Medo, um ano depois

Há um ano atrás, no dia 11 de março de 2011, aconteceu aquele pavoroso tsunami a 700 km daqui de casa.
Durante o terremoto que antecedeu à grande onda, eu estava trabalhando com a cara enfiada dentro de um piano, mexendo nos pedais.
Desde então, o Japão registrou mais de 600 terremotos com magnitude maior que 5 pontos em seu território. Desses, 97 com magnitude maior que 7. Todos réplicas, dizem os especialistas.

Aquele terremoto foi o maior que a história já registrou, 8,9 para alguns e o grau máximo de 9 para outros. Dizem até que deslocou o eixo terrestre em metros.

Lembro nitidamente do Suzuki san dizendo "É terremoto!", eu levantar a cara e ver as lâmpadas fluorescentes balançando.
Terremotos duram segundos, dois, três, no máximo. Esse teve espasmos durante uns dois minutos. Por causa desse tempo enorme, senti o estômago embrulhar.
Devido à distância do epicentro, não sentíamos os tremores ao ponto de nos desequilibrarmos até termos que nos apoiar em paredes, mas sentíamos as pernas tremerem, consequentemente, o corpo todo, como se uma frota silenciosa de carretas passassem pela sala.
Durante esses espasmos, o Nagashima san recebeu um informe "terremoto" no IPhone dando o epicentro em Tohoku (Nordeste). Ainda comentou "foi no meio do mar, não tem problema". Mas sabíamos que aquele era diferente por causa do tempo longo dos tremores.

Ao voltar para casa e ligar a tv para as notícias e ao assistir aquela onda invadindo a cidade, senti o mesmo pavor quando vi os aviões batendo no prédio em Nova York no dia 11 de setembro de 2001.
Percebi que a história não era uma matéria escolar, mas um fato corriqueiro.
Teoricamente, a gente sabe disso. Teoricamente. 
Lembro que em 2001, passei aqueles dias controlando uma possível fobia de aviões (aerodromofobia) e pensava o quanto isso poderia afetar uma possível volta ao Brasil.
E no ano passado, pensei na morte coletiva como numa guerra perdida, afinal, o inimigo era o chão e sua arma era o mar e eu moro numa cidade litorânea.

No dia seguinte ao terremoto, as notícias do vazamento radioativo das usinas de Fukushima.
Depois a área de isolamento de 10 km. Depois 20 km. Pensaram em 30 km.
A um pouco mais de 40 km daqui há a usina de Hamaoka, na cidade de Omaezaki.
Passei dias pensando em possíveis rotas de fuga para as montanhas caso viesse um tsunami. Pensava que todos na cidade estavam pensando a mesma coisa e que seria como na cena do Monte Fuji explodindo no filme de Akira Kurosawa, com gente se atropelando, gerando um caos maior que causado por uma erupção.

Foram dias de pavor associado a uma extrema calma e calculismo estratégico necessário para não se abater diante de tantas desgraças logo ali, a algumas horas de carro.
As garrafas de água mineral sumiram das prateleiras de todos mercados. Muito dessa água foi mandada para lá, para os sobreviventes desabrigados.
As tvs só transmitiam notícias do local, não havia tempo e nem disposição para comerciais, filmes, programas de auditório, músicas. Só notícias, entrevistas com especialistas e depoimentos de sobreviventes.
Começaram a surgir propagandas estatais incitando o povo à solidariedade. Várias.
Imagens de pais e filhos de mãos dadas, pessoas dando informações na rua, jovens e estudantes ajudando velhinhos a subirem escadas, outros dando lugares em trens e ônibus.

Aos poucos, o país voltou ao normal ou a uma situação e comportamento tentando ser igual ao que era antes.
No verão do ano passado, fomos à praia desconfiados de qualquer marolinha mais afoita, mas fomos.
De tudo isso, sobrou uma sensação nova que se instalou na alma e que ficará para sempre.

O tsunami veio, foi embora e deixou isso, o medo de morrer daquele jeito.

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