Turvo

A última coisa que me lembro são das rodas dos carros passando muito perto da minha cabeça que estava grudada no asfalto por causa do sangue. Antes disso eu tinha desligado o celular e procurava o nome da rua em alguma placa. Isso porque alguém, não lembro quem, ia me mandar o endereço de alguém que também não sei quem é. Esta arma não é minha, este documento não é meu, este não é meu nome e não sou eu nessa foto. Não sei meu nome. Sei das rodas passando muito perto da minha cabeça, dá pra sentir o cheiro das pastilhas queimadas dos freios .

A primeira coisa que me lembro é uma janela semi-aberta, um vento fraco balançando suavemente uma cortina branca de renda barata. Não sei de quem é esse colo, mas preciso fazer um esforço enorme com os olhos e a cabeça para ver a cortina se mexendo lentamente. Não gosto do hálito dessa pessoa, ela fuma e despeja seu cheiro, seu suor na minha cara. Não ela não está fumando neste momento, mas já a vi fumando. Me sinto pegajoso porque todo poder que emana dessa pessoa está me envolvendo. Me sinto pegajoso por causa do amor fedido dessa pessoa. Mas é amor, isso eu já senti outras vezes. 

Entre a primeira coisa e a última coisa que me lembro devem ter acontecidos muitas coisas, devo ter vivido uma vida inteira, mas não sei bem o que. Sei que vocês estão aqui e não acreditam em mim.
Nem eu acredito em mim. Como posso acreditar numa pessoa que não sei sequer o nome?  

2 comentários:

Sueli Nascimento disse...

show!

TVA disse...

Lembrou-me daqueles pesadelos quando a gente tenta acordar e (quase) não consegue... ou desses amores que nos atropelam a pretexto de estarem nos socorrendo....