Coisas - pensando sempre em Mário - claro - Quintana

Porque as coisas apenas desaparecem pela casa.
Coisas tipo bibelôs de mesa de centro.
Coisas tipo xerox autenticadas de documentos com fotos horríveis que ficam mais horríveis por causa da copiadora que é de marca coreana.
Coisas tipo sumiu o pé esquerdo da pantufa puída e descolorida.
Tipo o pé direito também.
Somem tubinhos de colírio.
Quantos a gente compra por ano sendo que um tubinho basta para dois ou três anos?
Somem as canetas esferográficas boas e as ruins estão sempre à mão.
Somem meias. Essas vão para dimensões tão impossíveis que nem são mais para os pés.
Meias em outras dimensões servem para marcar páginas em livros, acredito.

Se contarmos todos pregadores de varal que já tivemos na vida, não teremos vida, teremos pregadores de varal.

A cada trinta segundos, somem milhões de pregadores de varal pelo mundo em algum triângulo das Bermudas, junto com as bermudas.

No verão somem as bermudas e aparecem todas as blusas. No inverno, a coisa é a coisa.

Some o sol em dia de chuva.
Chuva:
Uma tarde de chuva é romântica.
Um dia de chuva é estorvo.
Três dias é quase má intenção.

Some o disco e fica a capa,
some a tampa, fica o tuperware,
somem os livros emprestados.

E tem aquilo que a gente quase nunca usa,
caneta vermelha, calendário da padaria, perfume dado,
camisa apertada, sorriso amarelo,
esses, sempre aparecem.





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