Resoluções de primeira semana

Podia ser mais simples. Podia dizer que não vou me irritar com gente irritante. Ou não-enfurecer até bufar numa fila burocrática, qualquer uma, cartório, cheque ou repartição pública.
Fila.
Pelo menos no ocidente há dessas. Na inauguração do primeiro Mac Donald's chinês, foi feita uma campanha maciça para ensinar as razões e motivos para respeitar uma fila.
Com os milenares olhos rasgados, quem tem mais grana, homem, forte e mais velho, é atendido primeiro.
E tem que gritar.
Chinês que não grita não leva. E não é coisa de mestre Pu dando coice.

Pois bem, podia ser mais simples.

Venho carregando desde o ano passado o martírio de trocar de carro. Eu amo todos. Qualquer carro japonês é cheio de traquitanas que dá vontade de ter qualquer um.
Fechei com Toyotas e Hondas até a semana passada. Nesses dias, nesse ano, nessa semana, rolam frissons por um Mazda compacto, econômico e moderninho: urbanóide. 
Consumo é uma coisa, necessidade é outra. Quando as duas coisas ficam juntas no desejo, me dão desespero por tentar ser útil e ético. É impossível. E não é fácil soltar alguns milhares de dinheiros por uma coisa que pode ser apenas útil, sem ética nem estética. Ou vice e versa. Ou isso também.

Ninguém tem saudade do ano passado, mas tem de 20 anos atrás.

A única coisa realmente útil que comprei foi uma lupa enorme para conseguir ler um livro do Fritjof Capra que tem as letras horrivelmente miudinhas.
Se envelhecer significa abandonar os livros, a vida é uma grande bosta que vai crescendo cada vez mais.
Fiz óculos para leitura. Não deram certo comigo. Existe uma diferença tática entre os de miopia e esses para ler na cama e não descobri qualé quié da bobagem. Deixei-os na gaveta. Hoje vou usar a lupa. Ela é pesada como ter um outro livro na mão. Sim, a bosta cresce.

Tem umas cervejas belgas que estavam baratas na lojinha de quitutes importados. Na lata dizia 5% de teor. Não sei, não deu barato. Se estou precisando de mais de uma lata para dar um baratinho e se isso está relacionado com o tamanho das letras de qualquer livro, realmente virei uma mosca satélite.

Ainda resta a música.
Escutei Erik Satie até dar vontade de ouvir tarantela e fazer a dança de São Vito.
Dizem que se chama tarantela porque o veneno da tarântula induz ao delírio dançante.
Dizem também que foi São Vito que descobriu que para curar-se do envenamento da aranha, o indivíduo precisava suar para soltar as toxinas.
Dizem, dizem, dizem.
Depois vão dizer que empapucei de Erik Satie. Dizem.

Um carro. Tem também a magnânima idéia de comprar um apê em São Paulo. Um carro, um apê, cervejas.

Vou lá usar a lupa, é mais simples.

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