Peixe de aquário

O peixinho dourado de aquário é famoso no mundo todo só que ele não sabe.

Ele não sabe porque é absurdamente tapado. Fizeram tantas mutações estéticas e genéticas no bichinho que o cérebro definhou. Não que uma coisa tenha a ver diretamente com a outra, mas tem, parece que tem. Entre os humanos a relação parece ter fundamento.

Quando ele dá uma volta no aquário, esquece que esteve do outro lado e volta e esquece e fica assim até cagar de novo e ficar com fome e dar outra volta procurando comida onde já esteve, de onde nunca saiu.

Por isso, esqueçam decoração de aquário, escafandrista, caravelinha, plantinha, pedrinha colorida. Pro peixinho de aquário tanto faz uma parede transparente aqui e outra parede transparente lá. Ele só quer saber de abrir e fechar a boca, guelras, abanar o rabo e comer aquela ração com cheiro de galinheiro secando depois de uma chuva de verão.

Experimente, não precisa comer, basta cheirar. Ou você ficará seis meses sem comer frango ou seis meses sem sushi. A lembrança de um, frango, e de outro, peixe cru, será rapidamente associada àquele fedor.

Ele não cresce muito porque se adapta ao tamanho do aquário. E é tão burro que se o dono for um crápula e botar muita ração, ele come tudo até se empanturrar e amanhecer boiando para depois sumir na privada.

Se não cagasse tanto e se aquela bombinha não fizesse tanto barulho e se não fedesse tanto ter aquela água cheia de verme e bosta e bactéria, até teria um ou dois olhando pra mim agora.

Dizem que ele é sociável e gosta de viver em muitos. Mas eles nem nadam em grupos como os cardumes cinematográficos. Acredito que ele olha os outros e pensa:

- Eu ali, oh! Ali e ali! Oh!

Todos devem ter apenas isso na mente. E o papo fica por isso mesmo.

Aquela água fede muito e aquele barulho de geladeira velha que aquelas bolhinhas ininterruptas fazem irritar qualquer um. Até a ele mesmo.

Por isso, observem, podem ter características absolutamente orientais, mas os budistas preferem ter um lago de carpas ali no quintalzinho do templo do que esse peixinho bitolado que não serve pra nada.

Aquele motorzinho atrapalha a concentração de qualquer um, até de um monge bonzinho.

Não sei porque resolvi falar mal do peixinho dourado. Deve ser o tédio. Acho que estou virando um.
Vou lá dar uma volta de bicicleta.

Um comentário:

Bem disse...

Gosto de laguinhos com carpas.