Dores

Dor de cabeça é ruim porque é dentro da cabeça.
Dor é uma coisa que quanto mais se aproxima da cabeça, mais chata é.

Tipo dor de dente. Além de ser na cabeça, é bem dentro da boca.
Tipo mordida de canto de língua, é dentro do dentro.

Porque dá pra medir o tempo da dor chegar ao cérebro, dependendo do local do corpo.
Claro que topada de dedinho do pé no pé da cama numa manhã gelada e nublada de inverno chega ao cérebro mais rápido que a velocidade da luz.
É bem provável que Einstein tenha dormido numa cama com pés redondos, porque senão toda a teoria de relatividade teria algo mais a dizer.
Ou ele disse tudo aquilo por causa de uma topada.

Hoje tomei uma agulhada pra tirar sangue. Foi rápida a picadinha e tudo aquilo. Mas viro a cara pro outro lado, vi e pensei muito numa maçaneta de porta dourada bem rococó e feia, mas prática com as maçanetas devem ser. Apenas ser.
Odeio tirar sangue, odeio aquele êmbolo sugando meu sangue e a cara de Lestat da enfermeira sorridente - todas enfermeiras japonesas são.
Toda vez que assisto Pulp Fiction fico arrepiado na cena em que Vincent Vega (John Travolta) se aplica heroína na casa do Lance (Eric Stoltz), o traficante. É a famosa cena do "mi casa, su casa".

Mas há analgésicos. Todos. Desde meditação sob luz serena e incensos mágicos do Nepal a tomar aspirinas. Sou mais as aspirinas.
Às vezes não dá tempo pra posição de lótus, a esteira de palha, cd do Ravi Shankar e paz.

Quem tem tempo para uma paz simulada?

Antes de voltar às dores, tem essa coisa de lótus e nirvana e o universo pop.
A Lótus foi a máquina que fez o Emerson Fittipaldi ganhar seu primeiro título mundial de F1. O Brasil inteiro, aliás. Na origem, lótus é a flor budista com seus significados, símbolos e imagens. Qual a relação entre a octanagem do motor V8 e os cânticos nas margens do Ganges?
Tem a banda, o Nirvana. E tem o nirvana que também é coisa budista. Mas banda de rock não se explica, os caras se reúnem pra ensaiar, se embriagam de tudo e alguém aparece com uma idéia, um nome. O nome fica, ganham milhões e dá nisso.
Tem também os avatares e toda sua mitologia. E tem o James Cameron e sua fantástica fábrica de ilusões. Nada igual.

Nada?

Hoje me aconteceu uma dor de cabeça de falta de café. Sabe aquelas?
Eu sou uma máquina de transformar café em xixi. Litros semanais, preciso maneirar.
Cura rápida, sem tempo (paciência) - sempre - para botar o pó, água, ligar a máquina e esperar.
Sem tempo, fui de Nescafé Excella que salvou o dia, a têmpora e o humor.

A frase "sempre sem tempo" acaba se anulando, não?
E "nunca tem tempo" é uma inverdade total.

Essas bobagens me ocorrem enquanto escrevo. Deve acontecer por aí e deve dar vontade de anotar, mas para tal é preciso sair do fio da meada do texto. Deve dar vontade de encaixar e ver o texto tentar-se um quiprocó sem máculas. Impossível. Coisas assim não devem passar pela cabeça. Ou devem, mas acompanhadas de uma caneca de café ao lado, feito aquelas enormes de seriado policial. A dos tiras tem o símbolo da NYPD ou CIA ou FBI. Na minha tem três rolos de papel higiênico. Nada tão simbólico quanto um avatar ou uma flor de lótus, mas higiênicos como uma meditação.





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