetins, Genis.
Quando alguém se propõe a organizar uma publicação assim com outras tantas percepções e entendimentos, nos faz lembrar da diversidade possível e impossível que a lírica, qualquer lírica carrega.
Essa é a grande roda-viva para lermos e escrevermos mais.
Também é legal pra matar saudades, desempoeirar o acervo, gastar a agulha da vitrola e encher o ar de Chico Buarque.


O rio


O rio transbordou borbulhou, a casa voou e a sensação que deu foi de puro riso – o rio - por causa das bolhas, gargalhadas frouxas, férias sem agendas, nem dias nem noites, só idas e vindas e toques de do-in e pétalas e circos, suores por um fio, pelicanos vivos, porcelanas alvas, fios coloridos, filhos coloridos, folhas coloridas, fitas coloridas, fênix colorindo.

O rio correu margens, dezessete afluentes, loucas e ávidas pororocas roucas, Muddy Waters barros, barro, potes de límpida e fresca, a moringa me ensina sobre o céu, as nuvens, a chuva de refrescar a cabeça e a nossa visão distante e contente do fim sem fim do horizonte que não termina para qualquer lado que aponto o dedo que dedilho o pinho e sacudo a bunda rhythm num blues.

O rio por baixo da ponte empurra a sombra e não empurra a sombra e não move nem um palmo de nada, nem ar, nem sereia, nem mãe pai d’água ou a terceira margem de Guimarães que é rósea, o Rosa garoto descabelado compondo versos, linhas, tintas, preces, frestas, vias, cordas, minas, Minas, manos e mimos sob a sábia sombra de tênues retas linhas abusadas.

O rio do homem segurando a coleira, o cachorro – bravo ou manso ou cadela, o homem passeia assovia cantando o Rio que cabe num azulejo ou partitura, que sabe doces e drinks, que se presta pleno aos bons homens de caneta no peito porque o poema está no peito e porque o Brasil não é perfeito, mas é totalmente perfeito e nada lhe é igual e nada merece mais ter um país dentro de si que um ser possível pensando num rio.


Os livros

Minha prima escreveu-me sobre os livros, da minha mania em adquiri-los, tê-los, lê-los. É um fetiche, como diz Caetano.

Gostaria que mais pessoas lessem e vibrassem como se estivessem assistindo a um programa de auditório ou uma partida de futebol. Posso não estar gritando gol a cada linha de um poeta favorito, pelo menos por fora, mas a minha alma veste a camisa e carrega a bandeira por tal literatura e vibra e urra a cada passe certo, parágrafo impecável, gol de letra.

Não é possível crer que Mário Quintana, por exemplo, tenha menos público que o Faustão. Também não quero que as pessoas  larguem o frugal do domingo para enfurnarem-se em poesia, não! Não sou um líder comunista querendo uma revolução cultural nos moldes chineses. Mas muita coisa seria muito melhor e mais esclarecida se mais pessoas lessem e adquirissem o hábito de tê-los por perto.

Há mais farmácias que bibliotecas e livrarias por município brasileiro. Quiçá no mundo. É natural que as pessoas preocupem-se com a saúde ou que estudantes optem por virarem farmacêuticos ao invés de bibliotecários. Dá mais grana. Mas poderia ter mais um pouquinho.
Em 2010, 93% dos municípios brasileiros tinham uma biblioteca pública. No mesmo ano, apenas 28% tinham uma livraria.

Gosto de cheirar livro, novo ou velho. Os da minha estante estão com o cheiro da minha casa, não contam. Valem os velhos que chegam dos sebos, aqueles esquecidos no alto da prateleira mais profunda.

Cheiro de livro velho me remete a dois personagens, um de literatura, o cigano Melquíades, de "Cem Anos de Solidão" e outro de cinema, o intelectual Dedo Torto, de "A Excêntrica Família de Antônia".
Tem também uma lembrança rasteira de Hermann Hesse porque quando li "O Lobo da Estepe", algumas páginas estavam ligeiramente emboloradas.

Achei uma Cândida Erêndira, do Garcia Marquez por 1 real num sebo em São José dos Pinhais, no Paraná. Fiquei espantado e fui ao caixa conferir. A moça me explicou que era do tempo do FHC, quando o real quase parelhava com o dólar, por isso o preço. Esqueci de reajustar, ela disse, mas tudo bem, pode levar.
Foi no Sebo da Visconde, acho que o local que mais matei o tempo quando estive por lá.

Tem os livros novos.
Os livros novos têm aquele cheirinho doce de tinta fresca guardada em milhões de letrinhas ordenadas para causarem emoções ou ensinarem a agir.
Basicamente, livros são feitos para ensinarem a agir. Todos, ficção ou não.
A gente aprende a amar, construir casas, salvar vidas, conduzir automóveis, curar soluços, gargalhar, chorar, escolher cachorro, ter requintes, ter bugalhos, criar um paraíso no quintal, no olhar, nos gestos, na vida.

Hoje vou começar um livro novo de um autor inédito para mim, o Eduardo Tornaghi, presente de uma amiga escritora que carinhosamente se preocupou em remetê-lo para que eu pudesse entender um pouco mais da arte mútua.
Dei uma folheada e uma cheirada e olha só, já estou escrevendo sobre ele antes mesmo de lê-lo.

Vejam vocês o que causa um livro.

Ok, você venceu: batata frita!

Daqui a dois anos vai rolar eleição pra presidente, governador, patatá.

E se o moço que venceu na cidade de São Paulo inventar de sair candidato a alguma coisa e o partido disser ok, você pode, será a ordem natural das coisas políticas no cargo trampolim que é ser prefeito dessa cidade.

Isso é uma falta de respeito com a história dos que morreram defendendo a Constituição em 1932. Defender a Constituição contra a ditadura getulista é o maior legado histórico e político dos paulistanos. Ir contra esse fato é estapear a cara e o orgulho das pessoas da cidade.

Mas se ele for até o fim e cumprir os quatro anos, não fará mais que sua obrigação com milhões de pessoas.

Pessoas porque eleitor é palavra para estatística, pessoa é todo mundo, tia, mãe, pai, amigo, cobrador de ônibus, aquele ali, eu, você e o prefeito, até quem não votou nele.

Então, Sr. Prefeito, cumpra com sua obrigação.


Senhores candidatos

Senhor José Serra e senhor Fernando Haddad, não gosto da política de vocês, da conversa e do discurso de vocês. Não gosto dos partidos políticos de vocês. Não é nada pessoal, de verdade.

Mas amo a minha cidade. Muito.

Por isso não importa quem ganhar ou perder, pra mim ambos são piores. 

E por isso mesmo, não fodam com a minha cidade.

Debate

Acabei de assistir o debate dos dois candidatos da minha cidade.

São dois chuchus de terno e gravata.

Pobre São Paulo.

Imagens

Noite clara de lua muito branca dos olhos fecharem de tanta lucidez.
A lua entra pela janela e desenha a janela no chão de tatame.
O tatame abraça a lua e abraça a imagem e não cabe em si de tanta felicidade.

Eu queria um maço de rosas nesse meio de conversa 
mas as rosas, as rosas são as rosas.


UIA!


Sério que isso é sério?

Houve um tempo que o sindicalismo de situação era peleguismo.

Mas ser do sindicato do partido da situação não é peleguismo não!

A situação é sagrada, a mais farta sabedoria política e social, a mais culta das ordens públicas do ocidente, a mais mais.

Votar na oposição é ato fascista. Não ter vínculos com a situação é ato fascista. Não curtir a situação é ato fascista.

Ir na casa do Maluf prum beija-mão em troca de minutos televisivos é ato revolucionário. Putz, cara, total.

Não, eu não gosto da oposição, do partido de oposição ou do candidato de oposição. Eu não gosto de ninguém desse jogo de atrevidos.

Não, eu não voto. Só constato e reclamo.

Regina Rainha



Estava estou escutando Elis.
Estava porque tocou no carro e depois toquei de novo, cheguei em casa, botei de novo e agora to aqui todo todo.
Essa coisa de mp3 em modo aleatório traz as benesses da absoluta surpresa - e satisfação.
São sensações, diria o Rei.

Elis é um Brasil tão grande que transporta em si mais que o Brasil, transporta uma América inteira, um chão que cheira e soluça a saudades, comidas, amigos, vozes, grãos de areia na unha do dedão do pé.

O mínimo e o máximo sob a luz de serem um tudo total.

Lar.

Quero a floresta em lugar da cidade, ela diz. Ela sempre dirá, pra sempre.
Eu também quero.

Nessa afirmação está implícita essa vontade imensa de ver coqueiro e samambaia e gritar as palavras coqueiro e samambaia e todo mundo entender mas não compreender porque estou gritando coqueiro e samambaia.
Ah, nossas ruas e a minha gritaria.

Não importa. Mas gritarei.

Frases muito biitinha

I

Tem uma que eu adoro que vira e mexe aparece no social, que é

"Em país desenvolvido não é onde pobre tem carro.
É onde rico utiliza transporte público".

Beleza. Ô. Ainda mais se a frase vem acompanhada da foto de um busão com conforto de classe executiva de um Airbus. Aí é fácil.
Se isso é uma referência ao Brasil, a São Paulo, à capital, fico pensando no transporte público que temos por lá.

Se rico, a classe média emergente, a estabelecida, os pobres, a sociedade em geral evita usar o busão nacional, o metrô nacional, o trem nacional, é porque não cabem. E porque se os pobres estão comprando carros, é porque aquilo é ruim mesmo.

Então não adianta vir com frasezinha com pseudo-efeito social.

Mesmo morando longe, concordo que o trânsito está horrível e é um caos de milhões de motores ligados, escapamentos cuspindo e pessoas em aquários com rodas.

Mas deve ser bem melhor que segurar um cano no teto do coletivo disputando poucos milímetros de piso com o pé do cara ao lado. Do outro lado também. Na frente. Atrás.

Que as metrópoles precisam diminuir sua frota de veículos particulares, é evidente. Mas a frase acima me parece querer matar piolho com martelo.

II

"Se você ensinar seu cachorro a ser vegetariano,
pode amarrar ele com linguiça".

Tá. E o pai do Galego é astronauta.
Não, essa não tem no social. Inventei agora. Mas bate no mesmo ticoeteco do busão.

Indelével

A gente sente saudade do que não é nosso,
geralmente o que nos une na emoção
é um dos cinco sentidos avivado pelo desejo de possuir.

A gente sente saudade por gente que não sente mais nada,
nem vê, nem ouve, sente fome, frio ou cheiro,
mas que está lá em qualquer lugar onde queremos que esteja
mesmo que estar seja apenas uma suposição,
uma ideia triste de solidão.

A saudade cabe entre o polegar e o indicador
apertando uma foto, um bilhete, uma dor,
cabe na insatisfação do desencontro contínuo
e nas flores que mesmo regadas, não terão colo.

Não há saudade melhor que a outra,
nem dos parnasianos, nem dos beatniks
ou cantores com um copo na mão.

É uma abstração do passado
que explode no espanto do pensar
e no pensar no espanto:

- A saudade é indelével,
filhadaputamente indelével.


URNA é coisa racional


Ao partidOanarquistAmacumbadO (PAM) não importa quem vai ganhar o posto de alcaide nas cidades do país, se de direita ou esquerda, contanto que faça todas as coisas públicas funcionarem, pessoas, objetos, repartições e gentilezas.

Ficou provado que tanto uns canhotos quanto destros são desleais e inimigos do povo, por isso, o PAM faz de conta que nunca existiu.

E vai reclamar de uns e de todos como sempre fez. 


Deu nó no dono - deu dó do dono também

As pessoas adoram fotos de bichos e ter bichos.
Também gostam de bichos se acariciando, gatinhos se lambendo, cachorrinhos cuticuti dormindo.
Piram, pulam, vibram, com bichos diferentes se curtindo, tipo chimpanzezinho e pastor alemão, chihuahua e hamster,  dálmatas e patinhos amarelos.
Acham que isso é uma espécie de anti-racismo, um grito pelas liberdades civis, pelos direitos iguais. Isso se chama antropormorfização, na verdade.
Eu também achava que a Táta, minha tartaruga era mal humorada.
Isso funciona porque dá margem a personagens em quadrinhos.

As pessoas deliram, gritam, urram por filhotinhos de toda espécie.

Eu gosto dos vídeos de gatos e cachorros fazendo aquelas besteiras que os donos, entediados com suas humanidades, filmam para partilhar a bestialidade de seus pupilos quadrúpedes.

Aquela do gato gordo que se enfia nas caixas. Ou do cachorrão que arrasta a dona, a mesa, a festa e meia Inglaterra.

II

Todos os dias, no final da tarde, vejo as pessoas passeando com seus cães.

Passeando é eufemismo, na verdade, estão levando os cães pra cagar. E como as pessoas cumprem as regras por aqui, todo mundo carrega uma sacolinha.
O bicho agacha, faz sua graça e o dono recolhe enquanto o cachorro senta e fica olhando o humano de cócoras guardando a merda num saquinho.

Nessa hora me pergunto, quem é dono de quem?

De todos os truques que ensinam aos bichos, cagar na privada seria um tremendo salto evolucionista para caninos e primatas sapiens. Não precisaria nem dar descarga - por enquanto - mas bastaria que o bicho fosse lá e cumprisse com seu dever diário.

De que adianta o cachorro catar elegantemente um disco de frisbee em pleno voo se ele ainda caga em qualquer lugar? Uma coisa realmente compensa a outra?


Mãe, bicicleta e pregadores - nessa ordem


A minha mãe estava na área de serviços lá de casa mexendo nas roupas. Eu não fazia nada de útil nessa época. O bom é que tem época na vida que a gente é bem inútil, coisa entre os 8 e 15 anos pra menos ou pra mais. Nessa época de nada útil, a gente faz coisas inúteis como se fossem as mais importantes do mundo. Tipo jogar botão. Hoje eu acho inútil, mas se colocarem uma mesa e e dois times, jogo até sozinho. Mas não é isso.


A minha mãe estava na área de serviços lá de casa mexendo nas roupas e eu estava por ali mexendo na minha bicicleta. Nessa época, a gente falava bicicleta para a bici. Ela lá entre o tanque e a máquina e eu cá na catraca e nos freios.

Ali no canto havia uma cestinha com pregadores de roupa.

Não sei o que me deu na cabeça e comecei a colocar os pregadores nas costas dela, pendurando na roupa. Vai saber. Preguei a minha mãe em si mesma, uma dúzia ou mais de pregadores como se a roupa tivesse uns três tererês de pregadores.

Passou um tempo e desbaratinei de tudo, bici, área de serviços e tererê na mãe. Não lembro pra onde fui ou o que fui fazer. Um inútil. Não lembro se ela avisou que ia ao mercado - o Mercadão da Cantareira - ou não. Ela foi.

E eu desbaratinado de tudo.

To ali, não lembro onde e aparece a minha mãe com a cara mais p da vida do mundo e a mão cheia de pregadores.

- To indo pro mercadão e onde eu passava, todo mundo olhando. Eu tava me sentindo a gostosona quando a moça me avisou "senhora, tua roupa tá cheia de pregadores".

Comecei a rir e ela também e gargalhamos muito.

Cara, to rindo até hoje.

A mãe do Roberto

- mas ela é surda.

já estava alto. o pessoal tinha agitado uma festona na escola, na escola inteira. eu nem estudava lá, mas estava lá. toda escola tem escadas e todo mundo gosta de ficar nas escadas porque escadas são um excelente lugar para sentar e sentir-se mais íntimo e intimidade é o que todo mundo quer numa festa. a escada estava lotada. os corredores, a rua, a cuca.

numa das salas tinha uma banda de rock sem público. os caras estavam fazendo uma jam psico-eterna. na outra sala dançavam qualquer música. a mistura dos dois sons preenchiam o ar como uma gritaria. a noite nem tinha começado, podia ser dez da noite, podia ser quatro da manhã, podia ser ontem e nunca.
a banda tinha encerrado sua eternidade. só a sala dançante mantinha a música no volume perfeito para todo mundo ficar contente e bater papo e beijar e tatear e procurar.

de repente o som pifou, primeiro um silêncio de meio segundo e na metade seguinte gritos e uivos e urros e vaias. botaram a banda pra tocar. só então percebemos que a banda era ruim e tocava um punk ruim, o que poderia ser bom, mas geralmente quando uma banda punk ruim começa é porque virá outra e mais outra, todas péssimas, mas uma variedade de ruindades o que gera uma estética sonora inviável. naquela noite só havia uma banda, mais biltre, impossível. mas e daí?
escuto meu nome vindo de longe, é o Roberto.
- cara, você e o Valmir vão lá em casa com o meu carro, pegam meu som, deck, ampli, pre-ampli, equalizador, falantes, tudo. minha mãe tá lá, não tem erro.
- porque você não vai?
- porque já to muito chapado.
- eu também to chapado, Roberto.
- mas o Valmir é crente, não bebe.
- então eu vou.
nessa hora o Roberto pegou um papel qualquer e escreveu o endereço, entregou pro Valmir. depois olhou sério para mim, pelo menos tentou olhar sério e disse:
- mas ela é surda.
- quem?
- a minha mãe. ela é completamente surda.
- e dai?

catamos a Belina podre e chegamos no Bexiga. a casa dele era uma casa muito casinha do interior para o meu estado mental e para estar ali no Bexiga, mas São Paulo tem dessas. abrimos a portinha de muros baixos e entramos, as janelas estavam acesas. tentei tocar a campainha e Valmir me encarou atônito com cara de pra quê? rimos. fomos até a varanda e olhamos pela janela lateral, a velha estava rezando, de costas para nós. fudeu.

e rezava para a mãe e o menino Jesus silenciosos. batemos no vidro, na porta, até quase derrubarmos a parede e o bairro. e ela rezava. e balançava o corpo para frente e o Valmir teve a maravilhosa ideia de colocar o carro de frente para a casa e ficar piscando os faróis e foi lá fazer isso.

mas ela rezava de olhos fechados.

ficamos um bom tempo piscando os faróis. voltei pro carro e ficamos piscando os faróis. cigarros, xixi no poste e faróis. finalmente, ela apareceu na janela, acenou, fomos correndo. ela mostrou um cartão:

SOU SURDA E MUDA. FALE DEVAGAR PARA QUE EU POSSA LER SEUS LÁBIOS. OBRIGADA.

tinha o nome dela no papel, faz muito tempo, já esqueci. expliquei a situação. ela sorriu e fez sinal para entrarmos, a acompanhamos até o quarto do Roberto, catamos as traquitanas.

na varanda ela apontou pro carro e riu tipo "ah, o carro do Beto".

voltamos para a escola e o Roberto estava em qualquer lugar com alguém. ligamos o som, botamos um disco e a festa foi até as quatro da manhã, até ontem, até nunca.






Cagões e bobocas

No canto próximo à janela e a tv do lado esquerdo.
Ali ficava observando o cachorro, o filho, o aquário, a nora e os netos cagões e bobocas.

No tribunal dos que não voam

Não pode ficar triste. De todas cláusulas que acertamos nesses dias todos e debatemos e votamos e até gritamos e pulamos aplaudindo nossa unanimidade, ficar triste é uma bobagem, um crime lesa umbigo.

Mesmo hoje, nublado como um almoço de coveiro, cabem momentos especiais no quintal de céu cinza isento da esturricação do sol.

Gaste o cotovelo no muro. Fique horas no portão olhando as pessoas irem e virem, outras voarem, algumas não aparecerem.

Leve uma caneca de café quente bem amargo e cheiroso para mudar a vida dos passantes pelo nariz. É melhor ficar silencioso e ocioso e ver a banda passar, mas triste não.

Na vitrola deixe tocando um velho e bom pianista de New Orleans por toda a eternidade até aprender a falar e cantar com o sotaque dos colhedores de algodão do Delta do Mississippi.

Mas triste, não. A tristeza apaga o sol da alma. O sol da alma cintila nos gestos, no sorriso. Um sorriso, uma caneca de café cheiroso e palmas de blues, não há quem resista a tal alegria. Aproveita e dança. Aumenta o volume e dança até ficar levinho de quase flutuar.

Agora que você está bem, posso pegar o trem.

Varal II



Varal tibetano no fundo de um quintal em Shimoda.
Os budistas escrevem mantras nos lenços.
O vento balança os mantras e carrega as palavras por aí.
Quem pegar, pegou.
Vento é de estufar o peito, fechar os olhos e voar.
Mantra mantra mantra.
Ar, sobretudo ar.

Varal

Um varal precisa de ar,
ar de todos os lados possíveis,
ar que caiba na palma da mão ou aos milhões na ponta de uma agulha,
ar de cara transparente e gosto de nada.
Ar, sobretudo ar.

Um varal bem feito sobe aos céus e faz as roupas dançarem sem música aparentemente audível.
(Nunca se sabe o que toca um varal).

Mas há muita música.
Há dessas bem afinadinhas naqueles sopranos lúdicos com mil sabores de Hortelãs e daquelas que só passarinho esperto tira de ouvido escondido na sombra do bosque.

Varais dançam, despencam, voam, sussurram e são trapézios mágicos para artes tais de outros longínquos sertões.

E/ou locais.

Mares na Lua

Já mandaram um monte de gente pra Lua. 
Um monte assim, coisa de menos que quinze ou vinte, mas gente. 
E na Lua. 
Não deve ser fácil fazer um troço desses, mandar gente pra Lua.

Mas é de uma confusão mental e de uma dificuldade absurda manter uma praia limpa. 

E olha que já teve gente na Lua.

Falando bem, falando mal - falando

Não existe um propósito. Existe uma ideia e geralmente basta arregaçar as mangas. Não tem essa de fazer bonitinho. Nem de fazer para agradar gregos e troianos.
Nunca conheci nenhum grego ou troiano. Se um dia acontecer de trombar com um ou outro, faço um café e agrado do mesmo jeito. Ou faço um aceno de mão. Ou falo que o time dele é bom e que tem um meia esquerda que é meio preguiçoso, mas resolve.
Geralmente esse papo agrada a gregos e troianos.

Os ruídos estão à disposição. Juntar tudo, misturar alegria e melancolia entre microssegundos silenciosos dá-se o nome de música. Não é tão simples, mas é. Tem sua ciência, seu toque.
Hoje quem me comoveu foi Chico Science. Não que sua lírica cause tal efeito, mas pelo fato de saber que aquela música foi uma das últimas que aconteceram enquanto ele misturava ruídos e nos fazia pensar e dançar.
Pensar e dançar. Frejat gritava essa pra gente e a gente gostava porque era possível fazer as duas coisas ao mesmo tempo.
Ontem foi um blues ao vivo do Jon Lord, um solo duca no Hammond do bigode. Esse é outro que morreu.
Se eu continuar nesse pique, vou começar a achar que os vivos andam fazendo uma música bem blé.

Sábado assisti/cochilei o The Avengers, com aqueles heróis todos. Foi como se não tivesse assistido nada. Não acrescentou nada. Filminho bocoió, seu. Uma coisa eu sei, todo roteirista de ação adora explodir Nova York.
Alguns filmes nos fazem crescer. Cinema Paradiso é foda. Se a conta do crescimento fosse jogado na altura, eu estaria com vinte quilômetros depois de ver esse filme. Alta Fidelidade, com John Cusack, é a minha vida num universo paralelo. Não o protagonista, mas o balconista, o Jack Black.
Amarelo Manga também é daqueles de coleção na estante.
Filme de ação pra valer é Old Boy, sul coreano. Punk, sem gente que voa e solta rainho.

Posso citar uns 100 filmes legais. Mas os legais-legais sempre são poucos e pessoais.
Ultimamente tem-se produzido fluxo de ar, brisa de transparência. Explosão de nadas no vazio.

O meu medo é a coisa piorar. E isso parece ser o objetivo dos produtores de entretenimento.

Não gosto da frase sou do tempo em que. Não sou do tempo. O tempo é meu. Meu tempo é o sempre, foi ontem e é agora. Amanhã são outros quinhentos. Mas já foi mais fácil divertir-se com as formas mais simples de entretenimento que são a música e o cinema.

Hoje em dia eu ronco no meio desses espetáculos ocos. Deve ser a idade.

Românticos Anônimos - 2010


Um filme doce. É sobre chocolate, mas é mais doce. 

Diversão garantida. 

Separe o chocolate e não a pipoca. 

Lá pelos 15 minutos já começa a salivação.

FOME


O som de um bife
deitando na chapa
soa como a 5a. Sinfonia.

Não, não.
Van Beet não era vegetariano.
 

Depois passou e ele realmente comprou amendoim torrado

Ele não poderia simplesmente morrer e abandonar seus pássaros empalhados. Ainda faltava pagar uma prestação do falcão peregrino e jamais devolveria o pássaro, nem depois de morto. Foi preciso vender a cabeça de rionoceronte branco, peça raríssima, para os remédios do mês passado e a condução para o médico.
Desde que lhe roubaram a carteira pela quinta ou sexta vez, tem sido uma batalha divina tirar todos os documentos novamente, principalmente a carteirinha do ônibus.
Talvez tenha que vender o tapete de tigre siberiano para passar o próximo mês.
Que nada, já tinha pensado nisso antes, prefere fazer rolo na casa a fazer uma bobagem dessa.
Bem, pra quem já vendeu um carro pra pegar um camarote no Sambódromo só pra ver a Luiza passar, faz de tudo. E dormiu bêbado, Luiza passou e tudo acaba em samba, mesmo.
O Miltinho Bolota tinha oferecido uma grana preta pelo tapete, mas naquela época ele tinha dinheiro. Tinha, depois que começou a sair com aquela viúva, prima do Vitorino, não passa na mesa de cacheta nem pra cumprimentar.
Ele não ia morrer, hoje não. Que morresse outro. Tanta opção nesse mundo e esse maldito desse enfermeiro tropeça e faz a cadeira de rodas descer escada abaixo feito o carrinho de Eisenstein até ele bater de frente com a parede.
77 anos não é idade pra bater de frente com parede, não naquela velocidade.
Quem iria tirar o pó das 13 corujas? Dos 11 canarinhos? Do galo enpedernido abrindo o gogó olhando encapetado pro espelho? Quem iria guardar todas as lembranças que cada bicho lhe trouxe? Ou cada negociata escusa para adquirir cada uma das espécies?
Não, deixe que morra lá pelo meio do mês que vem quando ele vai lá e paga a última promissória com a merreca que vem na aposentadoria. Ou vende a casa.

II
Mas pelo menos a febre baixou, comentou a filha adotiva para o velho senador aposentado, amigo da mesa de cacheta. O senador vai ver, logo passa tudo isso e ele vai lá e compra o amendoizinho torrado pra levar pra mesa de vocês.

Próxima bifurcação: Macondo

Verão acabando e os dias ficando mais curtos para que as noites frescas assim fiquem.
Outono cuidando e bem próximo no calendário. Tempo de tirar poeira do Cem Anos de Solidão para reler e relembrar. Percebo que ainda não o li nessa década. Coisas assim não podem esperar. Esse livro faz a minha vida ser melhor o que não me faz ser uma pessoa melhor, só a minha vida, o que já é bastante promissor.

7 pecados

Hoje pensei nos sete pecados, não lembro porque.

Não sei quais são, nem fui pesquisar.

Mas também fiquei pensando se há sete pecados, há sete, digamos, virtudes.

É só uma questão de ponto de vista, de otimistas e pessimistas.

Todos os catorze são um bom ponto de equilíbrio, isso sim.

Pecado uma ova, mané.

Nesse fim de verão

Eu to aqui mesmo fazendo as mesmas coisas,
as coisas sendo feitas e tudo se encaixando
certo ou errado como deve ser.

Não tem acontecido dias sem sol
ou guarda chuvas abertos
ou flertes com nuvens escuras
o que dá na mesma.

Mas quando disso houve,
me deixei tomar um banho de chuva
daquelas garoas quentes que
salvam sentimentos e lavam almas e pardais.

Mas sim, sombrinhas!
E muitos goles tenros d'água
límpida, etérea e física,
de céus, de montanhas de ar.

Nesse fim de verão
posso desejar alegria
porque bate mesmo é tristeza,
sabe daquela que Vinicius cantava e a gente refletia?

Peixe de aquário

O peixinho dourado de aquário é famoso no mundo todo só que ele não sabe.

Ele não sabe porque é absurdamente tapado. Fizeram tantas mutações estéticas e genéticas no bichinho que o cérebro definhou. Não que uma coisa tenha a ver diretamente com a outra, mas tem, parece que tem. Entre os humanos a relação parece ter fundamento.

Quando ele dá uma volta no aquário, esquece que esteve do outro lado e volta e esquece e fica assim até cagar de novo e ficar com fome e dar outra volta procurando comida onde já esteve, de onde nunca saiu.

Por isso, esqueçam decoração de aquário, escafandrista, caravelinha, plantinha, pedrinha colorida. Pro peixinho de aquário tanto faz uma parede transparente aqui e outra parede transparente lá. Ele só quer saber de abrir e fechar a boca, guelras, abanar o rabo e comer aquela ração com cheiro de galinheiro secando depois de uma chuva de verão.

Experimente, não precisa comer, basta cheirar. Ou você ficará seis meses sem comer frango ou seis meses sem sushi. A lembrança de um, frango, e de outro, peixe cru, será rapidamente associada àquele fedor.

Ele não cresce muito porque se adapta ao tamanho do aquário. E é tão burro que se o dono for um crápula e botar muita ração, ele come tudo até se empanturrar e amanhecer boiando para depois sumir na privada.

Se não cagasse tanto e se aquela bombinha não fizesse tanto barulho e se não fedesse tanto ter aquela água cheia de verme e bosta e bactéria, até teria um ou dois olhando pra mim agora.

Dizem que ele é sociável e gosta de viver em muitos. Mas eles nem nadam em grupos como os cardumes cinematográficos. Acredito que ele olha os outros e pensa:

- Eu ali, oh! Ali e ali! Oh!

Todos devem ter apenas isso na mente. E o papo fica por isso mesmo.

Aquela água fede muito e aquele barulho de geladeira velha que aquelas bolhinhas ininterruptas fazem irritar qualquer um. Até a ele mesmo.

Por isso, observem, podem ter características absolutamente orientais, mas os budistas preferem ter um lago de carpas ali no quintalzinho do templo do que esse peixinho bitolado que não serve pra nada.

Aquele motorzinho atrapalha a concentração de qualquer um, até de um monge bonzinho.

Não sei porque resolvi falar mal do peixinho dourado. Deve ser o tédio. Acho que estou virando um.
Vou lá dar uma volta de bicicleta.

No janela

Eu vejo um homem pela janela e
as cigarras berram amor nesse verão ao redor do homem.

Dos homens e mulheres caminhando em todos sapatos do mundo
e os sapatos nas vitrines esperando os homens e as mulheres.

De fato, a janela é apenas uma janela.
Nada passa através dela, se fechada,
mas é transparente e
imagens e mentiras entram em meus olhos

como dizer que o homem lá fora é um poeta

ou um coletor de impostos bíblico ou músico de esquina
ou senhor de suas idéias ou um cretino perfeito.

Nem homem há. Nem janela,
só um número na loteria de temas
que escolhi hoje de manhã.


3 são as reticências

Algumas pessoas escrevem seus textos e recadinhos e usam as reticências como se fossem uma fila de formigas passeando pela tela ou papel.

Ou botam as tais reticências com quatro pontos.

O que significam os quatro pontos? Uma suspensão maior para os devaneios que se seguem e que teria igual significado aos tradicionais e seculares três pontos?

Suspensão com mais de três pontos de reticências e/ou as formigas estúpidas devem ser algo muito próximo do estado de coma clínico semântico.

Ou um reticente astronauta em flutuante suspensão mandando seu torpedinho.
Pode ser também que a pessoa esteja desmaiando com o indicador apoiado na tecla de ponto e durante a queda tenta se segurar para não desabar de vez.
Mas já fez desabar o idioma e uma regrinha básica: reticências são feitas com apenas 3 pontos. Três.

Então que caia bem estabaque cataplof.

Além de ilegível, esse troço de alterar reticências para mais é feio e ardiloso.

A escrita é um istrumento de comunicação e não matéria prima para cacazinha emocional.

Já conversei sobre isso com um amigo há alguns anos. Na ocasião eu disse que havia lido um email com tantas reticências no final de todas as frases que elas ainda estão valendo. Ainda hoje, penso naquele email - que nem lembro o que propunha - mas sinto e vejo a idéia que ficou por terminar e claro, ainda não concluiu devido ao incontável número de pontos que ainda passam pela minha cabeça feito música chata.

Deveriam criar um software que faz sair uma mãozinha do computador e dá um tapinha na mão de quem tecla quatro pontos de reticências. Se persistir no erro, toma numa martelada. Na terceira vez, a martelada é no teclado.

Depois disso, a própria pessoa se martela na têmpora e cura a humanidade desse tropeço linguístico.


Na sombra do varal

Varal de lenços com mantras tibetanos em Shimoda, Japão, para que a oração escrita siga com o vento que ali bate e abençoe a quem se refrescar.



Poesia é uma coisa muito viva com uma raiz muito profunda e pernas grossas e finas e diapasões em LA absoluto afinando as sensações com seus periscópios multifacetados procurando a sua origem,

porque isso afirmo,

de onde vem, nunca sei não.

Mas ela dura uma ou duas eternidades se finalmente lida e respeitada. Até mesmo expurgada, o que é em vão.
E sai no vento feito oração tibetana amarrada no Himalaia. Até mesmo no quintal.

Macumbinha de monge careca tocando tambor pulando descalço numa tarde de quinta-feira.

No solo os passos da dança do frevo de canções desconhecidas. No pó colorido desenham mandalas e esperam as estações passarem, como é e sempre será.


Aqui

Pode crer.

A Estrovenga dos Corsários Efêmeros.

Se não fosse o control-c, nem eu não ia saber mais o nome desse troço aqui.

Npc artes significa núcleo de pesquisa em cultura e artes





Todo espaço é grande e deve ser preenchido, parece ser uma lei da natureza do universo.

Não importa ter um espaço por ter, todos ocupam um espaço: maior, menor, cabível, infalível, insinuante.

Algumas pessoas o têm e o ocupam apenas com ar. Com falsos e grandes ares de quase. 
Ou menos ainda, com solidão e insatisfação e fazem disso uma vida. Isso é uma proeza generalizada, o que nos torna cúmplices do grito estancado de cada pequena alma de olhos macambúzios.

Espaços são vitais para voos e saltos. Para árvores e flores, vozes, pensamentos e emoções.

Cenas.

Alberto e Déborah preenchem um espaço imenso no Cambuci contra os macambúzios que proliferam pela cidade.

É um oásis onde pássaros e idéias voam pelas paredes e fazem corações sentirem e cabeças pensarem e homens e mulheres correrem pelas escadas e salas em busca de mais idéias e emoções. 

São gigantes passos dados pela satisfação das palmas no fim do dia.

Nada se compara ao final do dia sorrindo. Só outro dia começando para preenchermos mais espaços para mais pessoas, pássaros, canções.

Eu canto por e ouço os tambores de seus corações retumbando arte e arte e arte, assim como quer o sol.

Obrigado.

High tech X tv preto e branco

Cheguei do almoço, o Sho (chinês) e a Aki (japonesa) debatendo com seus I Phones em riste quem era o ator mais bonito, um chinês X ou um japonês Y.

Me pegaram pra voto de minerva, então, qual é mais bonito?

Falei pra Aki escreve ai no Google M-U-S-S-U-M.

A cara dela é inesquecível. A do Mussum também.





Yeahzis.

Ai, ateus

Eu não acredito em fantasmas, deus, deuses, anjos, demônios e sacis. Nem em espiritismo, magia branca, forças do bem e do mal. Não sei se vou morrer. Pode ser que sim, ou não. Provavelmente sim, as estatísticas comprovam, quem nasce foi feito pra morrer, é uma questão de tempo, curto, grosso, longo, chique, fino, casual.

Mas não vejo nada de mal em acreditar. Já acreditei e vi coisas acontecerem na minha mente que só o inexplicável explica. Coincidências brutais que só qualificam a palavra, dando ênfase e decuplicando o significado do que pensamos ser apenas coincidência.

Mas deixei de acreditar e não sei porque. Pode ser que o racionalismo desse século tenha cortado a mística que aprendi e gostei.
Também pode ter sido ilusão juvenil. Basta ter uma utopia no final do capítulo e milhares serão comunistas, socialistas, istas istas. Até mesmo ateus, agnósticos, não-crentes, ateístas (?).

E os jovens, em sua maioria, sempre aos bandos, crentes e não-crentes, raramente solitários como um lobo na estepe, como diria Hermann Hesse em "O Lobo da Estepe" - que não é um livro sobre crenças, mas sobre solidão.

Até para ser ateu, cria-se uma organização com estatutos e ideais contra a existência de deus.
Na verdade, eu vejo como outra religião, sem rezas, sacralizações ou lendas, mas organizada para que seus membros tenham argumentos pré-fabricados para apenas não acreditarem em deus.
Tão pré-fabricados como os que acreditam.
A negação de uns é a afirmação de tantos outros. Uns não existem sem os outros.
Negar a existência de deus não significa ser oposição sistemática aos que acreditam em deus. Isso me parece querer politizar e racionalizar uma forma de pensamento que passa apenas pelo crivo da emoção.

As pessoas que acreditam em deus, elas sentem deus.
Os ateus não sentem. É simples.
E ambos estão com a razão.

The Migo's Day

Não comemoro todos amigos num dia.

Não dá, todos moram longe.

Mas comemoro alguns todos os dias.

Em algum momento do dia, a imaginação engrena e faz um filminho com esse.

Depois aquele.

E assim vai.

O dia passa e os todos dias passam filminhos.


Na verdade eu ia falar de chá de jasmim

O que sustenta a cabeça é o pescoço. O que realmente sustenta a cabeça é pensar e pensar e pensar porque não cansa. Tem gente que pensa que cansa. O que cansa é sustentar a cabeça de forma errada, posição incômoda, travesseiro muito alto, braço de sofá, ficar olhando pro umbigo por duas horas ou passar a vida trocando lâmpadas feito o mito de Sísifo, só que ao invés de carregar uma pedra morro acima pra ela rolar morro abaixo pra ir lá buscar etc, trocar lâmpadas teto acima. E troca e ela queima e troca e ela queima. Porra, que merda.
Tem a coisa de comer banana e não sentir cãimbra por causa do potássio que a fruta contém. Deve ter um remédio simples desses para torcicolo, chupar mixirica, mastigar talo de abacaxi, comer salmão frito no azeite, usar xampú para torcicolo na nuca.
Um cara me ensinou que para curar torcicolo tem que esquentar o pescoço. E não pode ser salonpas ou esfregões na nuca porque esfregão na nunca não é aconselhável por que a pele é fina e a fricção pode irritar até a vermelhidão. O cara me ensinou que tem que levantar o braço num ângulo de 90 graus com relação ao corpo e começar a abrir e fechar as mãos rapidamente até que o calor passe para o braço, depois os ombros e aqueça os músculos e nervos do pescoço de baixo para cima, de dentro para fora. Perguntei por quanto tempo ele disse até a dor passar. Deve demorar. Preferi salonpas. Sempre lembro dessa receita maluca, mas nunca lembro da pessoa que disse isso. Acho que era sarro.
Teve uma vez que tive um torcicolo que durou dias. Fui num japa que fez clec e nunca mais. Depois que parei de fumar nunca mais mesmo.

Eu queria saber quando foi a primeira vez que pensei. Não um assunto sério, coisa de adulto invejoso e triste, nada disso. Queria localizar a primeira associação de idéia e emoção que formei por mim mesmo. Não vale  teta de mãe > refeição > amor > satisfação > falta de satisfação > Freud. Foi bem depois disso. Mais ou menos quando a gente descobre que laranja e amarelo tem um lance em comum, mas criança, sabe cumé, pinta leão de verde. Eu pintei de azul, então não deve ter sido nada com cores. Aliás, lembro bem desse leão porque foi num daquelas revistas para colorir e era de papel-jornal, e provavelmente eu estava com muita raiva, rasguei a revista inteira com lápis de cor Faber-Castell numa total falta de sutileza e tato na dinâmica dos traços.

O pensamento primal me instiga. Lá atrás, em algum lugar único e num momento totalmente interno e brutal como um cometa rasgando o céu ou um grito de mil vozes em uníssono, um pensamento racional se formou. E era meu.
Deve ter pintado uma dúvida em seguida.
E então chorei.

Sofá verde

Verde verde. E não é dos sisudos.
Verde sapo Caco pra descombinar com a cortina laranja laranja.

Porque as paredes são brancas.
Porque amamos a cenografia de Almodóvar.

Porque sofá bege, preto, marrom e branco são
feitos de clichês e ainda têm os estampados que tentam.
Tem aqueles e tem outros.

O nosso será verde e logo vai chegar.

Sonhos (Hoje li um troço do

Os sonhos carregam a alma e a alma é aquilo que a gente fala fala fala e não diz nada assim que saia do lugar ou que seja próximo de algo possivel de entender tocar relaxar ver saber que está por aqui dessa maneira cândida e real como só acontece em poesia ou filme se bem que em teatro é possível se a alma tiver nome de Alma e for um personagem entremeando alguma história mesmo que essa não venha com o enredo óbvio de morte e vida e retorno e vingança ou conselhos porque alma não foi feita pra aconselhar ou se vingar e isso é uma coisa que as pessoas ligadas a religiões perturbadoras e perturbadas que acham que almas virão para assar o pão que o diabo amassou e depois deixar na mesa para que comamos bocados como bobos e tolos inocentes como se fosse o nectar dos vitoriosos o que é uma balela porque alma não tem noção de vitória ou derrota como meio de vida vixi alma com meio de vida é a fantasia mais perfeita para depois de morto pois sempre me ocorrem dores nas costas imaginando a eternidade deitados eu alma carne vísceras ossos e depois se as carnes e ossos e eu-alma ali deitado vendo um programa de televisão chamado "Sua Vida - não saia desse canal" e de repente explode uma onda de excitação através da coluna vertebral que não existe mais até chegar no meio da cabeça que também não existe só o crânio e se espalhar confundindo a palavra sorriso com o ato do sorriso o orgasmo com o ato do orgasmo o banho com o ato da água sem delongas a tristeza que guardei bem guardada naquele canto obscuro da mente mais tenro e livre triste porém que será a gota que desabrocha as primeiras lágrimas de saudade do que é vida essa coisa inteira vida seja árvore fruto caule legume bicho bichos todos bichos até aqueles que só servem pra voar pra bem longe do párabrisa do meu carro que no verão costuma mas não todo dia entardecer lotado de merda porque os bichos que voam perto resolveram ali cagar espalhafatosamente porque o objeto em questão não o alvo mas o bólido vem de alturas superiores a dezenas de homens em pé empilhados uns em cima de outros e tanto lugar pra cagar acertam bem em cima do vidro e do lado do motorista para num ato falho ligar o limpador e espalhar e deixar o vidro borrado opaco imundo disso que a gente faz questão mas nunca ruidosamente porque na sala tem visita e a visita tem ouvidos ou vira e mexe a gente na casa dos outros tem sempre uma horrorosa sensação fora de hora por isso minha mãe sempre me ensinou a cagar antes de sair de casa seja ir pra padaria ou ali jogar bola com os moleques porque não dá pra deixar de cabecear uma bola no ângulo porque pode borrar as cuecas não que eu cagasse toda hora que saísse de casa mas ela dizia essas coisas que só mães dizem e só filhos escutam porque é do lar falar coisas assim nesse tom quase clínico maluco de intimidade enfim cansei de falar de merda e você de ler então quase mudando de assunto vou te dizer que chinês é bem louco no sentido mais bacana de ser bem louco porque eles têm as loucuras de cinco mil anos de civilização cultura e história desde comer gafanhotos fritos no espeto a sopa de ninho de andorinha ou aquele chá de jasmim cuja flor abre glamorosa dentro do bule transparente ou Lao Tzu ou Muralha enfim chinês sabem soltar fogos de artifício e acham que o eclipse da lua é um dragão a engolindo pois fui perguntar ao meu amigo chinês como falava merda em chinês e ele ficou muito bravo comigo perguntando se eu ia ao banheiro pois esse tipo de conversa só se tem antes de ir ao banheiro eu disse ora bolas não foi bem assim na verdade eu disse porra mas merda é merda e todo dia faço então basta você dizer como é no seu idioma e eu fico quieto não falo mais nada desse assunto e ele ficou muito emburrado mesmo acabrunhado e ofendido depois eu falei pra ele xixi cocô xixi cocô fiquei repetindo assim mesmo bem criançola e ele falou what's this eu disse em japonês xixi cocô shonben kusô e ele me olhou com aquela cara de puta que o pariu esse cara não tem jeito mesmo e então pegou um papel e escreveu 糞便 eu olhei aquilo e pensei grande merda e era mesmo mas ele se recusava a dizer a palavra feia imunda que a gente dá descarga e eu comecei a contar uma história aquela que se a gente tá lá atrás do palco e alguém vai entrar em cena e se fosse nos Estados Unidos diríamos break a leg como sinal de sorte mas jamais podemos dizer boa sorte ou good luck porque na nossa esquizofrênica superstição artística na verdade traz um tremendo dum azar ele ficou olhando com cara assustada tipo onde esse cara vai chegar e eu disse que no Brasil dizemos merda e o ator não pode agradecer senão dá azar e ele ficou pasmo não com o não agradecimento do ator mas com o fato da gente dizer palavra feia imunda que a a gente dá descarga numa situação tão bonita que é uma pessoa entrar num palco enfim vencido e assustado com a civilização ocidental ele disse 糞便 fanbien ou coisa parecida na verdade é uma merda só.

Weather Report

Eu curto a banda. Mas não vou falar deles. Vou falar de weather report de verdade.
Não sei qual é o grau de confiabilidade numa situação que está por vir e é caótica e subjetiva, apesar de concreta.
Softwares elaborados resolvem equações complicadíssimas em fuderosos supercomputadores calculando e observando fenômenos estão na ponta de uma antena, na velocidade dos ventos, na umidade do ar.
Eu curto mesmo é assistir ao telejornal para ver o mano ou a mina do tempo. Geralmente o da NHK não erra uma. Apesar de estatal, deve ser por causa do salário.
Caras de televisão ganham bem para aparecer no horário nobre mesmo que seja por alguns segundos e que seja para falar gesticular atuar com um mapa que não está lá e que geralmente ele fala do norte do país e o dedo aponta o meio do Oceano Pacífico.
Aqui em casa, pelo computador, acesso três sites diferentes, todos usando os mesmos dados mandados pela base metereológica de Omaezaki. Iguais.
O que muda mesmo é o humor do técnico ou engenheiro encarregado de decifrar os gráficos e números apresentados.
É como se, por exemplo, o número apresentado fosse 4 (quatro)

e um diz
"um número menor que o infinito, mas maior que 3, sem passar de 5",

o outro diz
"algo entre 1 e 3000, muito próximo do 3 e 5",

e o outro diz
"quase 2, quase 3, quase 5, mas não é nenhum dos três".

Assim. Eles leem o 4 (quatro) assim.

Nem quando está chegando um tufão, eles entram num acordo.

Olha amanhã como vai ser.


Esse cara do canal do tempo (http://br.weather.com/weather/local/JAXX0116?x=12&y=13) é o pessimista. Quando ele escreve tempestades esparsas, vai ser nublado com uma gota na lente dos óculos. É do suor do mormaço.
Acho que ele vive com uma tia que foi tocadora de tuba no exército da salvação. Ela faz sopa de galinha dia sim, dia não e chupa a pele que vai acumulando na borda do prato. O pão é integral, daqueles que se esfarelam quando a gente passa margarina, mesmo as que ficaram fora da geladeira.
Ele tem um chaveirinho mini-isca-de-pesca-esportiva-do-Pantanal-1993 que usa até hoje. Tem as chaves da lambreta, de casa e do armário da academia que ele nunca mais voltou. Ficou assim, quer quer que chova na cabeça de todo mundo, assim como na dele. Pra ele o 4 (quatro) é 2 quase lá.



Esse tem um carrinho bacana, velho, mas cool (http://www.weathercity.com/jp/hamamatsu/).
Gosta de jogar xadrez com um velho chinês tomando chá de jasmim gelado.
Pratica tai chi chuan. Aliás, o velho chinês é o mestre. Estão na mesma partida há 4 anos, na mesma jogada há 7 semanas. É a vez dele.
É um cara realista e cético. Tem uma rotina previamente estudada e pratica algumas simulações aos domingos para não pegar o rush da segunda.
Pra ele o 4 é quatro e pra que perguntar isso, moço?




Esse aqui arrumou esse trampo (http://tenki.jp/forecast/point-1049.html) porque o bico que ele tava fazendo no jornal do centro academico estava acabando com os pulmões dele por causa daquele cheiro de mimeógrafo na sala. Um dia ele quis fumar um cigarro e quase botou fogo na entrevista do vice-reitor prestes a dar um golpe de estado no reitor.
Foram demitidos, ele e o vice.
A prima disse que tava ficando com um cara num site que precisava de alguém que entendesse de números. Batata, começou no dia seguinte e tudo que ele fazia era clicar na chuva ou sol ou lua ou guarda chuva com nuvem chovendo forte  ou nuvem com guarda chuva fechado ou bonequinho de neve ou sol com chuva.
O que ele mais curte é olhar pela janela e sentir o sol. Por isso, quase todo dia é ensolarado para ele. Mesmo quando o que mora com a tia diz que o weather será de tempestades esparsas.

Eu acredito nos três. Faço um balanço, abro a janela e vou na raça.
Prestar atençao em canal do tempo é igual horóscopo, o máximo que pode acontecer é chover na tua cabeça.

Festa Virtual



Tocamos John Coltrane, Beth Carvalho, Led Zeppelin, John Pizzarelli e Dave Brubeck. Mas foi silenciosa como são as festas mentais.

As orquestras mentais também são silenciosas. Podemos ver o regente tresloucado intensificando uma passagem com bemóis sorridentes e gritantes. Ver a dança dos arcos dos violinos suados com seus calores e podemos ouvi-los sem que haja um único som no espaço físico que sugere a imaginação.

Creia, há uma orquestra entre nós neste ligeiro e privativo instante que pactuamos, páragrafo e leitor.

Eita porra, é a tal da arte mútua.

Mas é claro que eu gostaria de rir junto com todos vocês; copo na mão, andando numa praia, correndo no jardim, sentados numa mesa, largados numa sala, tomando chimarrão, cozinhando uma polenta. Qualquer coisa, qualquer lugar.

Com alguns as piadas seriam tão velhas como são as árvores e as pedras. Com outros, inventaríamos tantas novidades e mentiras que virariam verdades e seriam eternas como são essas noites entre amigos.

E aos poucos, no chegar das horas, no final do dia, todos levariam consigo um pouco dessa alegria que estou sentindo.
Assim, concluimos o pacto, ele dura outros 364 dias.
Reais ou virtuais, a gente se vê.

Obrigado pelo carinho.

Corinthians

Amanhã faço 47.


Em 1982, na Copa da Espanha, um dia antes do meu aniversário, o Brasil perdeu em Sarriá para o Paulo Rossi.
Hoje os espanhóis são campeões de tudo.


Em 2012, um dia antes - aqui, por causa do fuso horário - Emerson Sheik lavou a minha alma, 30 anos depois, com dois gols de campeão.




Do mesmo lado que o lateral Super Zé Maria cruzou em bola parada em 1977, o Alex. também de bola parada, ligou o chuveirinho, Sócrates baixou na área, Danilo encorporou o Doutor por 3 segundos e meteu aquela de calcanhar para o Emerson amortecer no peito e fazer um.




Num erro de saída de defesa, Toninho Cerezo entregou o terceiro gol aos italianos em 1982. Erro bobo. Se ele toca pro outro lado, hoje a gente seria hexa.






No mesmo erro, mais crasso e grosso, o rapaz ali de azul, agora e para sempre vice, entregou para o Sheik das Américas dar um tapa e correr correr correr e correr até que o gol surgisse como uma aparição, um alvo, o alvo, a certeza, o abraço, o grito, meu grito, as lágrimas, minhas lágrimas, nossas lágrimas.




Até em futebol de botão a gente canta o hino do Timão.


Agora aguenta.



O Brasil é Argentina


O Corinthians não representa o Brasil na final da Libertadores. Ele representa a Sua Torcida e a si próprio.

O Brasil não gosta do Corinthians e pronto.

Gente idiota


Tem gente idiota por aí. Por aqui também. Ainda bem que não são a maioria, mas todos estão vivos. Os idiotas mortos não contam nas estatísticas, já morreram, não deixam saudades.
O foda de um idiota morto é que por causa de um fenômeno que ocorre no velório, todo idiota morto esticado no caixão vira gente fina. Merece até oração, flores, deus. Idiota morto merece deus, é mole?
Não sei se deus merece idiota morto. A recíproca não é justa pra nenhum dos dois.

Idiotas sobrevivem ao esculacho. Parece que riem por dentro.
Idiotas não têm ego, não sabem o que é isso.
Um idiota profissional não é o pernilongo zumbindo no ouvido.
Ele é O zumbido.
Pernilongos não são idiotas.
Idiotas são pernilongos.
E pousam na sopa.
Ou daqueles que resolvem te chupar o sangue da pálpebra.
Já te aconteceu isso? O olho fica inchado, fica ruim de abrir ou fechar, piscar.
Isso é coisa de idiota.
Idiota parece burro.
Ele pode não ter ego, mas burro não é.
É idiota.

(Dedicado a uma idiota que trabalha comigo. Sem nome ao boi - ou vaca).

Quando penso em Ivan Denissovitch

Já tive a idéia de escrever a cada diferente verbo executado pelo meu corpo ou mente o que aconteceu, meio in loco.

É igual ou quase a uma idéia de um cartunista amigo que queria descrever o suicídio de um cara que saltou do alto de um prédio, desenhando todo o desenrolar e queda saltando junto de prancheta e lápis na mão.
Carvão é melhor, ele disse, é mais romântico.

O meu é mais fácil e longo, desde que acordo. Um dia, apenas um.

6:00 ouvir o despertador escandaloso suprimir meu ego
6:01 abrir os olhos e acordar
6:01 dar tapa no freio do despertador escandaloso
6:01 olhar pro teto e entediar-se
6:01 tirar o pé direito da cama rápido pra não ficar enrolando
601 achar os dois pontos um desmotivador para a literatura e suprimi-los
601 pisar no chão
601 tomar posse do espaço abaixo dos meus pés, ali começa minha individualidade, caráter e presunção de dono do mundo - meu mundo (!)
602 sair do quarto no piloto automático

Um dia ainda chego ao banheiro.

Poucas vezes escrevi num quarto de hotel, uma vez foi uma carta que nunca mandei e nem lembro para quem era. Estava no Rio. Foi triste.

Um em trinta milhões



Sou torcedor e otimista,
nessa frase, nesse entender,
tudo é tão abstrato quanto absurdo.

Na verdade sou pessimista quase niilista crônico,
mas dessa paixão, não nego vitória nem grito.

Não sei o que vai acontecer no Pacaembu,
espero de tudo, são 90 minutos iguais para todos.

Mas é a nossa casa, assim como era a casa deles.
E todos viram, derrubamos o mito do caldeirão.
Caiu o Olimpo e o último bastião porteño.
Romarinho é nosso rei
e o rei não está nu.

Corre pensa pedala

O poeta foi ao correio e gritou esqueçam a primavera,
O poeta não entende de engenho, mas sabe do voo da abelha,
O poeta esqueceu a primavera porque quer por demais o verão.

Gosta de mandacaru com guitarra elétrica bem pesada e da guitarra limpa de Metheny,
Sabe onde mora o sol porque no seu nariz aponta para a luz - de óculos escuros e
faz favor aumenta no talo porque meus tímpanos querem o infinito.

Corre pensa pedala enquanto venta à revelia de qualquer emoção pessoal,
Passa em frente ao sushi-yá "até 23:00" e mais tarde viro um glutão,
corre pensa pedala, pois

Hoje é o dia do meu amor.

O que eu vi na Semifinal de ontem

Por uma questão financeira, acho que o Neymar tem que ir pra Europa.
Pelo futebol, não.
Todo mundo fica Eurocopa, aqui acolá. Chelsea. Real, Barça.

E nós é que somos, capengando hoje em dia, os pentacampeões dentro de campo.

Ele vai aprender o que por lá? Marcação cerrada? Perder o individualismo? Calar-se no banco?

Quando um time brasileiro joga à européia, é pragmático. Quando lá é assim, oh, que europeu!

Neymar, fica. Ou vai.

O Neymar não sabe jogar sob marcação cerrada.
Vai encerrar a carreira européia em dois anos e voltar cheio de vontades, como voltaram a maioria dos milionários da pequena área.

Se ficar, como na semifinal da Libertadores, vira freguês. Então fica.

Os mocinhos

Tipo o Rio+20.
Acho legal um evento onde as pessoas ricas se preocupem com coisas para pobres. Coisas tipo a ecologia, qualidade de vida, esses assuntos em pauta e que são os novos verbetes bombando, orgânicos, planeta sustentável, verde, água para todos, natureza, salvem os cachorrinhos, adotem um cachorrinho, olha a foto do coitadinho do cachorrinho.

Nada contra, tudo a favor.

Mas a mesma ideologia que segue acima do bem e do mal, da média, da lei e dos bons costumes idiotamente corretos e que sustenta o sonho sem culpa de eterno consumo da classe média, é a mesma que reclama do Bolsa Família e diz que o programa governamental de erracadicação da miséria no Brasil é um cabide de emprego, ou não emprego.
É evidente que alguém, milhares, milhões, iam tirar proveito disso e ficar mamando nas tetas do Estado. Mas em qual sociedade, em qual categoria social, serviçal ou servido, não tem seus pilantras? Menos ou mais, em todo lugar tem gente gente e gente animal.

Quanto à parte Índia da nossa Belíndia (Bélgica e Índia), alguém tinha que fazer alguma coisa.
É importante também deixar de ser messiânico e achar que foi o Lula que bolou tudo isso.
Nada disso.
Foi um plano de governo junto ao Estado para a sociedade de pé no chão e famílias nuas vivendo de luz.

É bom sacar a diferença entre governo e Estado.
Ambos são tão abstratos quanto concretos e dão margem a erros de entendimento e percepção de onde começa uma coisa e termina outra.
Basicamente, governos passam e o Estado permanece. A respeito disso, grandes piadas kafkianas estão nos livros do próprio.
Quando governo e Estado se confundem, pode acontecer uma ruptura de um continuum democrático. É muito comum na história da América Latina.

Mas vamos voltar aos cachorrinhos.
 Há mais de 30 anos, Eduardo Dusek cantou "troque seu cachorro por uma criança pobre" em Rock da Cachorra. É um risonho e ligeiro protesto com as madames com seus cachorrinhos-pingente e a miséria que era muito maior que hoje em dia.
Não preciso dizer mais nada. Ele já disse.

Tem os mocinhos.
Mocinho vive fazendo coisa boa nas duas horas que duram um filme: sofre, apanha, leva fora, fica doente, desacreditado, sem amigo, família, vai preso e depois ergue-se empertigado, livra-se do mal e dá um happy end.
Há vinte anos que Hollywood sustenta essa prática com a idiotização e infantilização de seus roteiros. E tome super-herói e desenhinho. Como se não bastasse uma vez, fazem trilogias de todos heróis boboquinhas possíveis.
São deuses: voadores, saltadores, nadadores, sustentáculos da moral inquebrantável, salvadores de mocinhas bonitinhas e engraçadinhas.
Como se o Olimpo fosse em Nova York.

O problema não é fazer filme assim. É quem assiste. Assim como o Bolsa Família ajuda uma grande fatia da população, mas cria seus vagabundos crônicos, o entretenimento circense - que bom! - também gera uma idéia de que tudo pode ser resolvido com uma roupa especial, uma moral especial, um coração especial e uma imortalidade especial.
E todo mundo acha que é mocinho.
Para tanto, a maioria de nós ficamos compassivos com cachorrinhos andrajos - mas cuticutis - e crianças barrigudas da África, contra o trânsito caótico, a cidade suja, o ar fedido, contra leis ecológicas controladoras e leis contra a liberdade de imprensa e expressão, com a violência sexual, urbana, doméstica. Ficamos todos boquiabertos com a rapidez da internet e como isso banalizou a tal violência, agora na nossa cara na velocidade da luz, quase instantes antes da mesma acontecer.

Nós os mocinhos da classe média somos uns bananas hipócritas, sentimentalistas, poluidores, catastróficos, fofoqueiros e reclamões. Como eu que moro há vinte anos fora do Brasil e acho que posso resolver algumas coisas com um texto num blog que ninguém lê.
Mas tento, pelo menos. O que acaba se tornando uma auto-piedade idiota para o mea culpa, acho.

A tal da imortalidade especial.
Como se não bastasse nos amarmos mesmo assim, agora a maioria está virando evangélica. acho que é para se amar mais. A maioria tem fé.
Mas porque? Porque a vida tá uma merda? Porque é moda? Solidão, demônios, possessões, catarse coletiva, vontade de cantar berrando?
Vai prum show de rock, tem tudo isso e só cobram a entrada, sem dízimo.

A maioria realmente acredita num deus que matou o próprio filho - e conta isso pra todo mundo.