Sem grilo

Ele queria silêncio, daqueles poderosos e profundos, feitos pra não ouvir nem pensamento. Uma pessoa tinha dito que aquilo era uma falsa esperança de retorno ao útero, uma projeção do Édipo blablablá e então achou melhor não ligar mais pra essa pessoa. Na verdade, jogou fora o celular pra não ouvir mais os 35 tipos diferentes de sons de chamada e nem a voz binária de gente falando de Édipo ou qualquer outra bobagem sob o sol.

Saiu de uma sala ensolarada e ar condicionado, secretária e dois mensageiros para ser varredor de rua porque ninguém conversa com varredores de rua. O salário era tão baixo com relação ao outro emprego que a mulher catou o filho e sumiu. Ótimo, filho é bom, mas berra.
Dizem que ela tá de rolo com um radialista do interior.

Nos dias de folga, subia num trem, depois num ônibus e mais outro ônibus e caminhava um bocado de tempo pra chegar perto de uma cachoeira num fim de mundo enfiado numa montanha enfiada nas montanhas. Conheceu essa cachoeira quando veio junto com um grupo de Hare Krishnas meditar. Até a hora do almoço e aquela fartura de inhame e batata, tudo bem, mas quando os carecas tiraram os pandeiros das bolsas, resolveu sair dali. Perdeu-se ribanceira acima. Encontrou a fonte da cachoeira no alto da montanha e horas depois voltou a pé. Descobrira seu paraíso.
Começou a passar os finais de semana. Numa das caminhadas de fim de tarde, naquele horário em que a luz engana, o céu está lilás e nada parece ser como se mostra ser, caiu num buraco e encontrou uma caverna espaçosa e absolutamente silenciosa. Não ouviu nem o impacto do seu próprio corpo batendo no chão duro de pedra.

Lembrou da infância, da balbúrdia da Praça Bento de Nursia em dia de quermesse e do silêncio que encontrava quando entrava na igreja e se escondia atrás da mesa do altar, deitado no mármore frio. Por causa da arquitetura daquela nave, da textura rígida e áspera das colunas, do chão quadriculado e do cedro dos bancos, o som reproduzia-se com força em direção aos fiéis sem ecoar pelas paredes ou vibrar as janelas e os vitrais coloridos. Até mesmo o som dos sinos sumiam naquele vácuo sonoro de pouco mais de vinte centímetros cúbicos no canto esquerdo do pé do altar benedetino. Vinte centímetros cúbicos onde cabiam uma cabeça e um par de ouvidos que quem dera, fossem inúteis.

Dentro da caverna não pensava em nada, não ouvia nada, nem se alimentava, nada nada por horas, depois dias.

Resolveu fechar-se por lá. Demorou alguns meses, mas trouxe cimento, tijolos, areia e cal aos poucos.

Quando estava depositando o último tijolo sobre a penúltima fila horizontal e um último flerte de luz ainda sublinhava um possível contato com o exterior, pulou um grilo pela fresta tritinando toda uma vida inteira. Pisou nele e ainda ficou girando e esfregando a palma do pé no chão até esmigalhar qualquer fragmento do inseto estúpido e ensurdecedor.

Acho que ainda vive feliz - templo, cova ou útero - mas feliz.

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