Os mocinhos

Tipo o Rio+20.
Acho legal um evento onde as pessoas ricas se preocupem com coisas para pobres. Coisas tipo a ecologia, qualidade de vida, esses assuntos em pauta e que são os novos verbetes bombando, orgânicos, planeta sustentável, verde, água para todos, natureza, salvem os cachorrinhos, adotem um cachorrinho, olha a foto do coitadinho do cachorrinho.

Nada contra, tudo a favor.

Mas a mesma ideologia que segue acima do bem e do mal, da média, da lei e dos bons costumes idiotamente corretos e que sustenta o sonho sem culpa de eterno consumo da classe média, é a mesma que reclama do Bolsa Família e diz que o programa governamental de erracadicação da miséria no Brasil é um cabide de emprego, ou não emprego.
É evidente que alguém, milhares, milhões, iam tirar proveito disso e ficar mamando nas tetas do Estado. Mas em qual sociedade, em qual categoria social, serviçal ou servido, não tem seus pilantras? Menos ou mais, em todo lugar tem gente gente e gente animal.

Quanto à parte Índia da nossa Belíndia (Bélgica e Índia), alguém tinha que fazer alguma coisa.
É importante também deixar de ser messiânico e achar que foi o Lula que bolou tudo isso.
Nada disso.
Foi um plano de governo junto ao Estado para a sociedade de pé no chão e famílias nuas vivendo de luz.

É bom sacar a diferença entre governo e Estado.
Ambos são tão abstratos quanto concretos e dão margem a erros de entendimento e percepção de onde começa uma coisa e termina outra.
Basicamente, governos passam e o Estado permanece. A respeito disso, grandes piadas kafkianas estão nos livros do próprio.
Quando governo e Estado se confundem, pode acontecer uma ruptura de um continuum democrático. É muito comum na história da América Latina.

Mas vamos voltar aos cachorrinhos.
 Há mais de 30 anos, Eduardo Dusek cantou "troque seu cachorro por uma criança pobre" em Rock da Cachorra. É um risonho e ligeiro protesto com as madames com seus cachorrinhos-pingente e a miséria que era muito maior que hoje em dia.
Não preciso dizer mais nada. Ele já disse.

Tem os mocinhos.
Mocinho vive fazendo coisa boa nas duas horas que duram um filme: sofre, apanha, leva fora, fica doente, desacreditado, sem amigo, família, vai preso e depois ergue-se empertigado, livra-se do mal e dá um happy end.
Há vinte anos que Hollywood sustenta essa prática com a idiotização e infantilização de seus roteiros. E tome super-herói e desenhinho. Como se não bastasse uma vez, fazem trilogias de todos heróis boboquinhas possíveis.
São deuses: voadores, saltadores, nadadores, sustentáculos da moral inquebrantável, salvadores de mocinhas bonitinhas e engraçadinhas.
Como se o Olimpo fosse em Nova York.

O problema não é fazer filme assim. É quem assiste. Assim como o Bolsa Família ajuda uma grande fatia da população, mas cria seus vagabundos crônicos, o entretenimento circense - que bom! - também gera uma idéia de que tudo pode ser resolvido com uma roupa especial, uma moral especial, um coração especial e uma imortalidade especial.
E todo mundo acha que é mocinho.
Para tanto, a maioria de nós ficamos compassivos com cachorrinhos andrajos - mas cuticutis - e crianças barrigudas da África, contra o trânsito caótico, a cidade suja, o ar fedido, contra leis ecológicas controladoras e leis contra a liberdade de imprensa e expressão, com a violência sexual, urbana, doméstica. Ficamos todos boquiabertos com a rapidez da internet e como isso banalizou a tal violência, agora na nossa cara na velocidade da luz, quase instantes antes da mesma acontecer.

Nós os mocinhos da classe média somos uns bananas hipócritas, sentimentalistas, poluidores, catastróficos, fofoqueiros e reclamões. Como eu que moro há vinte anos fora do Brasil e acho que posso resolver algumas coisas com um texto num blog que ninguém lê.
Mas tento, pelo menos. O que acaba se tornando uma auto-piedade idiota para o mea culpa, acho.

A tal da imortalidade especial.
Como se não bastasse nos amarmos mesmo assim, agora a maioria está virando evangélica. acho que é para se amar mais. A maioria tem fé.
Mas porque? Porque a vida tá uma merda? Porque é moda? Solidão, demônios, possessões, catarse coletiva, vontade de cantar berrando?
Vai prum show de rock, tem tudo isso e só cobram a entrada, sem dízimo.

A maioria realmente acredita num deus que matou o próprio filho - e conta isso pra todo mundo.



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