Na verdade eu ia falar de chá de jasmim

O que sustenta a cabeça é o pescoço. O que realmente sustenta a cabeça é pensar e pensar e pensar porque não cansa. Tem gente que pensa que cansa. O que cansa é sustentar a cabeça de forma errada, posição incômoda, travesseiro muito alto, braço de sofá, ficar olhando pro umbigo por duas horas ou passar a vida trocando lâmpadas feito o mito de Sísifo, só que ao invés de carregar uma pedra morro acima pra ela rolar morro abaixo pra ir lá buscar etc, trocar lâmpadas teto acima. E troca e ela queima e troca e ela queima. Porra, que merda.
Tem a coisa de comer banana e não sentir cãimbra por causa do potássio que a fruta contém. Deve ter um remédio simples desses para torcicolo, chupar mixirica, mastigar talo de abacaxi, comer salmão frito no azeite, usar xampú para torcicolo na nuca.
Um cara me ensinou que para curar torcicolo tem que esquentar o pescoço. E não pode ser salonpas ou esfregões na nuca porque esfregão na nunca não é aconselhável por que a pele é fina e a fricção pode irritar até a vermelhidão. O cara me ensinou que tem que levantar o braço num ângulo de 90 graus com relação ao corpo e começar a abrir e fechar as mãos rapidamente até que o calor passe para o braço, depois os ombros e aqueça os músculos e nervos do pescoço de baixo para cima, de dentro para fora. Perguntei por quanto tempo ele disse até a dor passar. Deve demorar. Preferi salonpas. Sempre lembro dessa receita maluca, mas nunca lembro da pessoa que disse isso. Acho que era sarro.
Teve uma vez que tive um torcicolo que durou dias. Fui num japa que fez clec e nunca mais. Depois que parei de fumar nunca mais mesmo.

Eu queria saber quando foi a primeira vez que pensei. Não um assunto sério, coisa de adulto invejoso e triste, nada disso. Queria localizar a primeira associação de idéia e emoção que formei por mim mesmo. Não vale  teta de mãe > refeição > amor > satisfação > falta de satisfação > Freud. Foi bem depois disso. Mais ou menos quando a gente descobre que laranja e amarelo tem um lance em comum, mas criança, sabe cumé, pinta leão de verde. Eu pintei de azul, então não deve ter sido nada com cores. Aliás, lembro bem desse leão porque foi num daquelas revistas para colorir e era de papel-jornal, e provavelmente eu estava com muita raiva, rasguei a revista inteira com lápis de cor Faber-Castell numa total falta de sutileza e tato na dinâmica dos traços.

O pensamento primal me instiga. Lá atrás, em algum lugar único e num momento totalmente interno e brutal como um cometa rasgando o céu ou um grito de mil vozes em uníssono, um pensamento racional se formou. E era meu.
Deve ter pintado uma dúvida em seguida.
E então chorei.

Um comentário:

Paulo RT disse...

Olhando o Alexandre, penso muito nisso, imagine a responsabilidade.
Percebo atos reflexivos na passividade se transformarem aos poucos em atos intencionais. De repente algo chama a atenção e ele olha um pouco mais, outro dia ele toca, outro ainda ele vai atrás. Alguma vez ele quer ir, não consegue e chora, então mexe as pernas como se fizesse exercício para se fortalecer até que consegue e vai emitindo sons de alegria e vitória.
É como, se não for isso mesmo, se cada coisinha nova oferecesse uma oportunidade para conquistar uma nova habilidade. E penso que em cada situação assim, a mente evolui, os pensamentos nascem e a personalidade se forma.