Eu era o co-piloto dela

Hoje minha mãe faria 67 anos.

Se conheço os passos que ela daria, ela iria a São Paulo para comemorar. Mas sairia um ou dois dias antes. Ela adorava aquela cidade. Na verdade, ela adorava dirigir. 

Faria a mala no dia anterior, cuidaria do carro, combustível, nível dos óleos, calibragem dos pneus, águas, motor e o lavaria. Até um cheirinho deixaria pendurado na alavanca de câmbio. 
Sempre achou que o carro era uma espécie de vestimenta e que também deveria estar impecável. Na última vez que nos vimos, ela não fumava mais na cabine, já tinha diminuido bastante, mais um pouco pararia.

Ao voltar para casa, cuidaria dos assuntos internos, das torneiras, janelas e trancas. Aguaria o jardim, algumas podas e faria uma refeição leve. O banho, os cremes, e alguns telefonemas, os de saída e os de chegada.

De antemão, já saberia do horário de pico dos caminhões na Régis Bittencourt. Sairia fora dele, claro. Uma última olhada na mala, alguns detalhes, um creme novo, uma loção inigualável. Colocaria a mala no carro para subir novamente para uma última checagem nas janelas, torneiras, luz e o alarme da casa.

Óculos de sol, um tapa no visual no retrovisor e estrada.

Ela amava dirigir. Subia e descia de Curitiba a São Paulo como se fosse até a padaria para os embutidos.

O céu de Dona Adélia é movido a gasolina.

De certa forma, ela foi a primeira beat que conheci, claro, sem os sintomas da santidade incréu e insana de Kerouac e companhia.

No céu em que ela está deve ter auto-estradas de todas formas, com retas, curvas abertas e com paisagens impecáveis. Desde os bananais beirando a Régis às praias mágicas na Rio-Santos ou as curvas das serrinhas de Mairiporã, Mogi-Bertioga ou a Imigrantes.

Ela gostava da Imigrantes. Quando inaugurou, fomos para Santos no velho fusca 68 só pelo prazer de estar naquele asfalto. Ela ficou fascinada com as modernidades daqueles dias, com as longas pontes, a serra sem as curvas íngremes da Anchieta.

Hoje minha mae faria 67 anos. Não fez.

Mas está aqui, me levando para passear.

Feliz aniversário, Mã.




Dona Adélia em algum ponto dos anos 90. 





3 comentários:

Maíra disse...

Saudade que não acaba nunca e nunca acabará. Bjo

Taty disse...

Voltei de SP hoje... lembrei-me dela... Bem o que vc escreveu mesmo... Saudades....

Cecilia Zugaib disse...

Que texto delicado e amoroso, Nei!