Suprema felicidade



I
Ontem fomos a um jazz bar e não tinha jam, mas o cara botou pra tocar esse disco acima, só que em vinil.
Foi a suprema felicidade. Tenho esse disco em cd e já tive uma experiência com Miles quebrando a barreira mitológica entre o analógico e o digital na música, há muitos anos, só que dessa vez, fui ao céu da audição sonora.
O volume estava perfeito. Lá fora estava chovendo. Nanci e eu tomamos um café cada um, pois eu estava dirigindo, não dava pra tomar nada e aqui a multa de álcool + volante é uma facada, quando não dá cadeia.

O bar é um balcão com seis cadeiras e duas mesas por ali. Um corredor. Ali no fundo, um piano, baixo de pau, mics, amplis, trompete, sax e instrumentos de percussão. Fotos, muitas fotos aleatórias e velhas pelas paredes. Em cima do alvará de funcionamento - obrigatório e visível em todos comércios - havia um panfleto de um festival de jazz de 2004.

O volume perfeito, o chiado da agulha coçando o vinil trazendo a saudade que senti da minha vitrola, meu ampli, meus disco. De tão perfeito e doce, comentei com a Nanci que parecia Chet Baker, mas pensei, Chet gravou 'Round About Midnight? Não sei.
O barman e dono, na velocidade da batida de Philly Joe Jones. O café demorou muitos minutos além de um café normal. Que me importa! É Miles!
Um gato preto entrou pela porta estreita, provavelmente fugindo da chuva. Um gato preto bonito que gosta de jazz.

O nome da casa é Chishire Cat Jazz Bar e o dono, Sr. Wada, toca trompete numa banda perfomática. Eu recomendo uma visita.
A coleção de LPs de jazz do homem é uma maravilha.
Mas ele não tem cara de quem toca o que pedem. Por isso, deixa rolar.

II
Quando entrei numa loja de discos em Londres, um solo inebriante de trompete me hipnotizou, me senti um rato de Hamelin. Fui seguindo o som por uma escada caracol até chegar ao balcão do porão da casa. Perguntei o que era aquilo e o cara me mostrou esse disco, o Big Fun. Falou que não tinham em cd, só em vinil. Não dava pra eu facar carregando aquilo numa mochilada pela Europa, anotei o nome do disco e fiquei por ali curtindo o som.
Depois, claro, perdi o papelzinho. Fiquei meses sem saber qual disco do Miles era aquele.
Fui a uma loja de raridades de um blueseiro aqui em Hamamatsu e conversamos sobre o acontecido e ele me mostrou o disco a partir das minhas toscas explicações de como era aquele som.
Disse que não tinham lançado em cd, nem nos EUA, mesmo assim, comprei o LP duplo, caríssimo, importado.
E mais outros meses sem ouvir.
Depois saiu o cd. Comprei, voltei pra casa, botei e o encanto se perdeu.
Realmente, jazz foi feito para ouvir-se em LP. Na verdade, acho que músicas gravadas em estúdios analógicos perdem alguma coisa na conversão digital.
Tecnicamente, não sei o que é, mas tenho a intuição e uma ligeira noção de que estamos perdendo algo importante sem algumas traquitanas e tradições.





Um comentário:

rnt disse...

"Um gato preto entrou pela porta estreita, provavelmente fugindo da chuva. Um gato preto bonito que gosta de jazz."

duas linhas + poéticas e que valem + que muito livro de poesia que já li.