Nossa Bá

A Ba dançando no casamento da Cris e Daniel, seus netos.
Por causa deles, ela foi bisa também.



I
Minha avó nasceu em Sunayama, na província de Hokkaido, extremo norte do Japão.
Faz tanto tempo que eu não sei quando foi. Mas ela deve ter sido risonha e fofa.

Todos os bebês da nossa família foram e são assim.

Aos sete anos, ela teve que sair de seu vilarejo, ir até o porto e subir numa balsa ou trem ou sei lá até Kobe, de onde partiam os navios para o Brasil.  Eram os pau-de-arara do Japão pós-feudal.

II
Ela me contou que nessa viagem ao Brasil, já estava cansada de comer apenas arroz, peixe seco - quando tinha - e sopa de missô, missoshiro. Num porto, ela acha que era a Indonésia, da pequena fresta redonda entrou um forte cheiro de curry e ela foi correndo ver de onde vinha. Ela disse que um homem escuro vendia o curry em folhas de bananeira com pão ou arroz. Aquele foi o curry que ela jamais comeu e sempre procurou copiar.

E digo, um dos melhores rice-curry do mundo ainda é do minha avó, imbatível. Eu sempre disse pra minha mãe que o dela era melhor, mas desculpa mã, nesse quesito, a Ba detonava.


III
Tem a história do almoço do pai dela, meu bisa, ainda em Hokkaido. Como ela era a mais velha, era a encarregada de levar o bentô (marmita) para o pai na lavoura. Ela disse que devia ter uns cinco ou seis anos. Ia carregando a caixinha de madeira laqueada pela trilha e aconteceu um terremoto, coisa de dois segundos. Apavorada, seguiu em frente, já estava no meio do caminho e quando chegou lá, o velho Okamura continuava lavrando a terra, calmamente.

Isso a tranquilizou muito, por anos.

IV
A minha paixão por história em quadrinhos vem dela. Ela amava O Recruta Zero, gargalhava muito de lacrimejar e quase cair da poltrona.
Não preciso dizer mais nada.

Ela também gostava da Praça da Alegria, na fase de ouro com o Manoel da Nóbrega.

V
Ìamos nos domingos nos velhos Cine Jóia e Niterói, na Liberdade, ver filmes japoneses, os mais melodramáticos. Ambos já fecharam há anos depois da derradeira fase pornô e igreja evangélica que passam as velhas salas. Fomos várias vezes e não lembro o que assisti, mas sempre tem um ou outro ator japonês da antiga que vejo num livro, revista ou poster e sempre me dá uma estranha vontade de comer rice-curry.  

VI
Um dia achei um caderninho todo engordurado com algumas coisas escritas em japonês e em português, com aquelas letrinhas soltas, como ela escrevia as palavras. Eu devia ter uns dez anos e a única coisa que recordo era da palavra sol... e ela tomou rápido da minha mão.
Nunca me deu bronca, mas senti que tinha invadido um terreno proibido.
Eram poemas.

VII
A Ba tinha um pequinês preto que me odiava, o Yuri. Por causa dele descobri quem foi Gagárin. O Yuri tinha por hábito comer kamaboko, uma iguaria à base de peixe.

Deve ter sido o único cachorro com hálito de gato do mundo.

VIII
Com ela aprendi a comer ovos com shoyu mexidos na frigideira, no café da manhã. Numa viagem com os brothers a Monte Verde, o Cea adorou.

IX
Esteve doente por alguns anos, muito doente. Eu estive longe, muito longe. Na última vez que nos vimos e ela ainda estava um pouco lúcida, ela perguntou à minha prima Tati quem é aquele moço na sala - ele vai almoçar aqui?

- Ba, é o Neizinho, seu neto!
- Nossa, como ele cresceu!

X
Estive no Brasil em 2010 e ela já não estava mais tão animada e vívida, mas tivemos diálogos insólitos. Certa vez, enquanto a Kinha (filha mais nova) fazia sua maravilhosa lasanha, escrevi em alguns papéis ideogramas japoneses e ela ia lembrando e recitando para mim o que estava escrito. Fui escrevendo coisas familiares, nomes de parentes, coisas japonesas, até que escrevi TAMY, (タミ), e ela risonha, disse:

- Sou eu!

XI
Hoje, sete de junho de 2012, a Ba faleceu dormindo. O pai dela foi assim. A minha mãe foi assim. Assim será.

3 comentários:

Maíra disse...

Tbm como ovos mexidos com shoyu... nao sabia que era invenção da Ba. Alias nao sabia de mtas historias dela.. e carrego o nome dela tbm... Que agora ela possa descansar... Bjo

Taty disse...

:) Muito bonita a homenagem... O pequines era da minha mae rsrs... O que sempre me deu agua na boca só de lembrar sao os bolinho de queijo... Lembro que a Ba fazia sempre os bolinhos para meu aniversario... E a paixao por baralho que começou desde cedo por causa dela rs Alias... são muitas lembranças boas... Que ela esteja em paz agora

Mariana disse...

Os homenagem e as lembranças são sempre boas e emocionam a todos.
Eu queria fazer uma sopresa a uma amiga e pedi comida chinesa delivery com todas as coisas que ela gosta.
A verdade que foi muito agradável! A homenagem foi diferente, mas também conta.