Tinha

Tinha dia que eu chegava da escola e me fingia de morto. Deitava todo impertigado e ficava imóvel até cair no sono. Ou não caia, não sei bem. Geralmente eu saia daquele transe insano para correr de bicicleta ou atravessar a rua para ouvir o irmão mais novo do Nilson falar da frieira que pegou no mijo da cadela no monte de areia.
Mas não sei se eu era normal na época. Nenhum menino é normal aos 10 anos de idade.
Como eu realmente não era normal, eu caia no sono e acordava assustado com o céu escuro e o silêncio do apartamento solitário.

Tinha dois caras com nomes muito estranhos nessa época que eu não era normal, tinha o Boanerges e o Euconides.
O Boanerges morava numa casa feia com um quintal feio e com duas irmãs muito feias que pareciam com a mãe dele que também era feia. A mãe dele era daquelas pessoas que não tem controle sobre o volume da própria voz e nem sobre os graves e agudos. A voz dela era esganiçada e sempre meio gritante. Sempre que ouço um bule avisando que ferveu, lembro da mãe do Boanerges. E ela não tinha sobrancelhas. Uma vez eu vi o Boanerges com aqueles terninhos que fazem conjunto com shorts. Depois eu perguntei para ele porque ele estava vestido assim. A gente tava voltando da missa, mas é missa de crente, ele disse.
O Euconides morava numa casa que era a casa dos fundos. Mas na frente não havia outra casa, havia uma loja desativada que era a sala deles. A sala deles tinha uma porta de loja e sempre que alguém batia na porta fazia um barulhão lá dentro. Era uma porta perfeita para fazermos de gol, mas era impossível por motivos óbvios. A gente chamava o Euconides de Nico. Se ele ia virar Nico, porque cargas d'água deram-lhe esse nome horroroso?

Tinha a cadela do Nilson que se chamava Menina e que tinha mijado no monte de areia que o irmão mais novo dele pisou e pegou uma frieira incurável. Ele ficou meses com aquela porcaria no pé. Usava chinelo no pé podre e tênis no pé bom. Ele passava um remédio roxo por cima daquela pele remelenta que às vezes virava ferida. Ele dizia que não podia lavar o pé. Devia ser por isso que nunca curava. Nunca soube se curou. Mas por causa do chinelo, ele não conseguia subir na amoreira que havia no imenso quintal do avô do Nilson. Nós atirávamos as amoras brancas e duras na cabeça dele.

Tinha o avô do Nilson que era um português viúvo  e ranzinza que tinha um fusca sempre brilhando, novinho. O Nilson me disse que a cadela chamava Menina porque o avô queria chamá-la de Cadela, mas a mãe do Nilson não deixou.

Tinha uma vida inteira pela frente. E tinha que ir para a escola. Tinha preocupação não.

Um comentário:

Gladstone disse...

Voa o tempo pelos nossos pés!