Explosão

Não há nada como uma vida, uma vida enfileirada após a outra, uma vida na frente da outra em filas aleatórias e cartesianas, em filas ordenadas e filas orgiásticas, em filas anacrônicas e filas futuristas, em filas infinitas e inacabadas, em filas sem filas, apenas vidas.

Eu não choro com poesia, tampouco vivo sem.
Como passar a vida e não ter poesia?

Não é necessário comprar um livro de poesias para tê-las, basta pensar em lê-las para que elas aconteçam. Poesias não são tintas pretas num papel e nem letras formando palavras formando idéias formando universos. Poesias são grandes vazios a serem preenchidos por quem as têm.

E quem não as têm, são grandes vazios a serem preenchidos pelas letras, palavras, idéias e universos. Poesia é a grande e eterna utopia alfabética. É possivel cantá-la em código Morse, traço, ponto e traço nas varandas de Garcia Márquez.

Em dias assim posso dizer que chovem labaredas tristes na minha alma, ainda que céticos, eu e minh'alma.
São tantos medos futuros que já os carrego como se fossem desde sempre, sinto-me uma mula de emoções encardidas por meu lombo velho e pela poeira que só a experiência acumula, vil e escrota.
Em dias assim varro a casa com precisão milimétrica onde não escapam as saudades e esses temores do porvir, não deixo que se escondam nas recônditas trevas dos móveis os perigos e angústias.

Bate outra vez a esperança no meu coração.

E ainda mal terminou a primavera e começou o verão, já canto seu outono.

Vês?

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