Na recepção do ortopedista

I
Blusas, jaquetas e roupas marrons.
Depois que assisti o filme "O Cheiro do Ralo" fiquei influenciado pela idéia de cor de merda, coisa do protagonista, e fico observando as pessoas vestidas de cor marrom para ver se elas não cheiram a merda.
Tem um amigo cartunista que diz que o cartunista que é o roteirista do filme não bate bem da cabeça, clinicamente falando.
O Rei RC também não gosta de marrom. Diz que remete a terra, que remete a cova, a caixão e morte. Ele quer vida ao redor, ui ui.
Flor remete a coroa, mas coroa não remete a coroa. Caixa de sapato a enterro de passarinho. Livro a bíblia, bíblia  a padre, padre a missa, missa a estola roxa que é a da unção dos enfermos.
Meu rei, a vida se remete à morte.
Mas tem um sentido lógico, um padrão.
A merda é o produto final, o escato.
O corpo se alimenta para manter o cérebro vivo.
O último ato dessa manutenção é subtrair o inútil, o marrom.
A subtração da vida é a morte.
O Rei é um gênio com um cérebro muito vivo.

II
Estava lendo um conto de Sartre, "O Muro", do livro do mesmo título e me veio isso na cabeça:

- Onde você estava naquele 11 de setembro?
Ao responder, hesitou como quem quer começar uma mentira.
- Estava na praia.
Em setembro?

III
O médico tem uma voz forte, fala alto com todo mundo. Daqui da recepção dá pra ouvi-lo nitidamente. Ele fala alto/gritando assim porque a maioria dos pacientes são velhinhos e velhinhas entre 80 e 180 anos e já estão meio surdos. Ou o médico está e não sabe.
Vim para a consulta bimestral de manutenção, emplastros e conselhos.
A primeira vez que vim aqui cheguei travado, não conseguia me mover por causa de um clique escroto que deu na coluna, perto da bacia. Ultra dor lombar, sem movimentos bruscos, com longos e silenciosos segundos para descer do carro, caminhar, subir degraus de 3 milímetros, slowmotion de Brian de Palma.
Naquele dia, durante a consulta, ele me disse para tomar cuidado ao sentar no vaso sanitário, aconselhando com aquele vozeirão.
Quando voltei pra recepção, todos olharam pra mim:
- Olha o cagão.

Duas filas de bancos, estou atrás.
Na fila da frente uma velhinha muito muito velhinha de bengala e rugas penduradas na cara, vai e volta da estante de livros e revistas muito lentamente e escolhe com minúcia e perícia as revistas de moda e fofocas. Agora foi uma Vogue japonesa.

Tem velhinhos. Tem um com o olhar muito vivo, redondos e curiosos, sempre olhando ao redor nos observando. A enfermeira veio avisá-lo que não será possível atendê-lo hoje, ela tenta marcar para terça-feira. Ele diz que os emplastros que está usando estão causando feridas parecidas com micoses. Foi atendido na hora.

Tem outro que dorme e ronca e acorda assustado.

O médico grita meu nome nos alto falantes. Quando voltei, sentei do lado de uma velhinha que me encarou com profundo desinteresse.
Mas ela puxa conversa com as mulheres, com todas as outras pacientes ao redor, assuntos médicos, comparando os males.
Diz que não consegue mais dormir de dor. Que vai de táxi pra casa. Há um ano ainda ia caminhando, mas não dá mais. A outra senhora foi chamada para receber os remédios e emplastros. Despediu-se. Sentou uma que deve ser amiga. O assunto é mais sério, sobre os preços das verduras no mercado e dos ovos que quebraram na última compra e que ela teve que voltar só para comprar mais ovos.
Ela fica sentada, curvada sobre os joelhos, parece ser a posição mais confortável. E cheira a peixe frito.

2 comentários:

Rita Almeida Pinto disse...

Queria tanto que vc escrevesse um livro!
Bjs

KS Nei disse...

Eu também!