A pizzaria do Sr. Terui

A pizzaria do Sr. Terui fica na Perry Road, em Shimoda. É numa construção que tem 120 anos. Tem um aconchego do tamanho do aconchego japonês: três mesas internas e uma externa, nada exuberante. Para entrar, existe uma pequena ponte sobre o canal que a Perry Road margeia, nessa pontezinha fica a mesa externa.


Estávamos turistando o local, babando nos detalhes arquitetônicos, na rua, no raro Japão que ainda persiste entre o hightech e o eterno futuro aqui-agora, quando vimos a porta estreita e o menu de pastas simples.

Nanci pediu uma Caprichosa e eu fui na minha eterna e conservadora tradição glutônica, a Marguerita.
Mesmo sentados lá dentro do aconchego, não tínhamos grandes espectativas quanto às pizzas.

Foram servidas.

Uma delícia!

Pouca gente sabe - e acredita - mas nós paulistanos somos especialistas em pizza. É o mesmo fenômeno que aconteceu com a culinária francesa que no seu melhor, já não é mais francesa.

A Marguerita do Sr. Terui foi uma das melhores que já experimentei. Na primeira oportunidade que ele saiu da cozinha e aproximou-se do pequeno balcão, elogiei o sabor e perguntei se os ingredientes eram importados. Ele disse que a farinha era francesa e a mussarela, italiana. Ele salpica com um parmesão italiano.
Eu disse que estava sentindo um tênue gosto de alho. Sim, ele disse, eu salpico alho frito entre a massa e o molho.
Realmente, uma delícia.
Na Caprichosa que a Nanci pediu, as finas fatias do salame também tinham um ligeiro segredo. Ele disse que era salame italiano, pois o japonês leva amino (aji-no-moto) na sua fórmula e isso não é bom.


Ficamos ali de papo. Ele contou que faz a cerimônia do chá em todo seu rigor, desde as refeições a serem servidas, os três tipos de arroz, os peixes permitidos, os tipos de missoshiro até finalmente, o chá.
As refeições são servidas antes porque o chá dessas cerimônias são muito fortes e seu amargor pode causar um ligeiro mal estar. Para tanto, faz-se uma refeição apenas para tomar o chá.
Contou-nos que eram seis amigos em Shimoda e que as cerimônias eram feitas mensalmente nas casas de cada um. Quimonos e katanas, o Japão de cinema uma vez por mês. Perguntei do silêncio da cerimônia e ele disse que os convivas são postos numa certa hierarquia e que apenas ao primeiro é permitida a palavra, ainda que comedida. Essa hieraquia era trocada a cada mês.
Por algum motivo já não fazem mais a tábula dos seis, não perguntei qual. Mas ele ficou feliz em nos contar.
Um pizzaiolo de mão cheia que faz a cerimônia do chá como há 200 anos, uma maravilha.


Fomos no dia seguinte para despedirmo-nos. Pedimos um café e um creme brulee, outra riqueza para os sentidos. Conversamos um pouco mais sobre qualquer coisa legal.
Prometi voltar antes que ele partisse para viver em Okinawa, seu sonho.

Na próxima quero experimentar alguma pasta.
Cada vez me convenço de que basta sorrir e não se importar com nada, basta crer que somos tutti buona gente.

2 comentários:

Bem disse...

Dizem que os cariocas apreciam essa iguaria com ketchup, para desespero dos paulistanos.

Muito boa essa sua crônica. É um verdadeiro guia de viagem.

Dani (ela) disse...

duas delícias: a comida e o momento.
;)