As rosas

Sim senhor, uma dúzia de rosas vermelhas, das mais vermelhas possíveis. Sim senhor, tinha algumas abertas, àquela hora da tarde seria impossível ter botões frescos. Não senhor, não era daquelas floriculturas com essas modernas vitrines refrigeradas para conservar flores feitas para morrerem em vasos, por isso algumas delas estavam abertas.

Na verdade pensei em uma rosa para cada ano de nossas vidas em comum, mas o senhor já viu um maço de 35 rosas? É impossível embrulhar, caminhar e carregar no ônibus, levar entre as pessoas dessas ruas lotadas nessa época do ano.

Não tenho carro, já tive. Meu último carro ainda era de carburador, um Del Rey prateado. Se eu tivesse meu fordinho nada disso teria acontecido, teria estacionado em frente à floricultura, tranquilo, na boa, eles têm vagas para clientes.

Quanto tempo pro gesso endurecer? Viado, não ouviu.

Ah, vendi. Foi baratinho. Ele já tava velho, tinha uns pontos de ferrugem na tampa do porta-malas, do lado esquerdo, embaixo. A lanterna do freio não funcionava mais, já tinha trocado a lâmpada, era novinha e nada de acender. Acho que era algum curto ou uma dessas coisas de fusível. Quando fui num mecânico pela última vez, ele riu de mim e do carro. Desisti. É um gordo ali na zona norte, quase na Vila Maria. Não recomendo não.

Pois é, saí da floricultura e atravessei a rua.

Eu sei, ela fica longe de casa, mas eu vi pela janela do ônibus, tava quase na porta de saída e resolvi descer quando vi as flores, lembrei que era nosso aniversário de casamento e que dessa vez eu não ia esquecer uma lembrancinha, daí pensei, porque não flores? Fui lá, queria que fossem 35 rosas, uma para cada ano, e que entregassem em casa, mas a moça falou que o meu endereço era longe e que não ia dar, com jeitinho, só no dia seguinte. Mas no dia seguinte não ia ter o menor sentido. O dia seguinte é só o primeiro dos próximos anos e queria que fossem rosas comemorando o aniversário dos últimos 35 anos. Então ela me mostrou o vaso com 23 rosas e era um maço enorme e ainda, ela disse, tem os adornos do buquê, fita, papel, plástico, essas coisas. Não ia dar não.

Não, preço não era problema. Nesse ano recebi o 13o. adiantado. Passei um cheque. Claro que é especial.

Essa parte o senhor já sabe, atravessei a rua, olhei pros dois lados. Não, olhei pros dois lados antes de pisar no asfalto, passou um carro, do outro lado passou um caminhão, fui, no meio do caminho, veio a moto e me pegou. Tinha um coreano no ponto de ônibus do outro lado da rua que viu tudo. Eu não disse antes? Ah, lembrei agora. Porque lembrei agora? Sei lá. Sim, pode ser, porque o cara era coreano. Sim, sei, podia ser japonês ou chinês. Mas eu sei que era coreano porque meu genro é japonês e eu sei quando um asiatico é um tailandês ou chinês ou japonês ou coreano. E aquele era coreano. Se ele fosse negão, eu não ia saber se ele era angolano ou nigeriano. Mas era coreano, com certeza.

A única coisa que eu quero saber é onde foram parar as minhas rosas?

Olha, minha mulher chegou, o que eu digo?

3 comentários:

Anônimo disse...

Xi!!!!!!

Gladstone Barreto disse...

Xiiiiii!!!

Os dois Xisss são meus, é que meus dois lados responderam, o meu lado anonimo tb!

Anônimo disse...

Atropelado por moto japonesa na certa ? Honda ou yamaha? Eii meu sou eu , Takahashi , o cara do mercado amigo do pica pau , passei pra da diZer que estive ai num desses domingos alias todos os domingos estou em Hama. Mudei pra toyohashiinha mulher estuda ai domingao , mais voltando ao ponto x. Fechou aquele restaurante de prato feio aonde vc compra frango. Falou abraco