Louça, sei que já não és pura

Sempre que eu lavo a louça, passa um diário na cabeça.

Geralmente, as manhãs são esquecíveis e esquecidas.
As manhãs são uma peça introdutória, um preâmbulo de algo maior que é o dia inteiro. Pode-ser ler ou não o jornal ou ligar o pc ou abrir a cortina, a janela. Pode ser uma manhã às duas da tarde ou às nove da noite. Pode ser uma manhã que valerá pelo dia todo, uma manhã de doze horas na cama, mas são apenas introdutórias e esquecíveis.
Não, doze horas na cama é de guardar.
Inesquecíveis são manhãs em hotéis por causa do pequeno-almoço que sempre é de fuder. Mas em hotel a gente não lava a louça. Então não vale.

No geral, enquanto lavo a louça, ficam as sensações e algumas imagens que se confundem com a folha de agrião grudada na esponja.

Deve ser a água que traz as lembranças.
Há anos ouvi algo a respeito, uma coisa envolvendo memórias, rios, lembranças, mares, nostalgia, cachoeiras.
 A praia, as margens, o cais e o convés seriam a realidade, a fronteira final entre a zona de conforto e o soluço.
Como se projetássemos tudo na água, numa tela plasma piscina cinza. E como se nos protegêssemos de traumas e sensações que é melhor que fiquem para trás.
Todos temos.
Os romances rompidos, acidentes infelizes, incidentes inevitávei, lutos, essas chatices.

Superá-los é fácil, o difícil é não mantê-los.

Minha zona de conforto deveria ser o avental. Mas não uso. Faço tudo com cautela extrema pra não sair muito molhado da tarefa.

Onde ainda me falta ciência.

Enquanto pequenas bolhas de detergente flutuam lisergicamente ao redor da cabeça, penso nessas horas que passei e acertei e errei.
Lavar a louça serve como um confessionário.

Uma vez o Laerte me disse que tem excelentes idéias lavando a louça. Já tentei, mas tenho apenas lembranças do dia. Se nos últimos anos ele tem criado as tirinhas depois da pia, gostaria muito de saber em que dimensão ele entra quando abre a porta da cozinha.

Também já tentei puxar da memória assuntos pendentes de anos atrás no intuito de, pelo menos na cachola, resolvê-los. Que nada. Os pequenos alhos negros grudados no tefal chamam mais atenção que qualquer contato com outros fatos.

Odeio lavar panelas de pressão. São tropeços, ranzinzisses, letargias, dores lombares nos degraus cotidianos. As panelas de pressão são profundas e guardam segredos culinários por anos até que a válvula estrague ou a borracha arrebente ou sei lá o que faz o óbito dessas valentes e barulhentas caçarolas. 
É preciso girá-las para poder acessar seus recantos sórdidos e longínquos de gordura, feijão, curry, sopa, frango, batatas, músculo, mandiocas. São um saco.

Há anos penso em escrever esse texto enquanto lavo a louça.
Foram milhares de talheres, pratos e panelas. Rios de água fresca passaram pela torneira e viraram lixo no ralo.
A primeira frase, que é o segredo de tudo - acho - demorou para surgir.
E veio. E vai.

Um comentário:

Rita Almeida Pinto disse...

Me empresta seu detergente?
Besos